segunda-feira, 16 de maio de 2016

Reforma da reforma e o futuro do Missal de Pio V


Reforma da reforma e o futuro do Missal de Pio V


O presente artigo trata-se da tradução de uma conferência feita pelo então teólogo Cardeal Joseph Ratzinger na Abadia de Notre-Dame de Fontgombault, no ano de 2001.

A "reforma da reforma"

O professor Spaemann tem razão: a "reforma da reforma" se refere naturalmente ao Missal reformado, não ao Missal anterior. O que se pode fazer, dado que finalmente nosso objetivo comum - me parece - é a reconciliação litúrgica e não o uniformismo? Não estou a favor do uniformismo, mas naturalmente temos que estar contra o caos, contra a fragmentação da liturgia, e, neste sentido, também a favor da unidade na observância do Missal de Paulo VI. Parece-me que este é um problema prioritário: como voltar a um rito comum reformado - se se quer -, mas não fragmentado ou deixado à arbitrariedade das comunidades locais, ou de alguns grupos de comissões e de peritos? A "reforma da reforma" é, portanto, uma questão que se refere ao Missal de Paulo VI, sempre com esta finalidade da reconciliação no interior da Igreja, porque, no momento, existe uma oposição dolorosa e estamos ainda longes da reconciliação, se bem que os dias que vivemos juntos aqui são um passo importante até esta reconciliação.

Para o Missal em vigor o primeiro ponto seria, na minha opinião, rechaçar a falsa criatividade que não é uma categoria da liturgia. Se recordou mais uma vez, o que o Concilio disse realmente sobre isto: somente a autoridade eclesiástica é quem decide, não é o direito de um sacerdote ou de algumas pessoas que muda a liturgia. Mas no novo Missal encontramos com bastante frequência fórmulas como: sacerdos dicit sic vel simili modo [...] ou melhor: Hic sacerdos potest dicere [...]. Esta fórmula do Missal oficializa o direito a criatividade; o sacerdote se sente quase obrigado a mudar um pouco as palavras, demonstrar que é criativo, que atualiza em sua comunidade esta liturgia; e com esta falsa liberdade que transforma a liturgia em catequese para esta comunidade. Se destrói a unidade litúrgica e a eclesialidade da liturgia. Parece-me, portanto, que seria muito importante para a reconciliação que o Missal fosse liberto desses espaços de criatividade que não respondem a realidade profunda, ao espírito da liturgia. Se com uma semelhante "reforma da reforma" se pudesse voltar a uma celebração fiel, eclesial, da liturgia isso seria, na minha opinião, já um passo importante, porque a eclesialidade da liturgia apareceria de novo claramente.

Fonte: O catequista
O segundo tema que falei são as traduções: o canonista Rose nos disse coisas importantes, a crise é quase ainda mais grave nos Estados Unidos [desconhecia a lastimável situação brasileira!!!], no mundo aglófono, com a mudança permanente da linguagem, com o problema do politicamente correto e da linguagem inclusiva. Há comunidades nos Estados Unidos que, em nome da linguagem inclusiva, já não se atrevem a dizer "Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo" porque isso é "machismo": Pai e Filho são dois homens. Então se diz: "Em nome do Criador, do Redentor e do Espírito Santo". É somente um exemplo para mostrar a gravidade deste problema e a insistência de alguns bispos (não da Conferência Episcopal como tal) em que se utilize o que eles chamam de linguagem real; o outro já não seria, segundo eles, linguagem real. A linguagem inclusiva faz desaparecer coisas essenciais, como por exemplo, nos salmos, toda a estrutura cristológica, porque as palavras masculinas estão proibidas. Consequentemente, o problema das traduções é um problema grave. Há um novo documento da Santa Sé sobre este problema, que constitui, me parece, um avanço muito real. Queria observar isto: deveriam se conservar alguns elementos de latim na liturgia normal, uma certa presença do latim, como vínculo de comunhão eclesial, me pareceria importante.

O terceiro problema é a celebração versus populum. Como escrevi nos meus livros, creio que a celebração para o oriente, até Cristo que vem, é uma tradição apostólica. No entanto sou contra a revolução permanente nas igrejas, se reestruturaram agora tantas igrejas que voltar a começar de novo neste momento não me parece, em absoluto, oportuno. Mas se sempre houvesse sobre os altares uma cruz, uma cruz bem à vista, como ponto de referência para todos, para o sacerdote e fieis, teríamos nosso oriente, já que finalmente o Crucificado é o oriente cristão, e, sem força, se poderia - me parece - fazer isso: dar como ponto de referência o Crucificado, a cruz, e assim uma nova orientação a liturgia. Creio que esta não é uma questão puramente externa: se a liturgia se realiza em um círculo fechado, se existe somente o diálogo sacerdote-povo, estamos diante de uma falsa clericalização e a faltar de um caminho comum até o Senhor, até o qual todos nos voltamos. Portanto, ter o Senhor como ponto de referência, para todos, sacerdote e fieis, me parece algo importante e totalmente viável e realizável.

O futuro do Missal de São Pio V

Conheço muito bem a sensibilidade dos fiéis que amam esta liturgia, é também um pouco minha própria sensibilidade. E neste sentido, compreendo o que nos disse o professor Spaemann ao afirmar: se não se conhece a finalidade de uma reforma, por pequena que seja, se se deve pensar que somente é um passo intermediário até uma perfeita revolução, isso sensibiliza aos fiéis. E neste sentido, se deve ser muito prudente com as eventuais mudanças. No entanto, disse também - o destaco - que seria fatal se a antiga liturgia se encontrasse como em um congelador, como em um parque nacional, um parque protegido para um determinado tipo de pessoas, às quais se deixariam estas relíquias do passado. Isto seria - como nos disse o professor De Mattei - uma espécie de inculturação: "Também existem conservadores, deixais a este grupo sua inculturação!". Com semelhante redução ao passado, não se conservaria este tesouro para a Igreja de hoje e de amanhã. Parece-me que, em todo caso, se deve evitar que esta liturgia fique petrificada em um congelador para um certo tipo de pessoas.

Esta deve ser também uma liturgia da Igreja e sob a autoridade da Igreja; e somente nesta eclesialidade, neste vínculo fundamental com a autoridade da Igreja, pode dar tudo o que pode dar. Naturalmente, se pode dizer: já não temos confiança na autoridade da Igreja depois de tudo o que vivemos nos últimos trinta anos. Ter confiança na autoridade da Igreja é um princípio católico fundamental. Sempre me impressionou muito uma reflexão de Harnack em uma discussão com Peterson, teólogo protestante então em via de converter-se; Harnack respondeu as questões deste jovem colega: é evidente que o princípio católico Escritura e Tradição é melhor, é o princípio junto e implica a necessidade de uma autoridade na Igreja, mas mesmo se o princípio como tal, o princípio católico, é justo, vivemos melhor sem a autoridade e sem as possíveis influências desta autoridade. Tinha a confiança de que a razão livre que estuda a Escritura chegaria à verdade e que isto era melhor que estar submetido a uma autoridade que pode ter falhas. Está correto, poderá falhar, mas a obediência a esta autoridade é, para nós, a garantia de estar na obediência ao Senhor. Se adverte, sem dúvida, muito drasticamente as pessoas que exercem autoridade, de que não a exerçam como um poder. A autoridade na Igreja é um exercício de obediência. Quando o Santo Padre decidiu que a Igreja não possui a faculdade de ordenar mulheres, era um exercício de obediência a grande Tradição da Igreja e ao Espírito Santo. Para mim, foi muito interessante ver os progressistas mais radicais e os mais ferozes adversários do Magistério que nos diziam: "Não! A Igreja pode fazer isto, deveis fazer uso de vossas faculdades!". Não, a Igreja não pode fazer tudo, o Papa não pode fazer tudo. Parece-me que diante de uma autoridade que, na situação atual, se faz ainda mais conscientemente um exercício de obediência, todos podem ter, devem ter esta confiança.
Para ser mais concreto, não faria nada neste âmbito por enquanto; está claro. Mas, no futuro, deveria se pensar – parece-me - em enriquecer o Missal de 1962, introduzindo santos novos; existem agora figuras importantes de santos: penso, por exemplo, em Maximiliano Kolbe, Edith Stein, os mártires da Espanha, os mártires da Ucrânia e tantos outros, mas também nessa Bakita do Sudão, que sai da escravidão e se faz livre na fé ao Senhor; há muitas figuras realmente belas que nos são necessárias. Portanto, abrir o calendário do antigo Missal aos novos santos, fazendo uma seleção bem meditada, me parece uma coisa oportuna que não destruiria nada do tecido da liturgia. Poderia se pensar também nos prefácios, que procedem igualmente do tesouro dos Padres da Igreja, por exemplo para o Advento e outros. Por que não incluir estes prefácios no antigo Missal?

Assim, se deveria entender, com uma grande sensibilidade, com uma grande compreensão até as preocupações e medos, em contato com os responsáveis, que este Missal é também um Missal da Igreja, e sob a autoridade da Igreja, que não é uma coisa protegida do passado, mas uma realidade viva na Igreja, muito respeitada em sua identidade e em sua grandeza histórica, mas também considerada como algo vivo, não como algo morto, uma relíquia do passado. Toda a liturgia da Igreja é sempre algo vivo, uma realidade que se encontra acima de nós, não submetida a nossas vontades e a nossas intenções arbitrárias. Estes são os comentários que queria fazer.

Para citar: RATZINGER, Joseph AloisiusObras completas: Teologia da liturgia. Madri: Biblioteca de Autores Cristianos, 2012. 561 p. ISBN: 978-84-220-1609-0. Publicado no blog Regozija-te com a verdade, aos 16 de maio de 2016. Tradução de Gabriel Luan Paixão Mota.

O problema dos ritos romanos no rito romano


O problema dos ritos romanos no rito romano

O presente artigo trata-se da tradução de uma conferência feita pelo então teólogo Cardeal Joseph Ratzinger na Abadia de Notre-Dame de Fontgombault, no ano de 2001.


O fato desta coexistência é evidente, como mostrou muito bem, e de maneira muito convincente, o padre Folsom e também o professor Spaemann. O padre Folsom enunciou de forma clara duas consequências: não há razões litúrgicas contra esta pluralidade, mas existe o problema dos critérios canônicos e - como ele disse - políticos; diria melhor, pastorais. E aqui está realmente o problema para a autoridade da Igreja: quais são os critérios?

Santa Missa celebrada segundo o Missal de 1962 (hoje, forma extraordinária)
Pessoalmente, estive desde o começo a favor da liberdade de seguir usando o antigo Missal, por um motivo muito simples; estava começando já então a se falar de uma ruptura com a Igreja pré-conciliar, e da formação de modelos diferentes de Igrejas: uma Igreja pré-conciliar obsoleta e uma Igreja nova, conciliar. Atualmente o lema dos lefebristas consiste em afirmar que existem duas Igrejas, cuja grande diferença é visível para eles na existência de dois Missais, que estão em desacordo entre si. Parece-me essencial e fundamental reconhecer que os dois Missais são Missais da Igreja, e da Igreja que segue sendo a mesma. O prefácio do Missal de Paulo VI disse explicitamente que é um Missal da mesma Igreja, e se insere em sua continuidade. E para sublinhar que não existe ruptura essencial, que existem tanto a continuidade como a identidade da Igreja, me parece indispensável manter a possibilidade de celebrar segundo o antigo Missal como sinal de identidade permanente da Igreja. Esta é, para mim, a razão fundamental: o que até 1969 era a liturgia da Igreja, o mais sagrado para todos nós, não pode converter-se depois, com um positivismo incrível, no mais inaceitável. Se queremos ser críveis, inclusive com este lema da modernidade, é absolutamente necessário reconhecer que o que era fundamental antes de 69, segue sendo também depois: é uma mesma sacralidade, uma mesma liturgia.
Ao observar os desenvolvimentos da aplicação do novo Missal, encontrei em seguida uma segunda razão, a qual também o professor Spaemann também se referiu: o antigo Missal é o ponto de referência, um critério; um semáforo, disse. Isto parece-me muito importante para todos: este Missal da Igreja dá, por sua presença - sinal de identidade fundamental dos dois Missais, inclusive sendo expressões rituais diferentes -, um critério de referência e se converte em um refúgio para os fiéis que já não encontram em sua paróquia uma liturgia celebrada realmente segundo os textos autorizados da Igreja. Por um lado, não tendo dúvida de que um rito venerável, como o rito romano que esteve em vigor até 69, é um rito da Igreja, um bem da Igreja, um tesouro da Igreja, é necessário conservá-lo na Igreja.

Por outro lado, segue existindo um problema: como regulamentar o uso dos dois ritos? Parece-me claro que o Missal de Paulo VI é, por direito, o Missal em vigor e que seu uso é normal. Deve-se estudar a maneira de permitir e conservar para a Igreja o tesouro do antigo Missal. Tenho falado frequentemente no mesmo sentido que nosso amigo Spaemann: se existia o rito dos dominicanos, se existia - e, todavia, existe - o rito milanês, por que não também o rito - digamos - "de São Pio V"? Mas há um problema muito real: se a eclesialidade passa a ser uma questão de livre escolha, se na Igreja há igrejas rituais selecionadas segundo um critério subjetivo, isto cria um problema. A Igreja, está construída sobre os bispos segundo a sucessão dos apóstolos, na forma de Igrejas locais, portanto, com um critério objetivo. Estou nesta Igreja local e não busco meus amigos, eu encontro meus irmãos e minhas irmãs; e os irmãos e irmãs não se busca, os encontra. Esta situação de não arbitrariedade da Igreja na qual me encontro, que não é um Igreja de minha escolha, mas a Igreja que se apresenta-me, é um princípio muito importante. Parece-me que as cartas de Santo Inácio vão fortemente nesta linha de que este bispo é a Igreja; não é minha escolha, como se fosse com esse grupo de amigos ou com outro; estou na Igreja comum, com os pobres, com os ricos, com as pessoas simpáticas e antipáticas, com os inteligentes e os estúpidos; estou na Igreja que me precede. Abrir a possibilidade de eleger uma Igreja ao modo de se escolher uma carta poderia realmente ferir a estrutura da Igreja.
Portanto, deve-se buscar - parece-me - um critério que não seja subjetivo, para abrir a possibilidade do antigo Missal. Isto me parece muito simples se se trata de abadias: é uma coisa boa; corresponde também com a tradição segundo a qual havia ordens com um rito especial, por exemplo os dominicanos. Portanto, as abadias que garantem a presença deste rito ou também comunidades como os dominicanos de São Vicente Ferrer ou outras comunidades religiosas ou também fraternidades: este me parece um critério objetivo. Naturalmente, o problema se complica com as fraternidades, que não são ordens religiosas, mas comunidades de sacerdotes não diocesanos que, no entanto, celebram nas paróquias. Talvez, a paróquia pessoal seja uma solução, mas não deixa, tampouco, de dar problemas. Neste caso, a Santa Sé deve abrir a todos os fiéis esta possibilidade e conservar este tesouro, mas deve também conservar e respeitar a estrutura episcopal da Igreja.



A conferência continua falando sobre a reforma da reforma e o futuro do Missal de São Pio V
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Se você não leu o início da conferência.
Parte 01: Revelação de Bento XVI sobre o Movimento Litúrgico

Não perca!
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Para citar: RATZINGER, Joseph AloisiusObras completas: Teologia da liturgia. Madri: Biblioteca de Autores Cristianos, 2012. 561 p. ISBN: 978-84-220-1609-0. Publicado no blog Regozija-te com a verdade, aos 16 de maio de 2016. Tradução de Gabriel Luan Paixão Mota.

Revelação de Bento XVI sobre o Movimento Litúrgico


Revelação de Bento XVI sobre o Movimento Litúrgico

O presente artigo trata-se da tradução de uma conferência feita pelo então teólogo Cardeal Joseph Ratzinger na Abadia de Notre-Dame de Fontgombault, no ano de 2001.

Introdução

Reverendos Padres Abades e queridos irmãos,

Não me atrevo a propor conclusões; não tive tempo nem capacidade intelectual e física para preparar nada. Somente posso propor algumas observações. Mas, sobretudo, quero expressar meu profundo agradecimento a você, querido padre Abade, pelo espírito deste monastério que nos infundiu a paz da Igreja, a paz de nosso Senhor, e nos permite buscar juntos esse ecumenismo católico em que pode haver uma reconciliação dentro da Igreja quanto essas diferenças que são profundas e dolorosas.

O que irei dizer? Havia pensado em falar sobre quatro temas: em primeiro lugar, uma nota sobre a fisionomia intelectual e espiritual do Movimento Litúrgico tal como conheci; em seguida, uma palavra sobre as propostas do padre Folsom e do professor Spaemann sobre a pluriformidade dentro do rito romano, sobre os ritos romanos no rito romano; uma palavra sobre a "reforma da reforma"; e uma palavra também, nessa discussão com meu amigo Spaemann, sobre o futuro do Missal do ano de 1962.


A fisionomia espiritual e histórica do Movimento Litúrgico


Ontem me referi às origens da disciplina litúrgica acadêmica (a ciência litúrgica) dizendo que, por um lado, vinha de um trabalho histórico e, por outro, de um trabalho pastoral; isto se referia somente à disciplina acadêmica da liturgia, não ao Movimento Litúrgico. O Movimento Litúrgico nasceu na Alemanha a partir de uma diversidade de origens sobre o que padre Koster nos falou muito bem; interessava-me sublinhar que, ao meu ver, os grandes monastérios beneditinos - especialmente Beuron - foram o verdadeiro berço do autêntico Movimento Litúrgico (a abadia de Beuron, afiliada a Solesmes, porque os irmãos Wolter haviam fundado esta renovação beneditina em primeiro lugar em Beuron, e logo em Maria Laach, filiada a Beuron, e nas demais abadias). É interessante ler nas Memórias de Guardini que ele mesmo descobriu a liturgia participando nas horas canônicas de Beuron, participando na vida litúrgica vivida no espírito de Solesmes, ou seja, no espírito dos Padres, e como isto foi para ele o descobrimento de um mundo novo, o da liturgia como tal; parece-me que isto dá um pouco a chave para entender o que os Padres do Movimento pensaram na Alemanha (porém o padre Anselm Schott tinha um pensamento diferente, como também o padre Odo Casel, etc.). Este foi realmente o descobrimento da liturgia como um mundo simbólico cheio de realidade, cheio de sentido. No contexto da teologia neoescolástica bastante seca, por um lado, e do racionalismo e do modernismo, por outro - Guardini estudou em Tubinga, quando o modernismo era muito virulento ali -, este movimento deu uma nova visão do ser cristão partindo da liturgia.

Para uma certa teologia manualística, o que interessava nos sacramentos e também na eucaristia, era principalmente a validade, e, por conseguinte o momento da consagração. Havia se reduzido a teologia eucarística a um problema ontológico e jurídico, considerando todo o resto como cerimônias bonitas, interessantes, interpretáveis ou não em um sentido alegórico, mas não como realidade na qual se realiza a eucaristia. Consequentemente, teve que redescobrir que a liturgia não é somente um conjunto de cerimônias destinadas a dar um determinado comprimento e solenidade à consagração, mas que é o mundo do sacramento como tal. Esta era uma nova visão que, neste sentido, superava também uma teologia estreita e propunha uma visão mais profunda não somente da teologia, mas de toda a vida cristã. Pode se constatar a magnitude do Movimento Litúrgico somente no contexto histórico de uma interpretação muito insuficiente da liturgia. Por exemplo, desde o tempo de Leão XIII, se recitava o Rosário na Missa durante o mês de outubro, e era ainda o costume quando era jovem. A Missa era, pois, na verdade, como escrevi no prefácio de meu livro, um afresco coberto. Deste modo, redescobrir que a liturgia em si mesma está viva e é uma realidade viva da Igreja como tal, era um enriquecimento muito importante para a Igreja. Portanto, foi superado realmente os mal-entendidos, ideias e visões insuficientes da liturgia e da teologia. Inclusive creio que a explosão da reforma do século XVI foi possível também porque já não havia uma verdadeira compreensão da liturgia. Para Lutero, da Missa somente ficava a consagração e a distribuição da santa Comunhão.

Mas neste progresso real que o Movimento Litúrgico produziu - orientado até o Vaticano II, até a Sacrosanctum Concilium -, também havia um perigo: o desprezo da Idade Média como tal, da teologia escolástica como tal. A partir desse momento começou já uma divisão de caminhos: Dom Casel se mostrou muito exclusivista a favor da teologia patrística, tal como ele a via, e do platonismo litúrgico, tal e como ele o pensava. Estas ideias unilaterais perigosas foram posteriormente popularizadas como slogans muito tristes e perigosos; assim se dizia então, e lembro bem: "O pão consagrado não é para ser olhado com os olhos, mas para ser comido". Era um lema contra a adoração eucarística; se pensava que toda a realidade, todo o desenvolvimento realizado na Idade Média era errôneo. Consequentemente, houve um rigorismo e um arqueologismo litúrgicos que, ao final, se converteram em um grande perigo. Já não se podia entender que, inclusive as novidades da Idade Média - a adoração eucarística e logo a piedade popular, toda ela - eram realmente desenvolvimentos legítimos. Sobretudo, a sínteses entre as diferentes correntes já não era então possível: Guardini se distanciou de Maria Laach porque ele defendia o Rosário, a Via Crucis, a adoração eucarística, enquanto que os demais tinham uma posição estrita que já não admitia estes desenvolvimentos posteriores.


Portanto, esta questão - discutida já ontem - segue aberta: qual é a síntese possível e a visão profunda comum entre a teologia medieval e os Padres? Creio que Santo Tomás de Aquino é tanto um teólogo que abre a porta a uma nova visão da teologia, com a integração do aristotelismo, como um teólogo perfeitamente patrístico: partindo dele, se deveria ter a possibilidade de encontrar esta síntese. Guardini escreveu, no início dos anos 20, um diálogo muito interessante entre um exegeta, professor de universidade, racionalista, mas ortodoxo - como existiam nas universidades alemãs nesta época -, um liturgista rigoroso e um diretor de Caritas representante da piedade popular especialmente do Sagrado Coração; buscava neste tria-logo uma síntese, e isto há ainda de se fazer.

Parece-me que já nos anos 50 e, sobretudo, depois do Concílio, os perigos latentes e também patentes do Movimento Litúrgico se converteram em uma grande tentação, um grande perigo para a Igreja. Havia depois do Concílio uma nova situação porque os liturgistas haviam passado, de fato, a ser a autoridade; se reconhecia cada vez menos a autoridade da Igreja; agora era o perito quem detinha a autoridade. Esta entrega de autoridade aos peritos transformou tudo, e estes peritos, por sua parte, foram vítimas de uma exegese profundamente condicionada pelos juízos do protestantismo, a saber, que o Novo Testamento estava contra o sagrado, em oposição ao culto e sacerdócio e, portanto, em contraposição com a grande tradição, especialmente com a do Concílio de Trento. Se defendia a ideia de que o Novo Testamento estava em oposição ao culto porque se separa do Antigo Testamento, do templo. Agora o culto seria a realidade vivida, sofrida por Cristo crucificado fora dos muros da cidade. Isto quer dizer que agora é no profano onde se deveria ver o verdadeiro culto e que a ruptura com o sacerdócio levítico seria também a ruptura com o sacerdócio como tal: o presbiterado não seria o sacerdócio; o sacerdócio seria algo do Antigo Testamento ou pagão, não uma coisa do cristianismo. Esta interpretação do Novo Testamento em uma perspectiva - uma hermenêutica - fundamentalmente protestante e secularizante se fez cada vez mais forte com o tempo.

Por último, parece-me que a mudança da Igreja universal à Igreja local, e da Igreja local à comunidade local - como nos disse o professor De Mattei - foi e é, neste momento, um dos maiores problemas. Diz-se agora que a liturgia reflete a experiência religiosa da comunidade e que a comunidade é o único sujeito verdadeiro; isto nos conduz, de fato, não somente até uma fragmentação total da liturgia, mas até uma destruição da liturgia como tal, já que se a liturgia é somente o reflexo das experiências religiosas da comunidade, já não comporta a presença do mistério. É, pois, o ponto sobre o qual se deve firmemente resistir; há que redescobrir a Igreja - o corpo de Cristo - como o verdadeiro sujeito da liturgia. Assim pois, é preciso dar-se conta de que com uma exegese secularizada e uma hermenêutica profundamente protestante e secularizada, não se podem encontrar no Novo Testamento os fundamentos da nossa fé; e que com a fragmentação da liturgia considerada como o ato particular das comunidades locais, se perde a Igreja, e com a Igreja a fé e o mistério. Deve-se voltar, no entanto, a uma exegese arraigada na realidade viva da Igreja, da Igreja de todos os tempos, também a medieval. Deve-se reencontrar também, consequentemente, a realidade cultural e o sacerdócio no Novo Testamento, e recobrar o que é essencial para a liturgia; neste sentido, queria dizer que, com os limites que sem dúvida se podem encontrar nos textos de Trento, Trento segue constituindo a norma, relido com nosso conhecimento mais rico e mais profundo dos Padres e do Novo Testamento, lido com os Padres e com a Igreja de todos os tempos.

A conferência continua falando sobre o problema dos ritos romanos dentro do rito romano.

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Para citar: RATZINGER, Joseph Aloisius. Obras completas: Teologia da liturgia. Madri: Biblioteca de Autores Cristianos, 2012. 561 p. ISBN: 978-84-220-1609-0. Publicado no blog Regozija-te com a verdade, aos 16 de maio de 2016. Tradução de Gabriel Luan Paixão Mota.

sábado, 9 de abril de 2016

Extratos da Exortação Amoris Laetitia - Sobre o amor na Família (Parte 01)


Extratos

Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia do Santo Padre Francisco - Sobre o amor na Família


"A alegria do amor que se vive nas famílias é também o júbilo da Igreja." Assim começa a exortação, com palavras que animam o espírito do que lê e consola as famílias aflitas. É o amor, a alegria do amor, que aquece os corações dos membros familiares, por isso a Igreja exulta de alegria.

Capítulo I - A família à luz da Palavra

O Santo Padre começa falando sobre as características da família, de seus membros e da relação entre eles. Utilizando a palavra “surpreendentemente” ele constata que Deus explica que o casal “homem e mulher” é “imagem e semelhança de Deus”, querendo talvez que percebamos qual grave é esta solene palavra do Senhor. A imagem de Deus!
Antes de explicar em que consiste essa semelhança recorda-nos que isto não significa que “o próprio Deus é sexuado ou tem a seu lado uma companheira divina, como acreditavam algumas religiões antigas”. Isso não é verdade, por isso sabemos que com “clareza a Bíblia rejeitou como idolátricas tais crenças”.

Contrariando os falsos deuses, aqueles que têm boca e não falam, têm olhos e não veem, têm ouvidos e não ouvem, têm nariz e não cheiram, têm mãos e não tocam, têm pés e não andam, e sua garganta não tem voz, o Papa explica que o casal será “imagem e semelhança de Deus” quando traz consigo a fecundidade da vida que só um Deus vivo pode dar e quando a união do homem e da mulher é realizada pelo elo maior, que é o amor.
O casal que ama e gera a vida é a verdadeira «escultura» viva (não a de pedra ou de ouro, que o Decálogo proíbe), capaz de manifestar Deus criador e salvador. (...) O Deus Trindade é comunhão de amor; e a família, o seu reflexo vivente. (Exortação Amoris Laetitia, n. 11)
Mas este facto é devido somente a um preceito divino ou teria suas razões naturais? Esta união, nos lembra o Santo Padre, provém da “inquietação vivida pelo homem, que busca "uma auxiliar semelhante" que seja capaz de resolver a “solidão que o perturba”. E, diz ele, deste “encontro que cura a solidão surge a geração e a família”.

Não haveria de faltar uma palavra sobre os filhos, já que são eles o resultado concreto desta “imagem e semelhança”. “Se os pais são como que os alicerces da casa, os filhos constituem as « pedras vivas » da família, nos diz o Papa, esclarecendo, no entanto que, “os filhos não são uma propriedade da família, mas espera-os o seu caminho pessoal de vida”, isto é, cada qual crescerá e terá seu destino, sua missão na terra, seja constituindo uma nova família aos moldes do plano de Deus ou doando sua vida ao serviço integral de Deus, no sacerdócio ou na vida consagrada.
"Os frutos do amor são também a misericórdia e o perdão." (Exortação Amoris Laetitia, n. 27)
A família é, portanto, uma comunhão de pessoas que se amam mutuamente e na qual todos amam a Deus e, neste sentido, constitui a igreja doméstica, como o local da catequese dos filhos.
Entretanto, a experiência familiar não é vivida somente nas alegrias, mas esta história contempla o momento de dor e de dificuldades. O Papa recorda-nos uma série de acontecimentos familiares relatados na Bíblia a fim de demonstrar que as dificuldades familiares não são situações oriundas do nosso tempo.

A partir dessa série de relatos conclui que a “Palavra de Deus não se apresenta como uma sequência de teses abstratas, mas como uma companheira de viagem”, o que para nós poderia refletir na conscientização da importância da pastoral na Igreja.
Por fim, conclui com duas ideias.
A primeira a respeito da importância do trabalho para o bem-estar físico e a serenidade da família, pois de fato o trabalho é considerado como “parte fundamental da dignidade humana”. A ausência do trabalho gera sofrimento, afetando de várias formas, a serenidade da família.
Encaminhando-se para o final do capítulo, enfatiza que a “família é chamada a compartilhar a oração diária, a leitura da Palavra de Deus e a comunhão eucarística, para fazer crescer o amor e tornar-se cada vez mais um templo onde habita o Espírito”.

Capítulo II - A realidade e os desafios das famílias

Este segundo capítulo traz à mente do leitor os diversos problemas enfrentados pela instituição familiar nestes tempos.
Antes de falar sobre os desafios, o Papa coloca uma premissa importante: “o bem da família é decisivo para o futuro do mundo e da Igreja”. Isso nos convence da verdadeira necessidade da exortação.

Leia também: Papa Francisco condena união gay

As palavras são bastante claras e ricas em reflexão nos mais variados assuntos, por isso trarei aqui, neste capítulo e nos que se seguem, apenas apontamentos (extratos), reservando os meus comentários apenas nos pontos onde eu achar necessário, a fim de evitar que o texto fique demasiado longo já que as realidades citadas são em número bastante considerável.

a) A liberdade
(...) é fácil confundir a liberdade genuína com a ideia de que cada um julga como lhe parece, como se, para além dos indivíduos, não houvesse verdades, valores, princípios que nos guiam, como se tudo fosse igual e tudo se devesse permitir.  Neste contexto, o ideal matrimonial com um compromisso de exclusividade e estabilidade acaba por ser destruído pelas conveniências contingentes ou pelos caprichos da sensibilidade. (Exortação Amoris Laetitia, n.34)

b) Respeito humano pelo mundo
Como cristãos, não podemos renunciar a propor o matrimônio, para não contradizer a sensibilidade atual, para estar na moda, ou por sentimentos de inferioridade face ao descalabro moral e humano; estaríamos a privar o mundo dos valores que podemos e devemos oferecer. (Exortação Amoris Laetitia, n.35)

c) A pastoral negativa e a positiva
O Santo Padre quer estimular uma pastoral positiva, ou seja, aquela em que se busca destacar os pontos positivos a fim de guiar alguém pelo caminho correto, em detrimento de uma pastoral negativa que tenta simplesmente convencer as pessoas através de questões doutrinais. Para tornar mais clara a ideia tomemos um exemplo. Suponhamos que queiramos afastar alguém do caminho do pecado do sexo desregrado e para tal tenhamos duas formas; a primeira consiste em evidenciar a beleza e a alegria de se guardar a castidade e a segunda demonstrar, através da Bíblia e do Catecismo, que quem pratica sexo fora do casamento comete pecado mortal e pode, se não se arrepender, ir para o inferno. Pois bem, a primeira opção é o que poder-se-ia chamar de pastoral positiva, enquanto que a segunda pastoral negativa.
Por vezes pensamos que com a simples insistência em questões doutrinais, bioéticas e morais, sem motivar a abertura à graça, já apoiávamos suficientemente as famílias, consolidávamos o vínculo dos esposos e enchíamos de sentido as suas vidas compartilhadas. (Exortação Amoris Laetitia, n. 37)
É necessário que apresentemos o matrimônio “ mais como um caminho dinâmico de crescimento e realização do que como um fardo a carregar a vida inteira”, do que simples e unilateralmente, pelo “seu fim unitivo”, de tal forma que o “convite a crescer no amor e o ideal de ajuda mútua ficaram ofuscados por uma ênfase quase exclusiva no dever da procriação.”
Isto não significa deixar de advertir a decadência cultural que não promove o amor e a doação. (Exortação Amoris Laetitia, n. 39)

d) Cultura do provisório
(...) a rapidez com que as pessoas passam duma relação afetiva para outra. Creem que o amor, como acontece nas redes sociais, se possa conectar ou desconectar ao gosto do consumidor e inclusive bloquear rapidamente. (Exortação Amoris Laetitia, n. 39)
Precisamos de encontrar as palavras, as motivações e os testemunhos que nos ajudem a tocar as cordas mais íntimas dos jovens, onde são mais capazes de generosidade, de compromisso, de amor e até mesmo de heroísmo, para convidá-los a aceitar, com entusiasmo e coragem, o desafio de matrimônio. (Exortação Amoris Laetitia, n. 40)

e) Controle de natalidade
A própria queda demográfica, causada por uma mentalidade anti-natalista e promovida pelas políticas mundiais de saúde reprodutiva, não só determina uma situação em que a sucessão das gerações deixa de estar garantida, mas corre-se o risco de levar, com o tempo, a um empobrecimento econômico e a uma perda de esperança no futuro. O avanço das biotecnologias também teve um forte impacto sobre a natalidade. (Exortação Amoris Laetitia, n. 42)
O Papa ainda cita como fatores que colaboraram para uma mentalidade anti-natalista a “industrialização, a revolução sexual, o temor da superpopulação, os problemas económicos (...). A sociedade de consumo também pode dissuadir as pessoas de ter filhos, só para manter a sua liberdade e estilo de vida.”
(...) a Igreja rejeita com todas as suas forças as intervenções coercitivas do Estado a favor da contracepção, da esterilização e até mesmo do aborto ». Estas medidas são inaceitáveis mesmo em áreas com alta taxa de natalidade (...)" (Exortação Amoris Laetitia, n. 42)
f) Deus nas famílias
(...) uma das maiores pobrezas da cultura atual é a solidão, fruto da ausência de Deus na vida das pessoas e da fragilidade das relações. Há também uma sensação geral de impotência face à realidade socioeconômica que, muitas vezes, acaba por esmagar as famílias (...) (Exortação Amoris Laetitia, n. 43)

g) Moradia
A falta duma habitação digna ou adequada leva muitas vezes a adiar a formalização duma relação. Uma família e uma casa são duas realidades que se reclamam mutuamente. (...) devemos insistir nos direitos da família, e não apenas nos direitos individuais. A família é um bem de que a sociedade não pode prescindir, mas precisa de ser protegida. A defesa destes direitos é « um apelo profético a favor da instituição familiar, que deve ser respeitada e defendida contra toda a agressão», sobretudo no contexto atual em que habitualmente ocupa pouco espaço nos projetos políticos. (Exortação Amoris Laetitia, n. 44)

h) Órfãos de pais vivos
Há muitos filhos nascidos fora do matrimônio, especialmente nalguns países, e muitos são os que, em seguida, crescem com um só dos progenitores e num contexto familiar alargado ou reconstituído. (Exortação Amoris Laetitia, n. 45)

i) Exploração sexual
(...) a exploração sexual da infância constitui uma das realidades mais escandalosas e perversas da sociedade atual. (Exortação Amoris Laetitia, n. 45)

j) Perseguição dos cristãos
As perseguições dos cristãos, bem como as de minorias étnicas e religiosas, em várias partes do mundo, especialmente no Médio Oriente...Devem ser apoiados todos os esforços para favorecer a permanência das famílias e das comunidades cristãs nas suas terras de origem ». (Exortação Amoris Laetitia, n. 46)

l) As pessoas com deficiência e os idosos
Merecem grande admiração as famílias que aceitam, com amor, a prova difícil dum filho deficiente. Dão à Igreja e à sociedade um valioso testemunho de fidelidade ao dom da vida. (...) A família que aceita, com os olhos da fé, a presença de pessoas com deficiência poderá reconhecer e garantir a qualidade e o valor de cada vida, com as suas necessidades, os seus direitos e as suas oportunidades. (Exortação Amoris Laetitia, n. 47)
Nas sociedades altamente industrializadas, onde o seu número tende a aumentar enquanto diminui a taxa de natalidade, os idosos correm o risco de ser vistos como um peso. Muitas famílias ensinam-nos que é possível enfrentar os últimos anos da vida, valorizando o sentido de realização e integração de toda a existência no mistério pascal. (Exortação Amoris Laetitia, n. 48)
A eutanásia e o suicídio assistido são graves ameaças para as famílias, em todo o mundo. A sua prática é legal em muitos Estados. A Igreja, ao mesmo tempo que se opõe firmemente a tais práticas, sente o dever de ajudar as famílias que cuidam dos seus membros idosos e doentes. (Exortação Amoris Laetitia, n. 48)
m) Educação dos filhos
(...) acaba dificultada porque, entre outras causas, os pais chegam a casa cansados e sem vontade de conversar; em muitas famílias, já não há sequer o hábito de comerem juntos, e cresce uma grande variedade de ofertas de distração, para além da dependência da televisão. Isto torna difícil a transmissão da fé de pais para filhos. (...) as famílias habitualmente padecem duma enorme ansiedade; parece haver mais preocupação por prevenir problemas futuros do que por compartilhar o presente. Isto, que é uma questão cultural, vê-se agravado por um futuro profissional incerto, pela insegurança econômica ou pelo medo quanto ao futuro dos filhos. (Exortação Amoris Laetitia, n. 50)

n) Toxicodependência
(...) um dos flagelos do nosso tempo que faz sofrer muitas famílias e, não raro, acaba por destruí-las. Algo semelhante acontece com o alcoolismo, os jogos de azar e outras dependências. (Exortação Amoris Laetitia, n. 51)

o) Uniões de fato e homossexuais
(...) as uniões de facto ou entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo, não podem ser simplesmente equiparadas ao matrimônio. Nenhuma união precária ou fechada à transmissão da vida garante o futuro da sociedade. (Exortação Amoris Laetitia, n. 52)
Já não se adverte claramente que só a união exclusiva e indissolúvel entre um homem e uma mulher realiza uma função social plena, por ser um compromisso estável e tornar possível a fecundidade. (Exortação Amoris Laetitia, n. 52)

p) Poligamia e matrimônios combinados
Nalgumas sociedades, vigora ainda a prática da poligamia; noutros contextos, permanece a prática dos matrimônios combinados. (...) Em muitos contextos, e não apenas ocidentais, está a difundir-se largamente a prática da convivência que precede o matrimônio e também a prática de convivências não orientadas para assumir a forma dum vínculo institucional ». Em vários países, a legislação facilita o avanço de várias alternativas, de modo que um matrimônio com as características de exclusividade, indissolubilidade e abertura à vida acaba por aparecer como mais uma proposta antiquada entre muitas outras. (Exortação Amoris Laetitia, n. 53)
Avança, em muitos países, uma desconstrução jurídica da família, que tende a adotar formas baseadas quase exclusivamente no paradigma da autonomia da vontade. (Exortação Amoris Laetitia, n. 53)

q) Violência contra a mulher
Neste relance sobre a realidade, desejo salientar que, apesar das melhorias notáveis registadas no reconhecimento dos direitos da mulher e na sua participação no espaço público, ainda há muito que avançar nalguns países. Não se acabou ainda de erradicar costumes inaceitáveis; destaco a violência vergonhosa que, às vezes, se exerce sobre as mulheres, os maus-tratos familiares e várias formas de escravidão, que não constituem um sinal de força masculina, mas uma covarde degradação. A violência verbal, física e sexual, perpetrada contra as mulheres nalguns casais, contradiz a própria natureza da união conjugal. (Exortação Amoris Laetitia, n. 54)

r) Ideologia de Gênero
Outro desafio surge de várias formas duma ideologia genericamente chamada gender, que « nega a diferença e a reciprocidade natural de homem e mulher. Prevê uma sociedade sem diferenças de sexo, e esvazia a base antropológica da família. Esta ideologia leva a projetos educativos e diretrizes legislativas que promovem uma identidade pessoal e uma intimidade afetiva radicalmente desvinculadas da diversidade biológica entre homem e mulher. (Exortação Amoris Laetitia, n. 56)É preciso não esquecer que « sexo biológico (sex) e função sociocultural do sexo (gender) podem-se distinguir, mas não separar». (Exortação Amoris Laetitia, n. 56)
Não caiamos no pecado de pretender substituir-nos ao Criador. Somos criaturas, não somos omnipotentes. A criação precede-nos e deve ser recebida como um dom. Ao mesmo tempo somos chamados a guardar a nossa humanidade, e isto significa, antes de tudo, aceitá-la e respeitá-la como ela foi criada. (Exortação Amoris Laetitia, n. 56)

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Continua na Parte 02 - Leia aqui

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Livro grátis sobre a fé do Papa Francisco


Livro grátis sobre a fé do Papa Francisco


Quantas vezes você já deve ter ouvido boatos sobre o pensamento do Papa Francisco? Uns dizendo que é comunista ou liberal, outros inventando frases. Todo tipo de besteira se encontra pela internet. Mas para fazer frente a esta ditadura da mentira, propomos um livrinho que possa ajudar os católicos no conhecimento do que pensa o Santo Padre sobre os mais diversos temas.
Apresento logo abaixo a introdução do livro. É importante notar que optei por disponibilizá-lo gratuitamente na internet na versão PDF. O link está disponibilizado ao final do texto.

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Tamanha é a perturbação nos tempos atuais que mal posso definir o cenário atual. A nossa Igreja, ou melhor dizendo a de Jesus Cristo, vive um momento perturbado, de tal maneira que o que se tinha por certo parece, hoje, ser dado por errado, e este por correto.  De que falo? Da doutrina da Igreja, do ensinamento constante daquela que nunca se deixou levar pelas ondas e ventos de vã doutrina, mesmo diante dos poderes seculares que a coagiam.
O ar de insegurança que respiramos nos deixou doentes a ponto de fitarmos os olhares sobre o que o Santo Padre diz, a fim de confirmar sua fé católica. Outros estão em estado pior, procurando não uma defesa do papado, mas qualquer palavra dúbia para critica-lo e espalhar o terror no meio do rebanho do Senhor. Quem nos deu a autoridade de jugar o vigário de Cristo?
A doença está chegando ao estado terminal. A muitos isso já chegou! Não digo que uma ou outra situação faça pôr-nos a alerta, mas parece que a paranoia é o mal em questão, tudo é motivo de perturbação da alma. O ambiente secularizado e pagão com sua mídia trapaceira agrava mais ainda. Quem nunca ouviu um escândalo de uma suposta declaração do papa? A inquietação bate à porta!
Decorridos quase três anos de pontificado de Francisco, há ainda pessoas que põem em xeque a fé do Papa. Assim, proponho sanar ao menos um pouco as dúvidas desses fieis, que suponho serem de boa-fé.
A solução proposta é deixar que o próprio Papa nos responda em que crê, por meio de seus escritos. Passando pelos mais singelos aos mais polêmicos e complexos assuntos, notamos a íntima e profunda ortodoxia da fé católica. A estupenda beleza da teologia proposta por Bergoglio é, para defini-la bem, emocionante, pois é viva, sem formalismos, com gosto de realidade.
É notável algumas características básicas do pensamento “bergogliano”. Em matéria social, é incontestável a total fundamentação na Doutrina Social da Igreja. Parece, aliás, absurdo alguém, conhecendo a DSI, chamar Jorge Bergoglio de comunista ou outro revolucionário dessa estirpe medíocre. As críticas a globalização fazem-me pensar que ele seja um amante do distributismo de G.K. Chesterton, famoso filósofo e jornalista inglês, que centraliza a família e a sociedade familiar no centro da economia, em contraposição aos métodos econômicos liberais.
 Não gostaria de me delongar nesta introdução para não fatigar o leito, por isto, vos deixo à vontade para ler este simples livrinho. Boa leitura!

 Gabriel Luan


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