DEPARTAMENTO DE CELEBRAÇÕES
DO SUMO PONTÍFICE
O crucifixo no centro do altar na Missa
"de frente para o povo"
Desde
os tempos remotos, a Igreja estabeleceu sinais sensíveis que ajudaram os fiéis
a elevar a alma a Deus. O Concílio de Trento, referindo-se em particular à
Santa Missa, incentivou esta prática recordando que: "A natureza do homem
é tal, que muito dificilmente se eleva à meditação das coisas divinas, sem a
ajuda exterior que a favoreça. Por isso a santa Igreja, Mãe piedosa,
estabeleceu determinados ritos [...] com o fim de encarecer a majestade de tão
augusto Sacrifício [a Eucaristia] e a incitar as mentes dos fiéis a se elevarem
por meio destes sinais exteriores da religião e devoção, à contemplação das
realidades altíssimas que estão ocultas neste sacrifício"[1].
Um
dos sinais mais antigos consiste em voltar-se ao oriente para rezar. O oriente
é símbolo de Cristo, o Sol de justiça. "Erick Peterson demonstrou a
estreita conexão entre a oração de frente para o oriente e a cruz, conexão
evidente como muito tarde no período constantiniano. [...] Entre os cristãos se
difundiu a prática de indicar a direção da oração com uma cruz sobre a parede
oriental na abside das basílicas, mas também nas habitações privadas, por
exemplo, de monges e eremitas"[2].
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Missa no Oratório de São José (St. Joseph Oratory), em Detroit - USA (imagem ausente no original) |
"Acaso
se nos pergunta para onde olhavam o sacerdote e os fiéis durante a oração, a
resposta deve ser: ao alto, para a abside! A comunidade orante durante a oração
não olhava, de fato, em primeiro lugar, o altar ou a cátedra, mas que elevava
ao alto os olhos e as mãos. Assim a abside chegou a ser o elemento mais
importante da decoração da igreja, no momento mais íntimo e santo do ato
litúrgico, a oração"[3]. Quando, portanto, se encontra
representado na abside Cristo entre os apóstolos e mártires não se trata
somente de uma representação, mas um epifania na presença da comunidade orante.
A comunidade então "elevava as mãos e os olhos ao céu", olhava
concretamente a Cristo no mosaico absidal e falava com ele, a ele rezava.
Evidentemente, Cristo estava assim diretamente presente na imagem. Dado que a
abside era o ponto de convergência do olhar orante, a arte proporcionava o que
o orante necessitava: o Céu, a partir do Filho de Deus que mostrava à
comunidade como que a partir de uma tribuna"[4].
Portanto,
"para os cristãos da antiguidade tardia, rezar e orar formava um todo. O
orante queria não somente falar, mas esperava também ver. Se na abside
mostrava-se de modo maravilhoso uma cruz celeste ou a Cristo em sua glória
celeste, então por isso mesmo o orante que olhava para o alto podia ver
exatamente isto: que o céu se abria para ele e que Cristo se lhe mostrava [5].
Dos
apontamentos históricos anteriores, se deduz que a liturgia não se compreende
verdadeiramente se se a imagina principalmente como um diálogo entre o sacerdote
e a assembleia. Não podemos entrar aqui nos detalhes, limitamo-nos a dizer que
a celebração da Santa Missa "de frente para o povo" é um conceito que
começou a formar parte da mentalidade cristã somente na época moderna, como
demonstraram estudos sérios e o reafirmou Bento XVI: "A ideia de que o
sacerdote e o povo na oração deveriam olharem-se reciprocamente nasceu somente
na época moderna e é completamente estranha à cristandade antiga. De fato,
sacerdote e povo não dirigem a sua oração um ao outro, mas juntos dirigem ao
único Senhor"[6].
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Bento XVI celebrando Missa (imagem ausente no original) |
Apesar
do Concílio Vaticano II nunca ter tocado nesse assunto, em 1964 a Instrução
Inter Oecumenici, emanada do Consilium, grupo de estudos encarregado
de levar a cabo a reforma litúrgica prevista pelo Concílio, prescreveu no n. 91
o seguinte: "É conveniente que o altar maior esteja separado da parede
para poder circular mais facilmente ao seu redor e celebrar versus populum". Desde então, a
posição do sacerdote "de frente para o povo", ainda que não seja
obrigatória, se tornou a maneira mais comum de celebrar a Missa. Estando assim
as coisas, Bento XVI propôs, também nesses casos, não perder o significado
tradicional da oração "orientada" e sugeriu superar as dificuldades
colocando no centro do altar o sinal de Cristo crucificado [7].
Aderindo a esta proposta, recorda-se que as dimensões do sinal devem ser tais
que se façam bem visível, sob pena de pouca eficácia [8].
A
visibilidade da cruz do altar está pressuposta pela Instrução Geral do Missa
Romano: "Haja também sobre o altar ou perto dele uma cruz com a imagem do
Cristo crucificado que seja bem visível para o povo reunido" (n. 308). Não
é precisado, no entanto, se a cruz deve estar necessariamente no centro. Aqui
intervém, portanto, motivações de ordem teológico e pastoral, que por causa do
curto espaço a nossa disposição não podemos expor. Limitamo-nos a concluir
citando novamente Bento XVI: "Na oração não é nem necessário nem sequer
conveniente olhar-se mutuamente, muito menos ao receber a comunhão. (...) Em
uma aplicação exagerada e mal-entendida da "celebração de frente para o
povo", removeram as cruzes do centro dos altares, para não atrapalhar a
vista entre o celebrante e o povo. Mas a cruz sobre o altar não é obstáculo à
visão, mas sim um ponto de referência comum. É uma 'iconostasis' que permanece
aberta, que não impede o pôr-se em comunhão, mas que essa imagem que concentra
e unifica nossos olhares se faz de mediadora. Ousaria inclusive a propor a tese
de que a cruz sobre o altar não é obstáculo, mas condição prévia para a
celebração versus populum. Com isso voltaria a estar novamente clara também a
distinção entre a liturgia da Palavra e a Oração Eucarística. Enquanto a
primeira se trata de anúncio e, portanto, de uma relação recíproca imediata, na
segunda se trata de adoração comunitária na qual todos nós seguimos estando sob
o convite: Conversi ad Dominum - voltemo-nos ao Senhor, convertamo-nos ao
Senhor" [9].
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[1] - Concílio de Trento, XXII, V, DS, 1746.
[2] - U.M. Lang, Rivolti ao Signori, Siena 2006, p. 32.
[3] - S. Heid, Gebetshaltung und Ostung in
frühchristlicher Zeit, Rivista di Archeologia Cristiana 82, 2006, p. 369
[4] - ibid, p. 370.
[5] - ibid, p. 374.
[6] - Teología de la Liturgia, Ciudad del Vaticano 2010, pp. 78
[7] - ibid, p. 88.
[8] - M. Gagliardi, Introduzione al Mistero eucaristico, Roma 2007, p.
371
[9] - Teología de la Liturgia, Ciudad del Vaticano 2010, pp. 536.
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Para citar: Departamento de Celebrações do Sumo Pontífice. O Crucifixo no centro do altar na Missa "de frente para o povo". Tradução de Gabriel Luan P. Mota. Publicado no blog Regozija-te com a Verdade, aos 24 de abril de 2017.
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