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domingo, 17 de dezembro de 2017

"Eu te absolvo" - Reflexões do Cardeal Müller sobre a Confissão




“Eu te absolvo”
Reflexões do Cardeal Müller sobre a Confissão

Muitos sugerem hoje que a absolvição sacramental pode ser dada a penitentes que, devido a circunstâncias atenuantes, podem ser ditos livres de culpa subjetiva diante de Deus, mesmo que continuem vivendo em um estado objetivo de pecado grave. A distinção entre um estado objetivo do pecado e uma culpa subjetiva é geralmente reconhecida pela tradição teológica católica. O que é mais controverso é a sua aplicação à ordem sacramental. É possível usar a provável ausência de culpa subjetiva como critério para a concessão da absolvição? Isso não significaria converter os sacramentos em realidades subjetivas, que são contrárias à sua própria natureza como sinais de graça efetivos, visíveis e, portanto, objetivos?
Para responder a esta pergunta, é necessário ir às raízes do sacramento da reconciliação. Em seu amor por nós, Deus toma os seres humanos tão seriamente que entrega seu Filho unigênito à morte mais horrível e vergonhosa na Cruz (Jo 3, 16), para que nossos pecados possam ser perdoados e possamos reconciliar-nos com Ele (2 Cor 5,19). Se tal é o preço da nossa salvação, então os bispos e os sacerdotes não podem levar de forma leviana a autoridade que receberam do próprio Cristo (Mt 18, 18; Jo 20, 22) para perdoar os pecados que um penitente confessou e se arrependeu.
Porque é com a autoridade divina que o apóstolo pronuncia a palavra de reconciliação aos fiéis (2 Cor 5,20). O sacramento da reconciliação com Deus e com a Igreja como corpo de Cristo exige a confissão de todos os pecados graves em sua totalidade. Esta necessidade deriva da preocupação com a salvação eterna que, como tal, tem maior importância do que o sentido transitório de conforto de um cristão, a que o confessor possa ter medo de perturbar. Para julgar se deve perdoar ou reter os pecados de alguém (Jo 20,23) o sacerdote deve conhecer quais pecados graves o penitente cometeu. Estes são os pecados públicos e privados cometidos em seus pensamentos, palavras, ações e omissões, que violaram os mandamentos de Deus, que são a revelação de seu santo e santificador plano de amor por nós.

Leia também: A explicação do Cardeal Coccopalmerio esclarece a Amoris Laetitia?
Não basta simplesmente chamar-se pecador em geral. Isso poderia facilmente ser uma desculpa: está sujeito à fraqueza humana, como todos os outros. Os pecados seriam então relativizados como defeitos humanos omnipresentes. Na realidade, no entanto, o cristão batizado não está aprisionado na dialética de Lutero de simul iustus et peccator ("ao mesmo tempo, uma pessoa justa e pecadora"). Através do batismo, fomos verdadeiramente regenerados. Já não somos escravos do pecado, mas nos tornamos amigos e filhos de Deus. Estamos em um estado de graça santificante. Não é necessário que o pecado se separe da fraqueza restante (concupiscência). Pelo contrário, o pecado é o resultado de um ato consciente e deliberado contra a santidade de Deus e o amor de Cristo que derramou seu sangue na Cruz para o perdão dos pecados. Foi ao aceitar livremente a fé e a graça que nos convertemos em filhos de Deus. Do mesmo modo, necessitamos cooperar com a vinda do Reino a este mundo, servindo o cumprimento da vontade de Deus na terra como é no céu. Toda a vida do cristão é uma imitação contínua do Senhor crucificado e ressuscitado. Pelos pecados graves nos separamos de Deus e nos excluímos da herança da vida eterna.

O amor não torna desnecessário o cumprimento dos mandamentos de Deus

O amor não torna desnecessário o cumprimento dos mandamentos de Deus, senão que é sua forma mais profunda de realização. Os mandamentos não são receitas externas, que prometem recompensas àqueles que as cumprem e ameaçam com castigo àqueles que não as observam. Em vez disso, eles são a revelação do plano salvífico de Deus, que indica o caminho do seu amor. Todo pecado mortal é uma contradição consciente e deliberada da vontade de Deus. Este é o aspecto formal que converte um ato mau em um pecado mortal, cujo aspecto material é o conteúdo da ação. Por isso, o apóstolo Paulo pode dizer categoricamente: "Nem os imorais nem os idólatras nem os adúlteros... herdarão o reino de Deus" (1 Cor 6, 9-10).
O Concílio de Trento (1551) ensina que os pecados mortais nos tornam inimigos de Deus e nos levam à condenação eterna a menos que nos arrependamos, confessemos nossos pecados e, com as obras de reparação, obtenhamos a absolvição e a restauração do estado de graça santificante. O penitente, portanto, tem que confessar ao seu confessor todos os pecados mortais públicos e privados de que tem conhecimento após um sério exame de consciência (DH 1680). Ele ou ela também precisa indicar aquelas circunstâncias que podem mudar a natureza do pecado (DH 1681). O que é referido aqui não são as circunstâncias atenuantes que reduzem a gravidade da culpa e nos fazem merecer uma pena menor. Em vez disso, se refere àquelas circunstâncias que mudam a espécie do ato e, portanto, exigem um tipo diferente de penitência e castigo, que deve ser determinado pelo confessor que atua como juiz. É importante enfatizar que a motivação do confessor é a salvação do penitente.
Portanto, o Concílio tem toda razão ao rejeitar a polêmica protestante que vê nesse requisito de confissão de todos os pecados uma espécie de "tortura de consciência" no confessionário (DH 1682). O que acontece se o penitente não é responsável por seus pecados, por falta de conhecimento ou responsabilidade? A liberdade de uma pessoa pode ser afetada devido à ignorância. Somente Deus é capaz de julgar a culpabilidade subjetiva de uma pessoa. Tudo o que o confessor pode fazer é ajudar cuidadosamente o penitente em seu exame de consciência. Mas nem mesmo o penitente é capaz de dizer em que medida Deus o responsabiliza pelo pecado. Tratar de fazê-lo simplesmente significaria justificar-se.
Inclusive se estou consciente de não ter culpa alguma, não posso estar absolutamente seguro de minha salvação e devo sempre me confiar ao julgamento da graça de Deus. A Igreja não pode avançar ao ponto de intervir no juízo de Deus. Os apóstolos e, portanto, os bispos e sacerdotes são apenas servos de Cristo e administradores de seus sacramentos. Eles podem administrar os sacramentos como um meio de graça somente de acordo com a forma como Cristo os instituiu e de acordo com seu mandato à Igreja.

Absolver sem ter arrependimento confirma o pecador no erro

Também devemos ter em conta a possibilidade de que a ignorância seja culpável por si mesma, como quando serve de desculpa para não ter que mudar o modo de vida. Lembremo-nos do ensinamento do Concílio de Sens, segundo o qual se pode pecar mesmo que alguém aja com ignorância (DH 730). Mesmo que um confessor possa encontrar razões que falem em favor da responsabilidade diminuída de um penitente, o confessor não deve esquecer que essas mesmas razões o impedem de discernir sua situação diante de Deus da maneira correta. De toda forma, dizer "eu te absolvo" nesses casos equivaleria a confirmar o erro em que a pessoa vive, um erro que prejudica profundamente a sua capacidade de viver de acordo com o plano amoroso de Deus.
É crucial recordar que os sacramentos não são encontros privados e interiores dos fiéis com Deus, mas expressões visíveis da fé da Igreja. Esta é a razão pela qual a disciplina eclesial que governa a admissão aos sacramentos sempre exigiu que os fiéis não estejam em contradição com o modo de vida cristão. Santo Tomás diz que admitir alguém aos sacramentos que continua a viver em pecado significa introduzir "uma falsidade nos sinais sacramentais" (Suma III, q.68, a.4). Portanto, alguém poderia estar sem culpa diante de Deus por causa da ignorância invencível e ainda assim não ser capaz de receber a absolvição.
Leia também: É possível corrigir um Papa?

As palavras "eu te absolvo dos teus pecados" não ratificam a falta de responsabilidade do arrependido diante de Deus. Em vez disso, elas expressam e adquirem sua reconciliação com Deus, sua reincorporação no corpo visível de Cristo, que é a Igreja. Portanto, para que essas palavras sejam significativas, o penitente deve tomar a firme resolução de viver de acordo com o modo de vida que Cristo nos ensinou e que a Igreja dá testemunho no mundo. Fazer o contrário seria "subjetivar" a economia sacramental da Igreja, convertendo-a em uma função do nosso relacionamento invisível com Deus. Significaria descartar os sacramentos da carne visível de Cristo e seu corpo, que é a Igreja.
Há um caso de natureza completamente diferente se, por razões externas, era impossível esclarecer canonicamente o status de uma determinada união e, por exemplo, um homem tem provas de que o casamento anterior com uma mulher era inválido, embora por algum motivo ele não possa provar no foro eclesial. Este caso é completamente diferente daquele em que uma pessoa validamente casada que pede o sacramento da Penitência, sem querer abandonar uma relação sexual estável com outra pessoa, seja como um concubinato ou como um "casamento" civil, o qual não é válido diante de Deus e da Igreja. Enquanto que nesta última situação há uma contradição com a prática sacramental da Igreja (uma questão de direito divino), na primeira o debate se centra no modo de determinar se um matrimônio era nulo ou não (uma questão de lei eclesiástica).

O Cristo justo contra o Jesus misericordioso

Teologicamente, as coisas são muito claras. As palavras de Cristo, o ensinamento dos Apóstolos e, portanto, o dogma da Igreja, constituem um guia claro para qualquer esforço pastoral para apoiar o cristão individual em sua peregrinação a Deus. Foram os antigos fariseus (cujo nome hoje em dia é frequentemente usado como termo depreciativo) que tentaram colocar Jesus no mesmo lugar em relação à indissolubilidade do casamento. Por um lado, todos querem se apegar à indissolubilidade conjugal como parte do plano do Criador para o matrimônio entre um homem e uma mulher. Por outro lado, alguns procuram contornar o mandamento de Cristo. Seu pretexto é que, além do "Cristo rigoroso" como legislador da Nova Aliança, há também o "Jesus misericordioso" do Evangelho, familiarizado com o fato de que o ideal enfrenta a realidade concreta da humanidade que é interrompida pelo pecado de Adão. No entanto, Jesus responde não como fariseu, mas contra os fariseus, e mesmo contra a objeção dos apóstolos que afirmam conhecer a práxis humana e a realidade melhor que o próprio Jesus, que "aquele que se divorcia de sua mulher e se casa outra comete adultério", que também se aplica a uma mulher que se casa com um homem que não é solteiro ou viúvo (Mc 10, 11-12).

De acordo com o apóstolo Paulo, se os cônjuges se separarem, deveriam se esforçar para se reconciliar. Se a reconciliação não for possível, eles devem permanecer solteiros até a morte do companheiro legítimo (1 Cor 7, 11,39). Todos concordam que a recepção sacramental da Sagrada Comunhão só é frutífera quando se encontra em estado de graça santificante. Porém, independentemente da questão do estado subjetivo de graça de alguém (ao qual somente Deus é juiz) é necessário que aqueles que vivem em uma contradição objetiva com os mandamentos de Deus e a ordem sacramental da Igreja tomem a determinação de mudar seu modo de vida para receber a reconciliação com Deus e a Igreja no sacramento da penitência.
Leia também: Reflexões da Dra. Anna Silvas sobre a Amoris Laetitia (Parte 01)

Em muitas situações complicadas, diante de ideologias hostis ao matrimônio e em um contexto em que a transmissão da fé tem sido muitas vezes superficial, o sábio administrador da graça divina guiará gentilmente os cristãos, que buscam sinceramente uma vida de fé, para ver a situação familiar à luz do Evangelho de Cristo. Nos casos em que há motivos graves para não ser dissolvido o [segundo] vínculo e onde não seja possível obter uma declaração de nulidade do primeiro casamento, a finalidade deste caminho, muitas vezes difícil e longo, é que as pessoas vivam juntas como irmãos e irmãs e, portanto, também tenham acesso à Sagrada Comunhão.
Leia também: Reflexões da Dra. Anna Silvas sobre a Amoris Laetitia (Parte 02)

Além disso, não devemos esquecer que a fé católica não reduz o mistério da Eucaristia à recepção da Sagrada Comunhão. O que é decisivo é, antes de tudo, a participação no Sacrifício Eucarístico. A principal preocupação dos pastores da Igreja deve ser o cumprimento dos fieis de sua obrigação dominical. Deus certamente não negará seu amor àqueles que, apesar das repetidas falhas, pede humildemente sua graça, para que possam cumprir os mandamentos. Especialmente em vista de nossos próprios pecados, devemos respeitar e ajudar amorosamente, na nossa peregrinação comum, aqueles nossos irmãos e irmãs que sentem que estão em um dilema quando se trata de situações familiares e que, apesar de sua boa vontade, eles nem sempre conseguem viver de acordo com os mandamentos de Deus. É verdade que os confessores também são juízes. Mas eles desempenham esse papel não por orgulho humano, para condenar o pecador. Em vez disso, seu juízo é como o diagnóstico de um médico sábio, que procura conhecer a natureza da doença e depois derrama azeite e vinho nas feridas, assim como fez o samaritano misericordioso, devolvendo as pessoas ao refúgio da Santa Mãe Igreja. 
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 Cardeal Dom Gerhard Ludwig Muller, ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.
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Para citar: Muller, Cardeal Gerhard Ludwig. Eu te absolvo: Reflexões do Cardeal Müller sobre a Confissão. Publicado no blog Regozija-te com a verdade, aos 17 de dezembro de 2017. Tradução de Gabriel Luan Paixão Mota. Originalmente a matéria foi publicada em First Things.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Desejo de mudar: a explicação de Coccopalmerio esclarece a Amoris Laetitia?



DESEJO DE MUDAR
A EXPLICAÇÃO DE COCCOPALMERIO ESCLARECE A AMORIS LAETITIA?


O Cardeal Francesco Coccopalmerio publicou um livro no qual ele apresenta reflexões sobre o capítulo oito, sobre as uniões irregulares, da Exortação Apostólica Amoris Laetitia, polêmico documento de origem sinodal, a fim de interpretá-lo respeitando a doutrina católica. Mas será que o escrito do cardeal realmente põe fim às dúvidas levantadas sobre o confuso texto da exortação?

Pois bem. O que se segue é uma análise do que considero ser o núcleo da argumentação do livro, sem, porém, pretender encerrar a questão, mas tendo apenas como objetivo avaliar se o problema da exortação foi sanado.

Certamente há outros pontos interessantíssimos a serem analisados no texto do Cardeal Coccopalmerio, mas limito-me a discutir o que ele considera as duas condições essenciais para que os recasados civilmente possam se confessar e comungar. Diz ele que "poderia se admitir ao sacramento da Penitência e da Eucarística os fiéis que se encontram em união não legítima, mas que tenham duas condições essenciais: que desejem mudar de situação, mas não possam levar a cabo seu desejo."[1] Dessa forma, os dois critérios seriam (1) o desejo de mudar de situação e (2) uma impossibilidade de o fazer.

À primeira vista parece-nos que o argumento é razoável, porém contém problemas em ambas as premissas. Nessa altura quero novamente limitar mais uma vez o campo de debate, ao tratar apenas da primeira condição, ignorando a segunda (que deixo para outra oportunidade).

A questão a ser levantada e investigada é a seguinte: é suficiente o desejo de mudar de situação para que seja possível ascender ao Sacramento da Confissão? Isto é o que se propõe verificar, porque uma vez possível confessar-se validamente, é forçoso admitir o perdão dos pecados e a possibilidade da comunhão eucarística. Isto porque o Sacramento da Confissão é o meio pelo qual aqueles que, depois do batismo, estejam conscientes de haver cometido pecado grave devem passar para chegar ao Sacramento da Eucarística, ou melhor, à comunhão eucarística.

O que diz a doutrina católica sobre o assunto? O que é necessário para confessar-se? Diz que, entre outras coisas, é necessário possuir contrição com firme resolução de não mais pecar (Catecismo da Igreja Católica, 1451), remetendo ao Concílio de Trento, que assim diz na Sessão XIV:

"A contrição, que tem o primeiro lugar entre os mencionados atos do penitente, é uma dor da alma e detestação do pecado cometido, com propósito de não tornar a pecar (cum proposito non peccandi de cetero). Este movimento de contrição foi necessário em todo o tempo para se alcançar o perdão dos pecados."[2]


Dessa forma, fala-se em propósito, firme propósito para ser mais preciso, não de um desejo. Mas seria desejo o mesmo que propósito? Segundo Rocha Pombo, desejar, donde vem desejo, é "ter vontade de conseguir ou de gozar alguma coisa: é querer com mais gosto"[3] e propósito é "resolução tomada, firme determinação"[4], levando-nos a concluir que os termos não possuem o mesmo significado.

No entanto, é necessário ir além de qualquer comparação linguística. Convém saber se há a mesma distinção no ensino católico, por isso, transcrevo abaixo o que diz Santo Afonso Maria de Ligório, Bispo e Doutor da Igreja.

"Os santos desejos são asas que nos fazem voar da terra. Por um lado, Eles nos dão força; para caminhar na perfeição, por outro lado, eles nos aliviam os sofrimentos da caminhada. É um grande erro dizer como alguns dizem: Deus não quer que todos sejam santos. «Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação». [Porém] Não basta só o desejo de ser santo, se não juntamos a ele uma firme resolução de alcançá-lo. Quantas pessoas se alimentam só de desejos e nunca dão um passo no caminho de Deus. Estes são os desejos de que fala a Bíblia: «Os desejos do preguiçoso o matam». O preguiçoso deseja sempre e nunca se decide a empregar os meios próprios de seu estado de vida para se tornar santo."[5]

Fica claro que os termos não se coincidem na significação. Por causa disso, diz Padre Paulo Ricardo que “não adianta querer vagamente amar a Deus, se não se faz o firme propósito, a «determinada determinación» de agradá-Lo [6], citando Santa Teresa de Jesus. Entre desejar, querer, intencionar, etc. e tomar firme propósito ou resolução há um abismo, não obstante o fato de que se requer o primeiro para a existência do segundo. Ao que ajunta o Padre Divino Antônio Lopes, FP, ao afirmar que “o firme propósito de não tornar a cair nos pecados não é simples intenção e mero desejo; mas sim, determinação enérgica de não mais pecar."[7]

Esse propósito deverá ser firme, eficaz (prático), universal, interior e soberano, segundo explicam respectivamente o Padre Bernardo, monge cisterciense, e o Monsenhor Eugene Cauly, vigário de Reims (França), abaixo.

"O propósito é a vontade firme de não mais pecar no futuro, e deve ser firme (isto é, o penitente deve ter a vontade sincera de não recair nunca mais no pecado, apesar das dificuldades), eficaz (isto é, o penitente deve não só ter a vontade de não pecar, mas também de usar os meios necessários para evitar a recaída no pecado, especialmente de evitar as ocasiões próximas de pecado) e universal (isto é, o propósito deve estender-se a todos os pecados cometidos, especialmente aos mortais. É suficiente que o propósito seja concebido de forma genérica: “não quero pecar mais”)." [8]

O firme propósito é a resolução bem decidida de não tornar a cair nos pecados que se tem cometido e que foram confessados com arrependimento. Não é, pois, simples intenção, mero desejo; mas sim, determinação enérgica de não mais pecar. Para ser sincero e verdadeiro, o firme propósito, como a contrição, deve ser: interior, isto é, no coração e na vontade e não unicamente nos lábios; universal, isto é, deve abranger todos os pecados mortais sem exceção, especialmente aqueles em que caímos mais facilmente; soberano, isto é, superior a todos os vínculos, até os partirmos, superior a todas as dificuldades até as vencermos corajosamente; e prático, isto é, ter sua aplicação circunstanciada e seus meios de execução; este último sinal será a pedra de toque e real prova da existência verdadeira do firme propósito.” [9]

Assim, o propósito não é apenas um mero desejo, mas inclui a vontade sincera e interior de não mais cair em nenhum pecado (principalmente mortal), de empregar os meios para tornar realidade esse desejo, e acima de qualquer coisa ou adversidade. Um recasado civilmente que tenha apenas o desejo de sair do estado de adultério, mas que não tome resolução de a isso cumprir (isto é, separar-se do seu conjugue ilegítimo ou abster-se das relações conjugais com ele, se o primeiro caso não é possível, como no caso do cuidado de filhos oriundos da nova união), não tem verdadeira contrição e, por isso, não pode confessar-se validamente, o que impossibilita a comunhão eucarística.


Resumindo isso, é interessante ler o que disse Dom Steven Lopes, bispo do Ordinariato Pessoal da Cátedra de São Pedro (ex-anglicanos dos Estados Unidos), em uma Carta Pastoral sobre a interpretação da Amoris Laetitia.

“Um casal que se casou novamente, se está comprometido em abstinência completa, pode ascender à Eucaristia, depois de um sério discernimento com seu pastor e recorrendo ao sacramento da Reconciliação. Este casal também pode experimentar o quão difícil é a continência, e às vezes pode cair, e em tais casos, eles, como todos os cristãos, devem arrepender-se, confessar seus pecados e começar de novo.
A Reconciliação exige o arrependimento, «a dor da alma e ódio pelo pecado cometido com o propósito de não voltar a pecar» (Catecismo da Igreja Católica, n. 1451). Um casal que se casou novamente no civil, firmemente decidido a uma castidade completa se compromete então em não mais pecar, o que é totalmente diferente do casal que se casou no civil e não tem uma firme vontade de viver castamente, mesmo que possam experimentar dor pelo fracasso de seu primeiro casamento. Em uma situação como esta, em que ou não reconhecem que sua falta de castidade é adultério ou não tem a firme resolução de evitar o pecado, é um pecado grave. Em ambos os casos, a disposição necessária para a reconciliação não existe, por isso eles receberão a Eucaristia em um estado de pecado grave. A menos e até que os recasados civilmente tentem abster-se totalmente das relações sexuais, a disciplina sacramental não permite que recebam a Eucaristia.” [10]

Portanto, fica demonstrado que o texto do Cardeal Coccopalmerio não encerra o debate. Por outro lado, é importante destacar que o seu texto é mais restritivo do que os oferecidos por outros prelados, como Kasper & CIA, porque ele explica que fora do caso em que há as duas condicionantes não é possível a confissão e a comunhão, como, por exemplo, no caso do fiel que "sabendo que está em pecado grave e podendo dele sair, não tiver nenhuma sincera intenção para levar a cabo tal propósito".

Para finalizar deixo para reflexão duas histórias, uma de um rapaz e outra de uma moça em confissão, que o Padre Luiz Chiavarino conta em seu livro «Confessai-vos bem».

Um tal confessava que tinha roubado uns feixes de lenha.
— Quantos? Perguntou o confessor.
— Padre, eu tirei cinco, mas o senhor pode calcular sete.
— Como! São cinco ou sete?
— Eu explico Padre. Dos sete feixes que encontrei tirei cinco, mas hoje à noite irei buscar os outros dois. Confesso-me antecipadamente; por isso o senhor pode calcular sete.
Uma moça que tinha acabado de se confessar, perguntou depois de receber a absolvição:
— Padre, posso comungar hoje?
— Pode sim, e não só hoje como amanhã e nos dias seguintes.
— Ah, amanhã já não poderei mais porque marquei um encontro no baile hoje á noite e não posso faltar.
— Você falou em baile? Mas você não acabou agora mesmo de prometer a Jesus que não O ofenderia mais e que evitaria as ocasiões?
— Padre, eu prometi para o passado e não para o futuro!
Eis aí. A maior parte das vezes promete-se para o passado, isto é, não se promete nada, e assim, a história se repete sempre: confissões e pecados, pecados e confissões. Mas, confessar-se sem se emendar é o caminho certo para a perdição.



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Notas
[1] – Cardeal Francesco Coccopalmerio, «El capítulo octavo de la exhortación apostólica post-sinodal “Amoris laetitia”» (2017), Librería Editrice Vaticana, em matéria publicada pelo Vatican Insider, disponível aqui. Tradução minha.
[2] – Concílio de Trento, Sessão XIV, disponível no Denzinger, 1676.
[3] – Rocha Pombo, «Dicionário de sinônimos da língua portuguêsa» (2011), Academia Brasileira de Letras, p. 174.
[4] – Ibdem.
[5] – Santo Afonso Maria de Ligório, «A prática de amor à Jesus Cristo», p. 37.
[6] – Padre Paulo Ricardo, «Como progredir na caridade?» (Direção espiritual), disponível aqui.
[7] – Padre Divino Antônio Lopes, FP, «Propósito de emenda» (Pensamentos), disponível aqui.
[8] – Padre Bernardo, «O Sacramento da Penitência e Reconciliação», disponível aqui
[9] – Monsenhor Eugene Cauly, «Curso de Instrução Religiosa» (1951), número 285, p. 359.
[10] – Dom Steven J. Lopes, Carta Pastoral «Uma fidelidade a toda prova», em matéria disponibilizada por Sandro Magister no Settimo Cielo, disponível aqui. Tradução minha.



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Para citar: MOTA, Gabriel Luan Paixão. Desejo de mudar: a explicação de Coccopalmerio esclarece a Amoris Laetitia?. Publicado no blog Regozija-te com a verdade, aos 15 de fevereiro de 2017.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Alice no país da "Amoris Laetitia" - Parte 02


Alice no país da "Amoris Laetitia" [Parte 02]

A dilacerante crítica da Exortação pós-sinodal por parte de uma estudiosa australiana. "Perdemos todo ponto de apoio e caímos, como Alice, em um universo paralelo, no qual nada é o que parece ser".

Caso ainda não tenha lido a primeira parte da matéria clique aqui.

3. LEITURA DO CAPÍTULO 8

Cardeal Walter Kasper
E tudo isto antes de ler o capítulo 8. Perguntei-me se a extraordinária prolixidade dos sete primeiros capítulos tinha como objetivo esgotar-nos antes de chegar a este capítulo crucial e nos pegar de guarda abaixada. Para mim, todo o teor do capítulo oito é problemático, no somente o número 304 e a nota [de rodapé] 351. Quando acabei de lê-lo pensei: claro como a luz que o Papa Francisco queria desde o princípio introduzir de alguma maneira a proposta Kasper. Aqui está. Kasper venceu. Isto tudo explica os comentários de corte do Papa no final do Sínodo de 2015, quando censurou os "fariseus" de mente estreita, evidentemente referindo-se a quem o havia impedido de obter um resultado ainda melhor no roteiro de sua agenda. "Fariseus"? Que linguagem mais inapropriada! Os fariseus eram, de alguma forma, os modernistas do judaísmo, os mestres de dez mil matizes e, mais oportunamente, os que apoiavam tenazmente a prática do divórcio e do novo matrimônio. Em todo este assunto os verdadeiros análogos dos fariseus são Kasper e seus aliados.

Mas continuemos. As palavras do número 295 sobre as observações de São João Paulo II quanto a "lei da gradualidade", no n. 34 da Familiaris Consortio, parecem-me sutilmente desleais e corruptas porque tentam incorporar e corromper João Paulo precisamente no apoio de uma ética de situação, para opor-se ao que ele dedicou toda a sua amorosa inteligência pastoral e toda a sua energia. Leiamos novamente o que verdadeiramente disse São João Paulo sobre a lei da gradualidade:

"Os esposos... não podem ver a lei só como puro ideal a conseguir no futuro, mas devem considerá-la como um mandato de Cristo de superar cuidadosamente as dificuldades. Por isso, a chamada 'lei da graduação' ou caminho gradual não pode identificar-se com a 'graduação da lei', como se houvessem vários graus e várias formas de preceito na lei divina para homens em situações diversas. Todos os conjugues são chamados, segundo o plano de Deus, à santidade no matrimônio [...]"

A nota 329 da Amoris Laetitia apresenta também outra corrupção oculta. Cita a passagem n. 51 da Guadium et Spes sobre a intimidade da vida conjugal. Mas através de um truque sutil aplica o texto para os divorciados que se casaram novamente. Tais corrupções indicam com segurança que as referências e as notas, que neste documento são utilizadas como pilares, devem ser adequadamente verificadas.


No número 297 já vemos a responsabilidade das "situações irregulares" transmitida ao discernimento dos pastores. Passo a passo, sutilmente, as argumentações levam a uma agenda precisa. O número 299 pergunta como podem se superarem as "diversas formas de exclusão atualmente praticadas" e o número 300 introduz a ideia de um "diálogo com o sacerdote no foro interno". Já não se pode adivinhar aonde vai a argumentação?

O pecado mortal nos afasta de Deus (Is 59, 2)
E assim chegamos ao número 301, que esquece as precauções e desce para o turbilhão das "circunstâncias atenuantes". Aqui parece que a "velha Igreja vil" foi finalmente substituída pela "nova Igreja amável": no passado talvez pensássemos que quem viviam em "situações irregulares" sem arrependimento estavam em um estado de pecado mortal, entretanto, agora é possível que não estejam nem um pouco em estado de pecado mortal e que, de fato, a graça santificante possa estar agindo neles.

Cena de Alice no País das Maravilhas
Depois com um excesso de puro subjetivismo se explica que "uma pessoa, mesmo conhecendo bem a norma, pode ter grande dificuldade em compreender 'os valores inerentes à norma'". Aqui está uma circunstância atenuante que supera todas as outras circunstâncias atenuantes. Segundo esta tese, escusamos a inveja original de Lúcifer porque ele tinha "grande dificuldade para compreender" o "valor inerente" da majestade transcendente de Deus? Penso que ao chegar aqui perdemos qualquer ponto de apoio e caímos, como Alice, em um universo paralelo, no qual nada é o que parece ser.

Leia também: O que não te contaram sobre as Orações Eucarísticas

Introduzem-se como fundamento uma série de citações de Santo Tomás de Aquino, sobre as quais não estou qualificada para opinar, somente posso dizer que, obviamente, seria oportuno verifica-las e contextualizá-las [n.tr. já existem tomistas comprovando que o sentido dos textos do Doutor angélico fora corrompido]. O número 304 é uma apologia, tecnicamente elaborada, da moral casuística, argumentada com termos exclusivamente filosóficos, sem nenhuma referência à Cristo ou à fé. Não é possível evitar em pensar que esta passagem é obra de outra mão. Não é o estilo de Francisco, inclusive supondo que seja seu pensamento.

"Mais almas vão para o Inferno por causa dos pecados da Carne
que por qualquer outro motivo" (Nossa Senhora em Fátima)
Por último, chegamos ao ponto crucial, o número 305. Começa com caricaturas medíocres, como se repetem em todo o documento. O Papa Francisco repete e reafirma, agora, a nova doutrina que havia indicado um pouco antes: uma pessoa pode estar em uma situação objetiva de pecado mortal - porque é disto que ele fala - e viver e crescer na graça de Deus, ao mesmo tempo que "recebe a ajuda da Igreja" que, segundo declara a lamentavelmente famosa nota 351, pode incluir "em certos casos" tanto a confissão como a comunhão. Estou segura de que muitos já estão ativamente tentando "interpretar" tudo isto segundo uma "hermenêutica da continuidade" para mostrar sua harmonia, presumo, com a tradição. Poderia acrescentar que neste número 305 o Papa Francisco cita a si mesmo quatro vezes. De fato, parece que para o Papa Francisco o ponto de referência, citado com mais frequência na Amoris Laetitia, seja ele mesmo, o qual, em si mesmo, é interessante.
No resto do capítulo o Papa Francisco muda a direção. Admite de maneira complicada que sua ênfase pode dar "lugar a confusão" (n. 308), ao que responde com uma discussão sobre a "misericórdia". No início do n. 7 havia declarado que "todos se sintam muito interpelados pelo oitavo [capítulo]". Sim, mas preocupado em não o entender com o sentido heurístico que ele lhe dá. O Papa Francisco, francamente, admitiu no passado que ele é o tipo de pessoa que gosta de causar "confusão"? Bem, creio que podemos conceder que aqui, certamente, ele alcançou o tal objetivo.

O Santo que escreveu a Familiaris Consortio
e a Veritatis Splendor
Permitam-me lhes fale um amigo meu, um homem mais bem taciturno e prudente, casado, que antes que a exortação fosse me disse: "Espero realmente que ele evite a ambiguidade!". Pois bem, creio que nem a leitura mais piedosa da Amoris Laetitia permite que se diga que a ambiguidade foi evitada. Usando as próprias palavras do Papa Francisco encontramos "fenômenos ambíguos" (n. 33) neste documento e, atrevo-me a dizer, em todo seu pontificado. Se é impossível a situação de criticar um documento do magistério ordinário, consideremos se na Amoris Laetitia não é o próprio Papa Francisco quem relativiza a autoridade do magistério, debilitando o magistério do Papa João Paulo, sobretudo no que concerne a Familiaris Consortio e a Veritatis Splendor. Desafio a qualquer um a reler com seriedade a encíclica Veritatis Splendor, digamos os números 95 a 105, e não concluir que há uma profunda dissonância entre essa encíclica e esta exortação apostólica. Na minha juventude angustiava-me o enigma: como é possível ser obediente ao desobediente? Porque também o Papa é chamado à obediência, na verdade, de uma forma mais excelente.


4. AS IMPLICAÇÕES QUE EMANAM DA AMORIS LAETITIA

As sérias dificuldades que prevejo, sobretudo para os sacerdotes, surgem do confronto entre as distintas interpretações sobre as brechas discretamente abertas em toda a exortação Amoris Laetitia. O que fará um jovem sacerdote que, bem informado, deseja manter que os divorciados em segunda união não possam receber a comunhão, enquanto que seu pároco tem uma política de "acompanhamento" que, ao contrário, prevê que possa recebê-la? O que fará um sacerdote com um sentido de fidelidade similar se o seu bispo e sua diocese adotar uma política mais progressista? O que fará uma região de bispos diante de outra região de bispos, quando cada grupo de bispos como cortar e dividir as nuances desta nova doutrina, para o que, no pior dos casos, é considerado pecado mortal de um lado da fronteira e "acompanhado" e permitido do outro?

Sabemos que já está ocorrendo, oficialmente, em certas dioceses alemãs e, não oficialmente, na Argentina e inclusive aqui, na Austrália, há anos, como posso verificar em minha própria família.

Um resultado como este é tão desconcertante que poderia marcar, como sugeriu outro amigo meu, também casado, o colapso da história cristã católica. Mas é claro que existem outros aspectos da deterioração eclesial e social que nos levou a este ponto: o estrago da falsa renovação na Igreja das últimas décadas; a incrivelmente estúpida política de inculturação aplicada a uma cultura ocidental sem raízes invadida pelo secularismo militante; a inexorável e progressiva erosão do matrimônio e da família na sociedade, o ataque contra a Igreja, mais intenso desde seu interior que do exterior, como denunciava o Papa Bento; o grande desvio de alguns teólogos e leigos em matéria de anticoncepção; os espantosos escândalos sexuais; os inumeráveis sacrilégios; a perca do espírito da liturgia; os cismas internos "de fato" sobre  uma série de questões enfoques graves, sutilmente disfarçados sob uma aparência de unidade "de iure" da Igreja; os modelos de profunda dissonância espiritual e moral que pululam atualmente sob o vergonhoso título de "católico". E nos surpreendemos de que a Igreja esteja em um estado de debilidade e esteja desaparecendo?

Poderíamos inclusive rastrear os longos precedentes temporais da Amoris Laetitia. Como tenho um espírito um tanto quanto antiquado, vejo este documento como o mal fruto de certos desenvolvimentos do segundo milênio na Igreja ocidental: a forma rigidamente racionalista e dualista do tomismo promovida pelos jesuítas no século XVI e, neste contexto, sua elaboração da compreensão casuística do pecado mortal no século XVII. A arte da casuística foi aplicada a uma nova categoria de ciência sacra chamada "teologia moral", na qual, me parece, a regra de cálculo é sabiamente usada para estimar tecnicamente, caso por caso, a culpabilidade mínima necessária para evitar a imputação de pecado mortal. Que meta espiritual! Que visão espiritual! Hoje a casuística volta a levantar a sua cabeça feia sob a nova forma de ética da situação e a Amoris Laetitia, francamente, está cheia dela, embora tenha sido expressamente condenada por São João Paulo II na encíclica Veritais Splendor.


5. PEJORAÇÃO

Posso lhes exortar de alguma maneira que possa ser de ajuda? São Basílio pronunciou uma grande homilia sobre o texto "Mas tenha cuidado e guarda-te bem" (Dt 4, 9). Antes de tudo devemos ocupar-nos de nossas disposições. Nos Padres do deserto encontramos várias histórias onde um jovem monge persegue sua salvação eterna mediante a heroica mansidão de sua obediência a um abade com sérias imperfeições. E ao final obteve também o arrependimento e a salvação de seu abade. Não devemos deixar-nos tentar por reações de hostilidade ao Papa Francisco, pois corremos o risco de cair no jogo do diabo. Devemos honrar e manter na caridade também a este profundamente imperfeito Santo Padre e rezar por ele. Com Deus nada é impossível. Quem sabe, Deus tenha colocado Jorge Mario Bergoglio nesta posição para encontrar um número suficiente de pessoas que rezem eficazmente pela salvação de sua alma.

Tenho observado que os cardeais Sarah e Pell permanecem em silêncio. Pode ser que seja sábio fazê-lo, pelo menos por enquanto. Enquanto isso, vocês que têm responsabilidades no governo da Igreja terão que dar disposições práticas no que concerne às questões controvertidas da Amoris Laetitia. Antes de tudo, em nossas mentes não devemos ter alguma dúvida sobre qual é e será o ensinamento real do Evangelho. Obviamente, qualquer estratégia de pressão para um esclarecimento oficial da futura prática deve ser tentada. Exorto em particular aos bispos para fazer isto. Alguns de vocês podem encontrar-se em situações muito difíceis quanto a seus semelhantes, quase exigindo as virtudes de um confessor da fé. Estão preparados para os cilícios, metaforicamente falando, que podem receber? Claro que eles podem eleger a ilusória segurança de um vazio convencional e da simpatia superficial, uma grande tentação para eclesiásticos como também para homens de negócios. No aconselho. Os tempos são críticos, talvez muito mais do que suspeitamos. Estamos sendo postos à prova. "O Senhor está aqui. Ele te chama."


6. A DISPOSIÇÃO EUCARÍSTICA APROPRIADA PARA OS DIVORCIADOS EM SEGUNDA UNIÃO

Recentemente um amigo me enviou por e-mail alguns pontos sobre as disposições eucarísticas justas para os que estão em "situações irregulares". Na minha resposta expressei o que pensava sobre o que creio ser a conduta espiritual e sacramentalmente aconselhável para um católico que se encontra na "situação irregular".

Há uma encantadora senhora que vem habitualmente à Missa em nossa catedral e se senta atrás de todos. Tive uma conversa com ela e soube que se encontra em uma destas "situações irregulares", mas é muito diligente em vir à Missa, ainda que não comungue. Não se revolta contra a Igreja, nem diz "É culpa da Igreja" ou "Que injusta é a Igreja", sentimento ouvido de outros, aos quais corrigi com amabilidade. Nestas circunstâncias o comportamento desta senhora é admirável.

A melhor atitude que pode ter na oração quem está nestas situações e ainda não chegou ao arrependimento requerido (e, portanto, a confissão), mas não quer deixar de ver Deus, é apresentar-se diante do Senhor na Missa em seu estado de privação e necessidade, e não sair correndo para "arrebatar" a eucaristia, mas tentando abrir-se para a ação de graças e a uma mudança das circunstâncias, se e quando for possível. Meu pensamento sobre sua situação é a de que é melhor esperar honestamente, ainda que dolorosamente, na tensão de sua situação diante de Deus, sem subterfúgios. Creio que este é a melhor posição para o triunfo da graça.

A comunhão é remédio para a alma que está livre de toda
pecado, mas é condenação para aqueles que querem servir
a dois senhores (I Cor 11, 27)
Quem de nós não se sente identificado com esta situação desigual causada pela luta espiritual da própria vida, como por exemplo, o duro combate que deve realizar diante de uma paixão aparentemente insuperável e da que somente à duras penas se encontra em caminho de saída? O que suportamos quando nos sentimos apanhados durante muito tempo em um pecado antes de que nossa vida moral possa imergir em um lugar de maior liberdade? Recordemos a famosa oração de Santo Agostinho a Deus, antes de sua conversão: "Domine, da mihi castitatem, sed noli modo" (Senhor, concede-me a castidade, mas não agora). Penso que quando estas pessoas assistem à Missa e se abstêm de receber a comunhão possa ser um grande testemunho para os demais. Sim, é um brado que nos convida a examinar nossa própria disposição ao apresentarmo-nos para participar nos santíssimos e deificantes Corpo e Sangue de Nosso Senhor.

A propósito do qual me vem à cabeça uma frase do ator Richard Harris, um católico não-praticante encrenqueiro durante muitos anos: "Eu me divorciei duas vezes, mas prefiro morrer como um mal católico do que fazer com que a Igreja mude para que se adapte a mim".

Há mais honestidade nisto do que... bom, melhor não dizer.

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Fonte: Chiesa Espresso – Por Sandro Magister (Tradução nossa)
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Alice no país da Amoris Laetitia - Parte 01


Alice no país da "Amoris Laetitia" [Parte 01]

A dilacerante crítica da Exortação pós-sinodal por parte de uma estudiosa australiana. "Perdemos todo ponto de apoio e caímos, como Alice, em um universo paralelo, no qual nada é o que parece ser".

A autora é Anna M. Silvas, uma das estudiosas dos Padres da Igreja, sobretudo orientais, mais famosas do mundo. Pertence à igreja greco-católica da Romênia e vive na Austrália, em Armidale, Nova Gales do Sul.

Ensina na Universidade de Nova Inglaterra e na Universidade Católica Australiana. Seus principais campos de estudo são os Padres de Capadócia: Basílio, Gregório de Nazianzeno, Gregório de Nissa, o desenvolvimento do monaquismo, o ascetismo feminino no início do cristianismo e da Idade Média.

Também ministra cursos sobre o matrimônio, a família e a sexualidade na tradição católica no Pontifício Instituto João Paulo II para Estudo sobre o Matrimônio e a Família em Melbourne.

O que se segue é seu comentário à Exortação apostólica pós-sinodal "Amoris Laetitia", pronunciada diante de um grande público, com bispos e sacerdotes, e publicado posteriormente no site da paróquia do Beato John Henry Newman de Caulfield do Norte, próximo de Melbourne.

O texto original está enriquecido com algumas notas de pé de página e um epílogo com uma passagem de São Basílio, aqui omitidos. Mas não falemos mais nada. O comentário de Anna M. Silvas é de leitura obrigatória. Brilhante, afiado, competente e sincero. Um exemplo luminoso dessa "parresía" que é dever de todo batizado.

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ALGUMAS QUESTÕES SOBRE A "AMORIS LAETITIA"
Por Anna M. Silvas

1. INTRODUÇÃO

Nesta apresentação gostaria de destacar algumas das questões que mais me preocupam sobre a Amoris Laetitia. Estas reflexões estão divididas em três seções. A primeira parte explicará de forma ampla as preocupações gerais; a segunda se concentrará no lamentavelmente famoso capítulo oito; a terceira tratará sobre algumas implicações que a Amoris Laetitia causa aos sacerdotes e ao catolicismo.

Sou consciente de que a Amoris Laetitia, por ser uma exortação apostólica, não goza de infalibilidade. No entanto, é um documento do Magistério Ordinário pontifício e, portanto, faz com que a ideia de o criticar, sobretudo doutrinalmente, seja especialmente difícil. Creio que é uma situação sem precedentes. Queria que houvesse um grande santo, como São Paulo, Santo Atanásio, São Bernardo ou Santa Catarina de Sena que tivesse a coragem e as credenciais espirituais, como por exemplo, a capacidade de profetizar a verdade absoluta, para que dissesse a verdade ao sucessor de Pedro e o levasse de volta a uma posição conceitual melhor. Nestes momentos parece que a hierarquia da Igreja entrou em uma estranha paralisia. Talvez esta seja a hora dos profetas, mas dos verdadeiros profetas. Onde estão os santos de "nooi" (intelecto), purificados pelo contato prolongado com Deus vivo na oração e na ascese, dotados de palavra inspirada, capazes de levar a cabo uma tarefa como esta? Onde estão estas pessoas?


2. PREOCUPAÇÕES GERAIS

Gravadas em tábuas de pedra pelo dedo do Deus vivo (Ex 31, 18; 32, 15), as dez "palavras" proclamadas para a humanidade de todos os tempos: "Não cometerás adultério" (Ex 20, 14) e "Não cobiçarás a mulher do teu próximo" (Ex 20, 17).

Declarou inclusive Nosso Senhor: "Quem repudiar sua mulher e se casar com outra comete adultério contra aquela" (Mc 10, 11).

E o apóstolo Paulo o repetiu: "Por isso, enquanto o marido vive, será chamada adúltera caso se una a outro homem" (Rom 7, 3)

Como um silêncio ensurdecedor, o termo "adultério" está totalmente ausente do léxico da Amoris Laetitia. No entanto, encontramos algo chamado "uniões irregulares" ou "situações irregulares", com "irregular" entre aspas como se o autor quisesse se manter à distância.

"Se tu me amas, guardas meus mandamentos", disse o Senhor (Jo 14, 15). E o Evangelho e as Cartas de João repetem esta advertência do Senhor de várias formas. Isto não significa que nossa conduta esteja justificada por nossos sentimentos subjetivos, mas que a nossa disposição subjetiva se verifica em nossa conduta, ou seja, em nosso ato de obediência. Infelizmente, quando lemos a Amoris Laetitia vemos que também os mandamentos estão de todo ausentes de seu léxico, como a obediência. No seu lugar encontramos algo chamado "ideais", que aparecem repetidamente em todo o documento.
Outra expressão chave que não encontro na linguagem deste documento é "temor de Deus". Ou seja, esse sobressalto diante da realidade soberana de Deus que é o princípio da sabedoria, um dos dons do Espírito Santo na Confirmação. Mas faz tempo que este santo temor desapareceu de uma grande parte do discurso católico moderno. Trata-se de uma expressão semítica que se traduz como "eulabeia" e "eusebia" em grego, ou como "pietas" e "religio" em latim, o coração de uma disposição para com Deus, o autêntico espírito da religião.

Falar de eternidade é propor dois caminhos, o da
salvação e o da perdição
Outro termo de linguagem que falta na Amoris Laetitia é o da salvação eterna. Não há almas imortais que desejam a salvação neste documento! Certamente encontramos "vida eterna" e "eternidade" citada nos números 166 e 168 como um aparentemente inevitável "cumprimento" do destino de uma criança, mas sem nenhuma alusão a imperativos de graça e de luta, isto é, de salvação eterna, que fazem parte deste caminho.

Uma vez que a cultura intelectual de cada um é imbuída de fé por ecos de palavras que ouve, a sua ausência produz um som agudo em meus ouvidos. Olhemos agora o que encontramos no próprio documento.

Que razão há para um texto tão prolixo, 260 páginas, mais de três vezes o tamanho da "Familiaris Consortio"? Esta é, sem dúvida, uma grande descortesia pastoral. E, no entanto, o Papa Francisco quer que se leia "pacientemente, parte por parte" (n. 7). Pois bem, alguns de nós o tivemos que fazer. Grande parte do texto é chato e sem substância. Em geral, acho o discurso do Papa Francisco, não somente neste caso, mas em geral, plano e unidimensional. Poderia defini-lo "superficial" e também "simplista": nenhuma intensidade sob palavras santas e verdadeiras que nos convidam a mergulharmo-nos na profundidade.

Uma das características menos agradáveis da Amoris Laetitia é a grande quantidade de comentários bruscos e irritantes do Papa Francisco, as frases polêmicas que diminuem muito o tom do discurso. As vezes fica-se perplexo quanto ao fundamento destes comentários. Por exemplo, nas lamentavelmente famosa nora 351, o Papa adverte aos sacerdotes que "o confessionário não deve ser uma sala de torturas". Uma sala de torturas?

Em outra passagem, no número 36, disse: "Com frequência apresentamos o matrimônio de forma que seu fim unitivo, o chamado a crescer no amor e o ideal de ajuda mútua, fica ofuscado por uma ênfase quase que exclusiva no dever da procriação".

Qualquer um que tenha o mínimo conhecimento do desenvolvimento [n.tr. aprofundamento] da doutrina sobre o matrimônio sabe que o bem unitivo foi recebido com grande e renovada atenção pelo menos a partir da “Gaudium et Spes”, n. 49, com uma precedência histórica de décadas.

Para mim, estas caricaturas impulsivas e infundadas são indignas da dignidade e seriedade que deveria ter uma exortação apostólica.

Nos números 121 e 122 temos um exemplo perfeito da qualidade errática do discurso do Papa Francisco. Traz uma descrição inicial do matrimônio como "sinal precioso" e "imagem do amor de Deus para conosco", e depois de algumas linhas esta imagem de Cristo e de sua Igreja se converte em um "tremendo peso" que é imposto sobre os conjugues. O Papa usou este termo, "peso" no número 37. Mas, quem espera que exista uma imediata perfeição dos esposos? Quem não tem concebido o matrimônio como um projeto de toda uma vida, de crescimento na vivência do sacramento?

A linguagem do Papa Francisco sobre a emoção e paixão (números 125, 242, 143 e 145) não se baseia nos Padres da Igreja ou em mestres da vida espiritual da grande tradição, mas na mentalidade dos meios de comunicação populares. Sua fusão simplista entre "eros" e desejo sexual no número 151 sucumbe na visão secularista e ignora o "Deus Caritas Est" do Papa Bento, imersa em uma exposição meditada do mistério do eros, do ágape e da Cruz.

Incomoda a linguagem ambígua dos números 243 e 246, que faz pensar que o fato de que seus membros [da Igreja] entrem em uma união objetivamente adúltera e sejam, portanto, excluídos da Sagrada Comunhão seja de alguma forma culpa da Igreja, ou que seria algo que a Igreja deveria pedir perdão. Esta é uma ideia que permeia todo o documento.

Várias vezes, durante a leitura deste documento, parei e pensei: "Há muitas páginas que não ouço falar de Cristo." Com bastante frequência somos submetidos a extensas passagens com conselhos paternais que poderia dar também qualquer periodista secular, sem fé, como os que se leem nas páginas do Reader's Digest ou em um destes suplementos sobre estilos de vida que se acrescentam nos jornais do fim de semana.

É verdade que algumas doutrinas da Igreja estão solidamente apoiadas, por exemplo, contra a união de pessoas do mesmo sexo (n. 52) e a poligamia (n. 53), a ideologia de gênero (n. 56) e o aborto (n. 84). Há afirmações sobre a indissolubilidade do matrimônio (n. 63) e seu fim procriativo e um apoio a "Humanae Vitae" (nn. 68, 83), do direito soberano dos pais na educação dos próprios filhos (n. 84), do direito de cada criança a uma mãe e um pai (nn. 172, 175), da importância dos pais (nn. 176, 177). As vezes se encontra um pensamento poético, como por exemplo sobre o "olhar" contemplativo do amor entre os esposos (nn. 127-8) ou sobre o amadurecimento do bom vinho como imagem de amadurecimento dos conjugues (n. 135).

Mas toda esta saudável doutrina é prejudicada, na minha opinião, pela retórica do conjunto da exortação e por todo o pontificado do Papa Francisco. Estas afirmações da doutrina católica são bem-vindas, mas é necessário perguntar: têm de algum modo mais peso que o entusiasmo passageiro e errático do atual titular da Cátedra de São Pedro? O digo muito seriamente. 


Meu instinto diz-me que o próximo tema ameaçado de ruir será o chamado "matrimônio" entre pessoas do mesmo sexo. Se é possível construir uma justificação sobre os estados objetivos de adultério baseando-se no reconhecimento dos "elementos construtivos nas situações que ainda não correspondem ou já não correspondem à sua doutrina [da Igreja] sobre o matrimônio" (n. 292), "quando a união atinge uma notável estabilidade através dum vínculo público e se caracteriza por um afeto profundo, de responsabilidade para com a prole" (n. 293) etc., até quando se poderá impedir a aplicação do mesmo raciocínio para as uniões de mesmo sexo? E sim, as crianças podem fazer parte desta questão, como bem sabemos pela agenda homossexual. O ex-editor do Catecismo católico [o cardeal Christoph Schönborn], a cuja hermenêutica da Amoris Laetitia, "como desenvolvimento da doutrina", o Papa nos remete, parece estar "evoluindo" sobre a potencial "bondade" das uniões do mesmo sexo.

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Na parte 02 será tratado o polêmico capítulo 8 - Clique para ler

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