segunda-feira, 12 de junho de 2017

O noivado de José e Maria



O NOIVADO DE JOSÉ E MARIA


José apareceu aos olhos de Maria como o homem providencial que a havia de permitir viver no estado de virgindade para o qual se sentia chamada pelo Senhor. Encontrando-o compreendeu que lhe era acessível este ideal e que podia desposar-se com ele.

Hoje admiramo-nos de que tendo tomado a resolução de permanecer Virgem, Maria se tenha decidido pelos desposórios e pelo casamento. Mas no ambiente em que vivia não conhecia outro caminho. Em Israel não existia a instituição da virgindade, não havia comunidades de virgens e o ideal de uma consagração virginal a Deus não era apreciado nem praticado. Este ideal começou, quando muito, a impor-se a um outro grupo de ascetas vivendo no deserto. Pensando no seu futuro, Maria teve de persuadir-se de que a melhor proteção da sua virgindade estava no casamento, contanto que pudesse encontrar um homem que estivesse animado do mesmo ideal, persuadido da excelência da castidade virginal e decidido a respeitá-la. Além disso, a Providência que queria assegurar um lar para o Menino Jesus impelia secretamente Maria neste sentido.

Contudo, a Virgem podia perguntar se encontraria um homem que aspirasse ou consentisse numa união virginal. Não seria, porventura, necessária uma alma excepcional? Grande foi a felicidade de Maria quando descobriu em José uma alma enamorada do mesmo ideal de pureza. Ficou admirada com a elevação dos seus sentimentos.

Por isso, o noivado foi o resultado espontâneo desta comunhão no mesmo ideal e, ao mesmo tempo, de uma profunda e recíproca estima.


Maria admirou igualmente, naquelas circunstâncias, a ação da divina Providência. Não devia ela cantar, no seu silêncio íntimo, o primeiro Magnificat? Com grande entusiasmo agradeceu ao Senhor por haver colocado no seu caminho um jovem destinado a ajudá-la a realizar a sua missão. José era um dom extraordinário da bondade divina.

Este primeiro Magnificat, como o que havia de cantar alguns meses depois, era um hino de gratidão proferido em nome de todos os humildes. Era um humilde, um desconhecido que Deus acabava de oferecer à Virgem como esposo. Enquanto o sonho clássico da jovem é ser esposa de um rei, Maria entusiasmava-se com a escolha divina preferindo os que não se distinguem pela grandeza exterior e vivem na sombra. A pessoa de José tinha, aos seus olhos, tanto maior estima quanto o seu valor era todo interior, escondido numa alma humilde. A grandeza de Deus revela-se nela imensamente mais.

Quando José escolheu Maria para esposa trocando com ela a promessa, não fez senão ratificar a escolha divina. Tinha sido escolhido entre muitos para ser esposo daquela que havia de ser a Mãe de Deus. Naquele momento podia intuir o infinito amor divino encerrado naquela escolha. Começava apenas a suspeitá-lo, a ter consciência do privilégio de possuir uma esposa tão perfeita. No íntimo da alma podia também ele elevar ao Senhor um hino de agradecimento semelhante ao Magnificat da Virgem.

Os desposórios, quer para José quer para Maria, começaram com um entusiasmo todo dirigido a Deus. Se Maria foi a primeira a apreciar as qualidades de José, precedendo a Igreja na sua veneração, José foi o primeiro a agradecer a Deus o dom imenso concedido ao mundo com a beleza espiritual de Maria. Ao ver como esta beleza iluminava a sua vida, dava graças a Deus.

O período dos desposórios não fez senão confirmá-lo na sua admiração. José sentia brotar em seu coração o verdadeiro culto pela noiva tão cheia da graça divina. No seu coração começava a formar-se o culto que a Igreja há de prestar à Virgem. Era um impulso em que se misturava, juntamente com o seu amor, a admiração por uma alma onde tudo era reflexo de Deus.

Serão precisos vários séculos para que a Igreja descubra novamente aquele que foi o noivo de Maria. Quando, porém, o descobrir, José tornar-se-á padroeiro dos desposórios cristãos.


O sentimento religioso cristão apreciará a alegria concedida a Maria por ter encontrado um noivo ideal. Ela pedirá a José que proporcione semelhante alegria às jovens que sentem grandes possibilidades de amor, esperando naquele que lhes permitirá exprimi-lo.

A escolha de um companheiro ou de uma companheira para a vida é tão difícil como importante. Quem não tem diante de si tristes exemplos de uniões infelizes e desgraçadas? A escolha de um noive ou de uma noiva tem uma influência decisiva para muitas vidas humanas. É com razão que se devem dirigir a José para que a escolha feita pelos homens coincida com a escolha feita por Deus. Não é ele o intercessor ideal para conseguir e concurso daquelas circunstâncias providenciais que hão de proporcionar-se e suscitar a união de duas pessoas feitas para viverem juntas?

Para que a escolha humana possa corresponder à escolha divina, José inspira-nos a preocupação de ter mais em conta as qualidades da alma do que as qualidades físicas, inspira-nos a preocupação da beleza espiritual, o encanto mais misterioso e mais sólido conferido pela presença da graça divina. Anima a aspiração de encontrar no outro o que ele mesmo buscava e encontrava na Virgem, a perfeição que aproxima de Deus.

Depois, feita a escolha, é ainda José o guia no progresso do amor no noivado. Este amor possui um perfume especial que só na pureza se pode conservar. José, que conservou sempre esta pureza, não desejando senão a união virginal, comunica o desejo de realizar este ideal durante o noivado. Ensina a gozar a intimidade de uma alma, a evitar tudo o que pode ofuscar ou diminuir a sua beleza espiritual. Estimula a delicadeza na manifestação dos sinais de afeito e fortifica a vontade no respeito sagrado para com a pessoa que se ama. Procura colocar o Senhor no centro deste amor.

Os seus desposórios com Maria são um modelo que o noivado cristão procura imitar. De acordo com a Virgem, José é aquele que nos ensina a amar. Guia os esposos por um caminho em que o amor não cessa de elevar-se com a maior nobreza de sentimentos. Aumenta imenso o impulso de amor, fazendo-nos entrever no amor humano o dom do amor divino. Faz considerar o amor como um chamamento à santidade.

Será para sempre o noivo por excelência, aquele que atingiu o cume do amor dos desposórios, guiando todos os noivos neste mesmo sentido e ao mesmo tempo ajudá-los-á a considerar Maria como noiva ideal.

Nos desposórios, José não é só o modelo dos noivos. Como o compromisso tomado com Maria importava ao mesmo tempo uma promessa de virgindade, o seu exemplo apresenta-nos um aspecto importante da consagração virginal. Aqueles que fazem ao Senhor o voto de castidade perfeita são por ele introduzidos numa intimidade especial com Nossa Senhora. José faz realizar-lhes o privilégio desta intimidade, a felicidade de possuir na vida a companhia de uma presença feminina capaz de suscitar toda a poesia do amor, mas unicamente destinada a elevar a alma para Deus. José, ensinado pela própria experiência faz saborear-lhes toda a beleza espiritual de Maria, e aumenta neles o desejo de uma pureza absoluta para poder participar do ideal de Maria.

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Para citar: GALOT, Jean. São José. Coleção Gena Sancta. Tradução de Manuel Alves da Silva, S.J. Edições Paulistas: 1965. (Alexandria Católica) Publicado no blog Regozija-te com a verdade aos 12 de junho de 2017.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

O encontro de José com a Maria



O ENCONTRO DE JOSÉ COM MARIA


Um encontro decidiu o destino de José! Foi um dia em que o seu olhar se cruzou com o de Maria.

Aparentemente era um encontro semelhante a tantos outros quando um jovem depara com uma moça que lhe agrada para ser sua esposa. José ficou intimamente deslumbrado, ficou encantado, seduzido. Um futuro de felicidade parecia abrir-se-lhe diante.

Na realidade foi um encontro como não tinha havido outro na terra. Na frescura primaveril do seu amor nascente, era diferente de qualquer outro. José ficara impressionado com a incomparável beleza duma alma que era a pureza e a perfeição inigualáveis.

"Salve, ó cheia de graça!" havia de em breve proclamar o anjo Gabriel. Ao contemplar a beleza da Virgem, o anjo havia de reconhecer nela a efusão maravilhosa da graça divina. José não podia descobrir esta graça com o olhar espiritual de um anjo, mas pressentia-a confusamente e experimentava o seu encanto admirável. Descobriu em Maria a existência de uma alma superior, de uma impressionante perfeição.

Muitos tinham passado por ela sem pararem nem descobrirem nela nada especial. A simples beleza corporal de Maria não era tão grande que atraísse os olhares. O jardim permanecia fechado e escapava ao mundo dos sentidos. O olhar ávido de beleza exterior deslizava por aquele rosto sem poder penetrar no íntimo. Para chegar à alma da Virgem era preciso um olhar profundo, liberto dos laços sensíveis.

José deve, pois, à sua grandeza de alma o fato de encontrar e descobrir Maria.

A profundidade do olhar de José não era só uma qualidade natural, era um dom sobrenatural. De há muito o Espírito Santo tinha preparado este encontro. Não só tinha dado a José a força especial para vencer as inclinações e reivindicações do instinto, mas tinha sintonizado a sua alma com a de Maria. Certamente José estava longe de possuir a perfeição de Nossa Senhora, mas uma graça superior tinha purificado aquele esplendor escondido. E o Espírito de amor tinha formado de modo especial o seu coração para que concordasse com o coração imaculado que se lhe oferecia.
Graças a esta harmonia preestabelecida, o encontro assinalou a fusão daquelas duas almas. No decurso dos séculos aqueles que encontrarem Maria ficarão admirados com a sua beleza, mas fá-lo-ão igualmente iluminados pelo Espírito Santo que tinha esclarecido e purificado o olhar de José. Só uma alma sobrenaturalmente orientada pode descobrir Nossa Senhora.

Naquele primeiro encontro o Espírito Santo estabeleceu um futuro que José então não podia discernir. Sem dúvida pressentiu em Maria a Divindade e notou que nunca se tinha aproximado tanto de Deus. Não podia, porém, saber até que ponto era verdadeiramente atraído pelo rosto de Deus através do rosto de Maria. Não podia ter consciência, naquele momento, de tudo o que sentia e apreciava confusamente naquele encontro.

Muitos anos depois, vivendo em companhia de Maria e de Jesus, ao verificar a profunda semelhança entre eles, descobrirá que tendo sido fascinado por Maria, o tinha sido na realidade pelo próprio Jesus. Maria escondia em si a imagem de Cristo. José, ao encontrá-la, encontrara primeiro a Cristo.

Assim como o Salvador, durante a sua vida pública, há de atrair aqueles que encontrara, ou até seduzir, era ele que misteriosamente atraía José e, através do rosto puro de Maria, se apoderava da sua alma.

José experimentou deste modo o que muitos depois dele hão de experimentar seduzidos pelo encanto de Maria. Cedia assim às seduções do amor divino que ela em si escondia.

Afeiçoava-se ao rosto de Jesus que já se delineava no da mãe. Na Virgem, sem o saber, procurava e encontrava o Salvador por vir.

No momento em que José reconheceu em Maria a mulher ideal, aceitou o convite que lhe era feito. A beleza espiritual de Maria encantou-o tanto que quis guardar esta presença sagrada. Só tinha um desejo: viver na intimidade desta alma única no mundo.

Se podemos comparar este encontro com o de Adão e Eva, antes do pecado que havia de ensombrar a humanidade e aviltar os outros encontros, devemos notar que a nova Eva, diferentemente da antiga, elevou o homem para o alto. A primeira Eva empregou a sua influência sobre Adão para o fazer seguir a inclinação da sua fraqueza. Maria, desde o primeiro momento do encontro, elevou José tornando-o superior a si mesmo.

Olhando para ela, José sentiu-se melhor. Impressionado com a perfeição e santidade desta alma, despertaram-se nele aspirações mais nobres.

Em particular, compreendeu que para viver em companhia de Maria devia manter-se na maior pureza e deu-se conta que para conservar a sua missão no nível mais elevado devia estabelecer-se na limpidez virginal. Podemos considerar que o encontro com Maria levou José a tomar a resolução da virgindade. Embora tivesse sido secretamente orientado nesse sentido pela graça, foi só na presença de Maria que compreendeu toda a beleza da vida virginal, sentindo todo o seu encanto e enlevo.

Não foi só uma questão de respeito perante o desejo e a vontade de Maria. José compreendeu que não podia verdadeiramente unir a sua vida à de Maria senão associando-se à sua virgindade. Era um ideal que devia compartilhar.


Foi o primeiro a quem Maria inspirou o encanto deste ideal. Em Maria a Virgindade não era simples salva guarda de si mesma, nem austera renúncia às inclinações sensíveis, era a chama de um grande amor, de um amor que devia ser espiritual para ser um amor mais puro. Era também um amor cheio de frescura, desconhecendo as perturbações da paixão. Descobrindo esta chama no olhar de Maria, José quis também vivê-la e compreendeu com quanta delicadeza devia conservar esta limpidez virginal. Depois dele muitos outros puderam testemunhar que a influência de Maria foi decisiva para eles na consecução deste ideal elevando a sua alma para o amor mais nobre.

Assim se reconhecia, da maneira mais evidente, que o fulcro central deste encontro era Deus. Deus era o traço de união. De fato, Maria só vivia para Deus e desejava manter a sua virgindade para se unir mais a ele. Não se podia penetrar na intimidade de Maria senão entrando na intimidade divina. Com toda a sua pessoa inspirava o encanto virginal de Deus. José foi, pois, impelido por esta dupla aspiração: elevar-se para Deus seguindo o caminho da virgindade.

Depois deste encontro como lhe pareceram mais pequenas as coisas deste mundo! A alma de Maria era tão grande.

Esta descoberta iluminará a existência de José. Maria tornou-o participante da grandeza e da pureza do seu amor.


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Para citar: GALOT, Jean. São José. Coleção Gena Sancta. Tradução de Manuel Alves da Silva, S.J. Edições Paulistas: 1965. (Alexandria Católica) Publicado no blog Regozija-te com a verdade aos 07 de junho de 2017.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Fundações Beneditinas Tradicionais



AS FUNDAÇÕES BENEDITINAS TRADICIONAIS

Nesta entrada oferecemos uma recordação das fundações beneditinas tradicionais que foram reconhecidas pela Santa Sé ou pelos ordinários do lugar.

1.      A Abadia Notre-Dame de Fontgombault

A Abadia Notre-Dame de Fontgombault foi fundada em Vale do Loire por Pedro da Estrela em 1091. Por distintas razões históricas deixou de ser um mosteiro beneditino, restabelecendo-se em 1948 o culto monástico. Desde seu restabelecimento tem preservado a tradição litúrgica gregoriana e, a partir de 1985, celebra exclusivamente de acordo com os livros litúrgicos anteriores à reforma pós-conciliar.



Esta abadia se tornou conhecida por ter acolhido entre 22 e 24 de julho de 2001 algumas Jornadas litúrgicas que contaram com a participação do então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Joseph Ratzinger, mais tarde elevado à Cátedra de Pedro com o nome de Bento XVI, quem deu interessantes conferências, uma delas a de clausura. Segundo disse nessa ocasião o abade Dom Antonine Forget, as Jornadas estavam destinadas a dar início a um novo Movimento Litúrgico, o que em parte se tornou realidade com a promulgação do Motu Proprio Summorum Pontificum em 2007.

Leia também: A personalidade de José, esposo de Maria

Na atualidade é a comunidade mais numerosa da Congregação de Solesmes, com mais de setenta monges, o que tem possibilitado a fundação de novos monastérios que também usam a forma extraordinária e pertencem a essa célebre abadia:

a)      A Abadia de Notre-Dame de Randol, fundada em 1971 na região de Auvernia (França), também adotou a liturgia tradicional em 1984.



b)      A Abadia de Notre-Dame de Triors, fundada em 1984 na região de Ródano-Alpes (França), adotou em 1988 a liturgia tradicional.



c)      A Abadia de Notre-Dame de Gaussan, fundada em 1994 na região de Languedoc-Rosellón (França), adotou desde sua criação o uso dos livros litúrgicos tradicionais. Em 2007, a Abadia foi transferida para a região de Mediodia-Pirineos (França). Hoje se chama Abadia de Notre-Dame de Donezan.



d)      A Abadia de Nossa Senhora da Anunciação de Clear Creek, fundada em 1999 em Oklahoma (EUA), adotou desde sua criação o rito romano tradicional.



e)      A Abadia de São Paulo de Wisques está situada na região de Alta França, onde os monges provenientes de Fontgombault chegaram em 2013 para dar um novo impulso a comunidade estabelecida ali desde 1889. Desde então a Abadia adotou a forma extraordinária.



No total, todos estes monastérios criados desde Fontgombault somam mais de duzentos monges que seguem a regra de São Bento. Um dado interessante é que todos estes monastérios não celebram exatamente com os livros litúrgicos vigentes em 1962 (como ocorre com quem se serve do direito concedido pelo Motu Proprio Summorum Pontificum), mas com o assim denominado Ordo de 1965. Eles mesmos explicam assim sua decisão de não existir estritamente a chamada forma extraordinária:

"[...] os monges das quatro abadias fundadas por Fontgombault não celebram com o missal chamado de São Pio V utilizado pelos sacerdotes 'tradicionalistas' e cuja última edição foi aprovada por São João XXIII em 1962. Na Missa conventual os beneditinos celebram segundo o Ordo Missae de 1965. Mesmo os liturgistas têm esquecido que o Papa Paulo VI publicou um novo Ordo naquele ano (o qual foi muito bem recebido por Mons. Lefebvre). Certamente as simplificações que apresentava eram mínimas quando comparado com a Missa puramente 'tridentina', mas elas merecem ser recordadas. Assim, o Ordo de 1965 retomava a antiga proclamação das intenções a serem rezadas antes do ofertório (orações universais), suprimiu uma parte das 'orações ao pé do altar', assim como o 'último Evangelho' (prólogo de São João), e previa que aquilo que era cantado pela schola ou a assembleia não fosse repetido em privado pelo celebrante. O Pater Noster era cantado por toda a assembleia juntamente com o celebrante, prática que se fazia há vários anos já nas paróquias e que se pode encontrar hoje mesmo em certos grupos 'inconformados' com a modalidade pura da 'forma extraordinária' do rito romano. Mas acima de tudo isso, o Ordo de 1965 restaurava o ritual da concelebração que havia sido abandonado no transcurso da Idade Média."


2. A Abadia de Santa-Madalena de Barroux


Outro grande monastério beneditino que segue a forma extraordinária é a Abadia de Santa-Madalena de Barroux, situada na região de Provença-Alpes-Costa Azul (França) e que conta atualmente com cerca de sessenta monges. Foi fundado por Dom Gérard Calvet em 1978, sendo em sua origem um mosteiro associado à Fraternidade Sacerdotal São Pio X criada por Sua Excelência Reverendíssima Marcel Lefebvre. Depois das sagrações episcopais, em 25 de julho de 1988 a abadia regularizou sua situação com a Santa Sé através da recém erigida Pontifícia Comissão Eclessia Dei. Dez anos depois, em 25 de setembro de 2008, a abadia se integrou a Confederação Beneditina e a Congregação do Subiaco. Em 24 de setembro de 1995 o Cardeal Joseph Ratzinger celebrou a Missa conventual com grande presença de fiéis.



A Abadia fundou um priorado e uma abadia de monjas beneditinas. Daqui procedem os monges que deram origem aos Beneditinos da Imaculada, hoje um instituto de vida consagrada de direito diocesano independente.

a)      O Priorado de Santa Maria da Guarda foi fundado em 2002 na região de Nova Aquitania (França).



b)      A Abadia da Anunciação de Barroux é uma comunidade feminina de monjas beneditinas, fundada em 1979 nos arredores do mosteiro de Santa-Madalena, que em 1989 regularizou sua situação com a Santa Sé.




3. A Abadia de São José de Claraval


Outro mosteiro francês que segue a forma extraordinária é a Abadia de São José de Claraval. Situada na Região de Borgonha-Franco-Condado, se trata de uma abadia autônoma de direito diocesano ligada à Confederação Beneditina. Foi criada em 1972 e nunca teve vínculos formais com a Fraternidade de São Pio X, embora tenha sido S. Ex.a Rev.ma Marcel Lefebvre quem ordenou sacerdotes a vários monges. Em 2 de fevereiro de 1988 a abadia foi reconhecida oficialmente pelo bispo de Dijon.



A pedido do bispo, a Missa conventual se oficia segundo a forma ordinária do rito romano, ainda que em latim, ad orientem e sem concelebração. Isso permite que os monges possam celebrar sua missa rezada, segundo a forma extraordinária se assim o desejam, como realmente ocorre na maioria dos casos.


4. O Mosteiro de São Bento na França


Sua Excelência Reverendíssima Dominique Rey, bispo de Fréjus-Toulon (França), erigiu em dezembro de 2011 o Mosteiro de São Bento, que segue a forma extraordinária do rito romano. Suas celebrações se realizam na igreja paroquial, localizada na Comuna La Garde-Freinet, e são públicas.




5. Mosteiro de São Bento na Itália


Na Itália existe o Mosteiro de São Bento, que se encontra na Núrsia, cidade natal do Santo fundador. A comunidade está formada por jovens monges desejosos de viver a fidelidade da Regra Beneditina e o espírito monástico tradicional. O Padre Cassian, que foi o presidente do Pontifício Instituto Litúrgico, juntamente com outros jovens norte-americanos iniciou seu caminho monástico em 1998 em um apartamento alugado em Roma. No ano 2000, a petição do Arcebispo de Spoleto-Norcia, se estabeleceram na Basílica de São Beto em Núrsia, que foi gravemente afetada pelo terremoto de 2016. Já há alguns anos os monges se encontravam restaurando um antigo convento capuchinho nos arredores de Núrsia, lugar que estará destinado ao repouso e à contemplação, enquanto que o mosteiro da cidade estava reservado para atender o culto da Basílica, hoje em processo de reconstrução.




6. Os Beneditinos da Imaculada


Os Beneditinos da Imaculada são uma comunidade fundada em 2 de julho de 2008 por dois monges procedentes da Abadia de Santa-Madalena de Barroux (França), que se instalaram em Villatalla, um pequeno povo italiano situado em Liguria sobre as alturas de Impéria, muito próximo de Ventimiglia e da fronteira francesa, a pedido de S. Ex.a Rev.ma Mario Oliveri, então bispo de Albenga-Imperia. Em 21 de março de 2017, na festa do Trânsito de São Bento, S. Ex.a Rev.ma Guglielmo Borghetti, atual bispo de Albenga-Imperia, erigiu o monastério em instituto de vida consagrada de direito diocesano. A comunidade celebra conforme os livros litúrgicos vigentes em 1962.



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Fonte: Asociación Litúrgica Magníficat - Una Voce

segunda-feira, 29 de maio de 2017

A personalidade de São José, esposo de Maria



A PERSONALIDADE DE SÃO JOSÉ

A devoção a São José nem sempre foi honrosa para ele. Muitas vezes se lhe atribuiu uma personalidade cansada, descolorida.

Quantas vezes foi apresentado como um velho! Um homem cheio de bondade e santidade que não podia deixar de inspirar simpatia, mas a quem se tirava o privilégio da juventude. A idade que se lhe dava parecia tão desproporcionada com a missão que devia desempenhar em Nazaré! Ao vê-lo tão carregado de anos, com uma barba que atestava o seu número, podia ser tomado como avô de Jesus e com relação a Maria teria idade mais de pai do que de esposo.

Não se reparava que apresentando-o assim não se honrava nem a Virgem nem o Menino. Pretendia-se constituí-lo mais um guardião ou um protetor de Maria do que um companheiro de vida, como se temesse que a sua juventude fosse um perigo para a pureza virginal de sua esposa. Era tirar a beleza e harmonia àquela missão, negando o amor que devia ser a origem dessa missão. Era também não querer dar um verdadeiro pai a Jesus, como se o filho não pudesse crescer e desenvolver-se senão em contato com a sabedoria dum velho.

Felizmente, produziu-se, em época recente, uma reação tendente a representar José sob um aspecto cada vez mais jovem. Embora o Evangelho não nos diga nada sobre a sua idade, devemos admitir que quando uniu a sua vida à de Maria deveria ter a idade em que os jovens geralmente se casam. Uniu a sua juventude à de Maria. Devemos, pois, representar José com os traços de um homem jovem. De resto ele não conheceu a velhice visto ter morrido antes de Jesus começar a sua vida pública.

José possuía sobretudo a juventude da alma: tem a personalidade de um jovem. É de fato, privilégio da juventude querer transformar o mundo com as novidades. Os jovens consideram o mundo como um campo onde desejam exercitar o seu ardor e desenvolver as suas possibilidades de ação, que lhes parecem ilimitadas, para o transformar e aperfeiçoar. Sonham criar de novo o mundo para o tornar melhor. E não fazem mal ter tal sonho, porque, pouco a pouco, graças a esta ação constante de uma juventude que se renovará, a humanidade continuará a sua ascensão.

Foi com esta mentalidade, própria de um jovem, que José encarou o mundo como lhe podia aparecer na sua aldeia de Nazaré. Tinha certamente consciência de que o ofício que exercia não lhe permitia influenciar, de modo palpável, a evolução da humanidade. Desejava, porém, com toda a alma, contribuir para a formação de um mundo melhor. No povo judaico esta ambição de jovem era mantida pela ardente esperança messiânica. De há muito os jovens esperavam impacientemente um Messias, um Salvador. Até então, esta esperança ainda não tinha sido satisfeita. Mas em cada geração não tomava ela novo impulso no coração dos jovens? José não cessou de aspirar a este regime ideal que havia de ser instaurado pelo Messias.

Ele acreditar, pois, na vinda de um mundo novo. E embora soubesse que a hora desta vinda dependia da vontade divina, estava decidido a contribuir com sua modesta parte para a preparação do reino messiânico. Contribuiria, de modo especial, para isso trabalhando por ser perfeitamente o que devia ser no posto assinalado pela Providência.

Com ardente confiança da sua juventude, esperava apressar, com uma vida que agradasse ao Senhor, a formação de um povo novo, mais santo.

José não devia só à juventude das suas forças físicas e do seu temperamento esta atitude de fervor. Vinha-lhe sobretudo da própria juventude de Deus, porque é Deus o Ser perenemente jovem que comunica ao homem a verdadeira juventude, sempre permanente e renovada. José abrira a sua alma à ação íntima do Senhor, pondo-se inteiramente à disposição da vontade divina. Por isso estava cheio daquela alegria com que Deus manifesta a sua presença. Deus comunicava à sua alma uma juventude mais real do que a do seu corpo. Infundia-lhe uma nova visão do mundo e entusiasmava-o pelo futuro melhor que ia preparando, o futuro preanunciado pelos profetas.

Tal devia ser o estado de alma de José quando encontrou Maria. Daí em diante, nunca perdeu esta juventude. De resto, os acontecimentos que estavam para influir na sua vida pessoal não lhe demonstrariam que tinha razão de esperar e de esperar por um mundo novo iminente? E não lhe indicariam que ele, José, por pequeno que fosse na imensidade do universo, poderia contribuir eficazmente para a preparação desta renovação? A sua ardente juventude sentiu-se animada. Se não conseguimos imaginar Maria sob os traços da velhice, pois parece-nos que permaneceu sempre jovem, o mesmo devemos pensar de José: a sua juventude, inspirada pela juventude divina, nunca desapareceu.

A vara florida ou a açucena (flor) postas na mão de José em muitos dos seus quadros ou estátuas não são menos características do que a sua barba de velho venerando. São um símbolo evidente: a vara florida recorda, segundo a lenda propagada pelos apócrifos, a escolha Divina que o designara para esposo da Virgem, o único entre muitos; açucena lembra a castidade admirável deste esposo virginal. Mas o gesto de segurar uma flor tão pouco condizente com um homem contribui para o constituir um ser convencional, ofuscando assim o vigor da sua personalidade. Com as suas mãos calejadas de trabalhador, José manejou outras que não eram flores.

A alma de José era certamente toda delicadeza. A sua juventude foi uma primavera não isenta de poesia. Teve uma vida saudável e o seu casamento demonstra-o claramente. Foi com grande frescura de sentimentos que se aproximou de Maria. Se foi escolhido por Deus para ser seu esposo, compreendemos que devia ser dotado de fina sensibilidade, capaz de compreender a fineza de ânimo de Maria, de apreciar o seu perfume e de concordar com ela.

Contudo, a sua personalidade não era semelhante a uma planta de ornato. Não tinha nada de artificial ou retórico. Não naufragava no sentimentalismo fácil. José foi um homem que conservou sempre o temperamento viril e teve uma alma particularmente forte. Precisou desta força para desempenhar a missão de chefe de família. A sua castidade foi a expressão desta força, a autêntica força espiritual que assegura o domínio da alma sobre o corpo sabendo impor-se uma disciplina de vida.

Pela força do seu caráter foi o amparo de Maria, como o deve ser o esposo para com a esposa. Com ela exerceu a sua autoridade de Pai e de educador sobre o Menino Jesus.

José possuía esta força notavelmente equilibrada. O que o Evangelho nos diz dele dá-nos a impressão de um homem que procede com grande sabedoria e tranquila segurança. Vivendo para o Senhor e servindo-o não tinha porventura consciência de receber dele a força necessária, sobretudo nas ocasiões mais difíceis? Isto preservava-o de ser impulsivo e inconsiderado, levando-o a proceder com calma e perseverante energia.

José devia aparecer jovem e forte, rico de uma personalidade cumulada de dons naturais e mais ainda de graça divina.

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Para citar: GALOT, Jean. São José. Coleção Gena Sancta. Tradução de Manuel Alves da Silva, S.J. Edições Paulistas: 1965. (Alexandria Católica) Publicado no blog Regozija-te com a verdade aos 29 de maio de 2017.

terça-feira, 25 de abril de 2017

A reforma litúrgica do Ritual de Exorcismos - Rev. Pe. Gabriele Amorth



A reforma litúrgica do Ritual de Exorcismos

Por Rev. Pe. Gabriele Amorth, exorcista


Quando tive que tratar com uma comissão de cardeais, encarregada de reescrever o ritual dos exorcistas, obtive uma demonstração da incredulidade do Vaticano quanto a existência de Satanás.

O Concílio Vaticano II, ao fim do seu trabalho, havia ordenado que os textos litúrgicos fossem atualizados. Infelizmente nesta obra de atualização frequentemente prevaleceu uma busca por novidade, que ao invés de renovar pensou-se em acabar com os textos antigos e fazer tudo de novo. Uma ação muitas vezes perversa porque se partiu do pressuposto de que o antigo estava sempre errado. Que loucura!

Gabriele Amorth, sacerdote exorcista
O último texto que caiu nas mãos dos "inovadores" foi o ritual para os exorcistas, isto é, o texto que um exorcista segue quando deve realizar um exorcismo. Eu, juntamente com outros exorcistas, havia me preparado, pensando que logo seria consultado por esta comissão. No entanto, nada aconteceu. Pelo contrário, em 4 de junho de 1990 apareceu para nossa surpresa o novo ritual «ad interim», sem que nenhum de nós tivéssemos sido consultados, nem de viva voz nem por telefone.

Algo mal feito. Um texto provisório pode ser sempre alterado, pensamos. Ainda mais no início, quando este novo ritual foi distribuído para que os exorcistas o experimentasse, observações estas que o Vaticano devia ter levado em consideração.

Basicamente, segundo os acordos, os exorcistas deviam testar “em campo” este novo ritual, depois deviam transmitir as próprias observações ao bispo de suas respectivas dioceses, este, por sua vez, as enviariam para a Conferência Episcopal e esta, por fim, à Congregação para o Culto Divino, a congregação da Santa Sé responsável pela renovação do texto. Na verdade, esse trajeto tão tortuoso demonstrou ser uma armadilha. O Cardeal Eduardo Martínez Somalo, prefeito da Congregação para o Culto Divino (1988-1992), disse: "Dentro de 2 anos as Conferências Episcopais de todo o mundo estão encarregadas de enviar-nos um relatório sobre o uso do novo ritual, assim como eventuais conselhos e sugestões apresentadas pelos sacerdotes que dele tenham feito uso". Na verdade, nada disso aconteceu. Principalmente por causa das muitas voltas do trajeto - dos exorcistas aos bispos, destes à Conferência Episcopal e, em seguida, desta última à Congregação para o Culto Divino -, até o Vaticano não chegou nenhuma observação. Nenhuma.
Nós, os exorcistas, tínhamos muito a dizer. A leitura e a experimentação do novo ritual foram, de fato, absolutamente desastrosas. Era bastante evidente que o novo ritual havia sido preparado por pessoas que nunca haviam feito exorcismos na vida e que nunca haviam assistido a algum.

Dessa forma, nós, exorcistas, decidimos nos reunir em assembleia para decidir o que fazer. Encontramo-nos em dezoito, provenientes de diversos países do mundo, entre os exorcistas mais experientes. Discutimos esse texto provisório e decidimos escrever uma longa lista do que chamamos de "As observações dos dezoito". Entregamos nossas observações à Conferência Episcopal Italiana, à Congregação para o Culto Divino e também apresentamos uma cópia diretamente ao Papa João Paulo II, quem diante de nossos olhos a recebeu e nos agradeceu.

Meses se passaram e um dia apareceu a notícia de que o texto definitivo do novo ritual havia saído, publicado em latim, com data de 22 de novembro de 1998. A tradução italiana, que estava a cargo da Conferência Episcopal Italiana, veio à luz no dia 25 de novembro de 2001.

Foi imensa a nossa desilusão. O texto definitivo, para nossa surpresa, baseava-se essencialmente na edição «ad interim», mas com o acréscimo de erros macroscópicos. Por exemplo, o texto proibia fazer uso dos exorcismos em casos de malefício[1], que são mais de 90% dos casos de problemas diabólicos. O texto também proibia realizar exorcismos se não se possuía certeza da presença do demônio. Algo absurdo. Somente fazendo exorcismos é que se tem a certeza se se trata de possessão ou não! Além disso, não se deram conta de que os próprios textos contradiziam ao Catecismo da Igreja Católica, onde se afirma que os exorcismos são feitos em caso de possessão e de transtornos causados pelo demônio. Nunca há possessão em tais transtornos, o demônio nunca está presente do corpo das pessoas, assim como não está quando se exorcizam os animais, as casas ou os objetos.

Então para que serviram "as observações dos dezoitos"?

Somente serviram para desprezo. É lamentável dize-lo, mas o tenho que fazer: somente serviram para serem desprezadas.

O Secretário para a Congregação para o Culto Divino afirmou, diante da comissão de cardeais encarregada de redigir este novo texto, que os únicos interlocutores deviam ser os bispos e não os sacerdotes exorcistas. E acrescentou: "Deve-se tomar ciência da existência de um grupo de exorcistas e também demonólogos, que posteriormente se constituíram na Associação Internacional, que orquestravam uma campanha contra o rito". Éramos nós. Éramos nós, os dezoito.

Foi uma acusação imoral.

Queríamos somente fazer observações depois de haver usado o ritual «ad interim» e constatado em muitas partes sua total ineficácia. Havíamos acreditado na Lumen Gentium, a Constituição Dogmática sobre a Igreja proveniente dos trabalhos do Concílio Vaticano II, que diz: "Segundo o grau de ciência, competência e autoridade que possuam, têm o direito, e por vezes mesmo o dever, de expor o seu parecer sobre os assuntos que dizem respeito ao bem da Igreja" (n. 37).
Acreditamos na Lumen Gentium, mas não fizeram o mesmo no Vaticano. Não me parece que tenha sido recebida por todos no Vaticano.

Ritual Romano de 1952, ao qual se refere o Pe. Amorth.
Por sorte, in extremis, o Cardeal Jorge Arturo Medina Estévez, que em 1996 se tornou prefeito da Congregação para o Culto Divino, conseguiu no último momento inserir uma notificação especial, na qual se concedia aos exorcistas a faculdade de continuar usando o antigo ritual, depois de uma autorização do bispo. Foi a nossa salvação. Todos podemos seguir exorcizando com o antigo ritual, que na minha opinião é o único eficaz contra o demônio[2].

Entretanto, devo dizer uma coisa a mais. É sobre Joseph Ratzinger. O atual Pontífice era, na época do Ritual «ad interim», um dos membros da comissão cardinalícia encarregada de escrever o texto. Ele foi o único que investigou e escutou o nosso parecer, o dos exorcistas, ainda que depois, infelizmente, tal parecer não tenha sido compartilhado por seus outros colegas.

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NOTAS

[1] – (N.tr.) No livro "Um Exorcista Conta-nos", o autor explica que malefício, termo genérico, é o fenômeno pelo qual uma pessoa inocente pode ser incomodada pelo demônio. A magia negra, as maldições, o mau olhado, os bruxedos (trabalhos ou despachos) são formas de malefícios.

[2] – (N.tr.) Essa opinião do reverendo padre possui bastante peso, por ser ele ex-exorcista oficial do Vaticano e um dos mais experientes exorcistas da Igreja. Entretanto, nesse campo, os exorcistas estão ainda divididos. Há aqueles exorcistas, como o Pe. Antonio Doñoro, que se aproximam do pensamento do Padre Amorth ao afirmar que o novo ritual é eficaz apenas para as possessões mais leves, enquanto que não é eficaz para as mais graves, ou aqueles outros exorcistas, como o Pe. Salvador Hernández Ramón, que afirmam simplesmente que o antigo ritual é mais eficaz que o novo. No entanto, existem outros famosos exorcistas, como parece ser a opinião do Pe. Jose Antonio Fortea, que creem na igual eficácia de ambos os rituais.

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Para citar: AMORTH, Padre Gabriele. O Último exorcistaTradução de Gabriel Luan Paixão Mota. Publicado no blog Regozija-te com a verdade, aos 25 de abril de 2017

segunda-feira, 24 de abril de 2017

O crucifixo no centro do altar na Missa "de frente para o povo" - Departamento de Celebrações do Sumo Pontífice



DEPARTAMENTO DE CELEBRAÇÕES
DO SUMO PONTÍFICE

O crucifixo no centro do altar na Missa "de frente para o povo"


Desde os tempos remotos, a Igreja estabeleceu sinais sensíveis que ajudaram os fiéis a elevar a alma a Deus. O Concílio de Trento, referindo-se em particular à Santa Missa, incentivou esta prática recordando que: "A natureza do homem é tal, que muito dificilmente se eleva à meditação das coisas divinas, sem a ajuda exterior que a favoreça. Por isso a santa Igreja, Mãe piedosa, estabeleceu determinados ritos [...] com o fim de encarecer a majestade de tão augusto Sacrifício [a Eucaristia] e a incitar as mentes dos fiéis a se elevarem por meio destes sinais exteriores da religião e devoção, à contemplação das realidades altíssimas que estão ocultas neste sacrifício"[1].

Um dos sinais mais antigos consiste em voltar-se ao oriente para rezar. O oriente é símbolo de Cristo, o Sol de justiça. "Erick Peterson demonstrou a estreita conexão entre a oração de frente para o oriente e a cruz, conexão evidente como muito tarde no período constantiniano. [...] Entre os cristãos se difundiu a prática de indicar a direção da oração com uma cruz sobre a parede oriental na abside das basílicas, mas também nas habitações privadas, por exemplo, de monges e eremitas"[2].

Missa no Oratório de São José (St. Joseph Oratory), em Detroit - USA (imagem ausente no original)

"Acaso se nos pergunta para onde olhavam o sacerdote e os fiéis durante a oração, a resposta deve ser: ao alto, para a abside! A comunidade orante durante a oração não olhava, de fato, em primeiro lugar, o altar ou a cátedra, mas que elevava ao alto os olhos e as mãos. Assim a abside chegou a ser o elemento mais importante da decoração da igreja, no momento mais íntimo e santo do ato litúrgico, a oração"[3]. Quando, portanto, se encontra representado na abside Cristo entre os apóstolos e mártires não se trata somente de uma representação, mas um epifania na presença da comunidade orante. A comunidade então "elevava as mãos e os olhos ao céu", olhava concretamente a Cristo no mosaico absidal e falava com ele, a ele rezava. Evidentemente, Cristo estava assim diretamente presente na imagem. Dado que a abside era o ponto de convergência do olhar orante, a arte proporcionava o que o orante necessitava: o Céu, a partir do Filho de Deus que mostrava à comunidade como que a partir de uma tribuna"[4].
Portanto, "para os cristãos da antiguidade tardia, rezar e orar formava um todo. O orante queria não somente falar, mas esperava também ver. Se na abside mostrava-se de modo maravilhoso uma cruz celeste ou a Cristo em sua glória celeste, então por isso mesmo o orante que olhava para o alto podia ver exatamente isto: que o céu se abria para ele e que Cristo se lhe mostrava [5].

Dos apontamentos históricos anteriores, se deduz que a liturgia não se compreende verdadeiramente se se a imagina principalmente como um diálogo entre o sacerdote e a assembleia. Não podemos entrar aqui nos detalhes, limitamo-nos a dizer que a celebração da Santa Missa "de frente para o povo" é um conceito que começou a formar parte da mentalidade cristã somente na época moderna, como demonstraram estudos sérios e o reafirmou Bento XVI: "A ideia de que o sacerdote e o povo na oração deveriam olharem-se reciprocamente nasceu somente na época moderna e é completamente estranha à cristandade antiga. De fato, sacerdote e povo não dirigem a sua oração um ao outro, mas juntos dirigem ao único Senhor"[6].

Bento XVI celebrando Missa (imagem ausente no original)
Apesar do Concílio Vaticano II nunca ter tocado nesse assunto, em 1964 a Instrução Inter Oecumenici, emanada do Consilium, grupo de estudos encarregado de levar a cabo a reforma litúrgica prevista pelo Concílio, prescreveu no n. 91 o seguinte: "É conveniente que o altar maior esteja separado da parede para poder circular mais facilmente ao seu redor e celebrar versus populum". Desde então, a posição do sacerdote "de frente para o povo", ainda que não seja obrigatória, se tornou a maneira mais comum de celebrar a Missa. Estando assim as coisas, Bento XVI propôs, também nesses casos, não perder o significado tradicional da oração "orientada" e sugeriu superar as dificuldades colocando no centro do altar o sinal de Cristo crucificado [7]. Aderindo a esta proposta, recorda-se que as dimensões do sinal devem ser tais que se façam bem visível, sob pena de pouca eficácia [8].
A visibilidade da cruz do altar está pressuposta pela Instrução Geral do Missa Romano: "Haja também sobre o altar ou perto dele uma cruz com a imagem do Cristo crucificado que seja bem visível para o povo reunido" (n. 308). Não é precisado, no entanto, se a cruz deve estar necessariamente no centro. Aqui intervém, portanto, motivações de ordem teológico e pastoral, que por causa do curto espaço a nossa disposição não podemos expor. Limitamo-nos a concluir citando novamente Bento XVI: "Na oração não é nem necessário nem sequer conveniente olhar-se mutuamente, muito menos ao receber a comunhão. (...) Em uma aplicação exagerada e mal-entendida da "celebração de frente para o povo", removeram as cruzes do centro dos altares, para não atrapalhar a vista entre o celebrante e o povo. Mas a cruz sobre o altar não é obstáculo à visão, mas sim um ponto de referência comum. É uma 'iconostasis' que permanece aberta, que não impede o pôr-se em comunhão, mas que essa imagem que concentra e unifica nossos olhares se faz de mediadora. Ousaria inclusive a propor a tese de que a cruz sobre o altar não é obstáculo, mas condição prévia para a celebração versus populum. Com isso voltaria a estar novamente clara também a distinção entre a liturgia da Palavra e a Oração Eucarística. Enquanto a primeira se trata de anúncio e, portanto, de uma relação recíproca imediata, na segunda se trata de adoração comunitária na qual todos nós seguimos estando sob o convite: Conversi ad Dominum - voltemo-nos ao Senhor, convertamo-nos ao Senhor" [9].

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[1] - Concílio de Trento, XXII, V, DS, 1746.
[2] - U.M. Lang, Rivolti ao Signori, Siena 2006, p. 32.
[3] - S. Heid, Gebetshaltung und Ostung in frühchristlicher Zeit, Rivista di Archeologia Cristiana 82, 2006, p. 369
[4] - ibid, p. 370.
[5] - ibid, p. 374.
[6] - Teología de la Liturgia, Ciudad del Vaticano 2010, pp. 78
[7] - ibid, p. 88.
[8] - M. Gagliardi, Introduzione al Mistero eucaristico, Roma 2007, p. 371
[9] - Teología de la Liturgia, Ciudad del Vaticano 2010, pp. 536.


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Para citar: Departamento de Celebrações do Sumo Pontífice. O Crucifixo no centro do altar na Missa "de frente para o povo". Tradução de Gabriel Luan P. Mota. Publicado no blog Regozija-te com a Verdade, aos 24 de abril de 2017.


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