JOSEPH RATZINGER REFUTA VERSUS POPULUM [1]
A ORIENTAÇÃO LITÚRGICA
SUMA CONTRA O VERSUS POPULUM
1. APRESENTAÇÃO
Neste
artigo será demonstrado que as interpretações que vêm sendo feitas, por parte
de algumas pessoas, da declaração do Padre Frederico Lombardi, ex-porta-voz do
Vaticano, não podem ser as mais corretas.
O
então porta-voz disse que não haverá nenhuma norma nova para o advento e que o
termo «reforma da reforma» deve ser evitado para não causar interpretações
erradas. Na mesma linha partidária, o Padre Antonio Spadaro, editor do jornal
La Civiltà Cattolica, levantou alguns argumentos contra a Missa «versus Deum»,
isto é, «de frente para Deus».
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Joseph Ratzinger, hoje Papa emérito Bento XVI |
Quanto
ao termo «reforma da reforma» é suficiente dizer que não oferece nenhuma
possibilidade de má interpretação, pois já foi exaustivamente explicado por inúmeros
liturgistas, até mesmo pelo próprio Joseph Ratzinger em diversas oportunidades,
inclusive já postamos um desses textos aqui no blog.
Cabe,
antes de mais nada, avisar que ao final deste artigo poderá o leitor encontrar
um índice para melhor visualização da ordenação das partes. E o aconselhamos
que assim faça. Boa leitura.
2. INTRODUÇÃO
O
Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos,
Cardeal Robert Sarah, em um discurso para a Conferência Sacra Liturgia UK 2016,
no Oratório de São Filipe Néri (Oratório de Brompton), em Londres, instigou os
sacerdotes para que pudessem celebrar também a Forma Ordinária do Rito Romano
(segundo o Missal de Paulo VI) de frente para Deus, isto é, «Versus Deum», pois,
segundo ele, é "muito importante que retornemos o quanto antes possível
para uma comum orientação, dos sacerdotes e fiéis, voltados na mesma direção -
para o oriente ou pelo menos para a abside"[2].
O
oriente (ou leste) é o símbolo da ressurreição e ascensão do Senhor e,
igualmente, de sua segunda vinda, que ocorrerá da mesma forma que partiu (At 1,
11). Se o batistério, colocado à porta da Igreja, no Oeste, é o símbolo do
princípio do percurso, o altar ao leste é a meta para qual nos dirigimos,
caminhando ao encontro daquele que foi, mas que voltará.
O
Cardeal africano, no entanto, esclareceu que esta implementação deve ocorrer
"com prudência e com a necessária catequese"[3], por isso,
cabe um discernimento pastoral para avaliar como e quando esta prática pode ser
aplicada. Neste ponto, ele sugeriu que um bom tempo para que os sacerdotes
começassem a implantá-la seria no Advento, isto porque é justamente o tempo em
que "esperamos «o Senhor que virá» e «que não tardará» (cf. Introito,
Missa da Quarta-feira da Primeira Semana do Advento)"[4].
Trata-se de um tempo litúrgico que está intimamente ligado à orientação
litúrgica, por isso, a sugestão deste tempo.
Leia também: A reforma da reforma e o futuro do Missal de Pio V
Leia também: A reforma da reforma e o futuro do Missal de Pio V
O purpurado se dedicou a outros temas interessantes (cf. o discurso completo), mas foram estas palavras que criaram alvoroço. Assim, após esse pronunciamento do Prefeito da liturgia surgiram debates em muitos lugares, tudo em torno de uma má compreensão tanto do sentido da orientação litúrgica como da legislação atual.
Nessa
onda, até mesmo o Padre Antonio Spadaro, editor do jornal La Civiltà Cattolica,
entrou na polêmica através de seu Twitter, incentivando a celebração da Missa
de frente para o povo, ou para quem quiser, de costas para Deus. O Padre
Spadaro citou como argumento, entre outras coisas, o parágrafo 146 da Instrução
Geral do Missal Romano para tentar justificar sua opinião “populista”.
O
Vaticano mostrando-se preocupado logo apareceu para pôr panos quentes na
história. Através de um pronunciamento do Padre Frederico Lombardi, então
porta-voz da sala de imprensa (agora o novo porta-voz é Greg Burke, pois Pe.
Lombardi renunciou), foi afirmado que não haverá nenhuma nova normativa para o
próximo advento e que o termo «reforma da reforma» pode gerar algumas
interpretações erradas, por isso seria melhor evitá-lo. Esta declaração do
ex-porta-voz caiu como uma bomba, sendo usada pelo clero mais progressista como
arma contra o Cardeal Sarah e os católicos que apoiam tanto a orientação Versus
Deum como a «reforma da reforma».
Será
que o que disse o Padre Lombardi pode realmente ser usado dessa forma? E a
reforma da reforma é um termo tão controverso assim? É o que veremos.
3. A ORIENTAÇÃO LITÚRGICA: DEUS OU POVO?
Nesta
seção dividiremos a problemática da orientação litúrgica em três partes. A
primeira consiste em um resumido aspecto histórico, no qual será elaborada a
fundamentação histórica e, por consequência indireta, um pouco da razão
teológica; a segunda será uma análise da legislação atual, trazendo os
fundamentos para que tal prática seja, além de válida, tida por lícita; a
terceira, por fim, responderá a algumas objeções, aquelas que mais comumente
são utilizadas e as que foram levantadas sobre o pronunciamento do Cardeal
Sarah pelos partidários da Missa invertida. Desta forma acreditamos delinear e
abarcar toda a questão.
3.1. HISTÓRIA
Em
todo o período da cristandade se há algo que sempre esteve claro certamente é,
segundo Joseph Ratzinger [5], "a orientação da oração ao
oriente", que é uma tradição que remonta às origens do cristianismo. Pois
já no início da era cristão se tinha o sol como símbolo cristão, e, como se sabe,
o sol nasce ao leste (oriente), daí dizer que a própria palavra «orientação» só
possui seu sentido lato quando aplicado na direção ao leste.
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Joseph Ratzinger, à época Cardeal Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé |
E
é possível, nos afirma o Mons. Klaus Gamber, “provar com certeza que jamais
houve celebrações versus populum (de frente para o povo) nem na Igreja do
Oriente nem na do Ocidente”[7]. Confira o quanto da liturgia
católica está intimamente ligada com a luz, com o sol, com o astro que ilumina.
Jean Fournée nos recorda que no natal encontramos um rito enormemente ligado
com a mística da luz e o mesmo podemos dizer da Epifania, na qual lê-se Isaías:
"Levanta-te e resplandece, Jerusalém, porque chegou a tua luz e brilha
sobre ti a glória do Senhor".
Todo
o edifício litúrgico gira em torno deste simbolismo; não esqueçamos, por
exemplo, a páscoa que com sua vigília nos oferece uma verdadeira riqueza
espiritual, onde o Círio com sua luz é o símbolo de Cristo: "O círio que
acendeu as nossas velas possa esta noite toda fulgurar; misture sua luz à das
estrelas, cintile quando o dia despontar" (cf. Proclamação da Páscoa).
Ainda o Deus que é "a força imutável e luz inextinguível" (cf.
Vigília Pascal) é louvado todos os dias na Liturgia das Horas no despontar do
sol, onde cantamos o retorno da luz que da noite dissipa as trevas.
Dom
N. Le Nourry expõe uma das razões de conveniência da orientação na oração,
dizendo que “Cristo, na cruz, olhava para o ocidente, era, pois, normal que os
cristãos ao contemplar a cruz se voltassem para o oriente”[8]. Para
demonstrar ainda como mais solidez a disposição da Igreja ao oriente, é possível
citar, entre muitos outros Padres da Igreja, Clemente de Alexandria (+215) e
Orígenes (+255):
O oriente é a imagem do
dia que nasce. É deste lado também que cresce a luz, a qual em primeiro lugar
faz desaparecer as trevas onde se detém a ignorância e de onde se separou o dia
do conhecimento da verdade da mesma maneira como se eleva o sol. Por isto, é
normal que se dirijam as orações rumo ao nascimento da manhã. [9]
E agora, a respeito da
parte do mundo para a qual se deve dirigir para rezar, serei breve. Sendo
quatro essas partes: o norte, o sul, o poente e o nascente, quem pois negará
que se deve indicar bem claramente o nascente, e que devemos rezar voltando-nos
simbolicamente para esse lado, olhando com a alma de certo modo a saída da
verdadeira luz? [10]
Se
podemos notar a beleza extraordinária encontrada no simbolismo solar, do
oriente, o que dizer da cruz? Não é o sol apenas um símbolo, à título
comparativo, enquanto que a Cruz figura realmente o Cristo? Não é a Cruz mais
brilhante que todos os astros ("O
Crux, splendidior cunctis astris”) [11]? Por que então não ver a
Cruz como superior ao sol? A Cruz para nós não representa uma vergonha, mas
"o testemunho deslumbrante da glória de Cristo com a qual se iluminará o
último amanhecer do cosmo"[12], e nos diz Santo Efrem que a
cruz que aparecerá no céu é "como o cetro de Cristo, o grande Rei...
superando o brilho do sol e precedendo a vinda do Senhor de todas as coisas"[13]
e exclama São João Crisóstomo: "Sinal triunfal, mas resplandecente que o
astro dos dias!"[14]
Neste
ponto, afirma[15] Joseph Ratzinger que "a orientação ao leste
tinha uma estreita relação com o "sinal do Filho do Homem", com a
Cruz que anuncia a segunda vinda do Senhor" e, desta forma, "o
oriente se uniu rapidamente ao símbolo da cruz". À esta afirmação ajunta
Jean Fournée, dizendo[16] que "nas origens do cristianismo se
associa a oração voltada ao Oriente com o culto da Cruz", sendo "o
culto da cruz, antes de tudo, uma homenagem rendida à glória divina".
Se
a Cruz é o símbolo da glória divina, também o é da esperança. Os primeiros
cristãos traçavam uma Cruz na parede oriental de suas casas para rezar diante
dela, afirma Fournée, expressando a fé na ressurreição e a esperança do retorno
glorioso. Este duplo aspecto da cruz confere o significado do presente e do
futuro.
Algumas
pessoas não sabem, mas a cruz sobre o altar virada para o sacerdote provém de
uma ideia (muito inteligente, por sinal) de Joseph Ratzinger. Ele diz[17]
que "onde não seja possível a orientação de uns e outros ao leste, a cruz
pode servir como oriente interior da fé" e, assim, novamente "a cruz
seria o ponto de referência comum do sacerdote e a comunidade que reza". Portanto, essa dica dada é um "tapa-buraco"
na orientação litúrgica e mesmo essa ideia tem um problema, apontado por
Fournée[18].
Como
esquecer toda essa riqueza, deixada como patrimônio cristão? E se seria
estranho cantar as Laudes durante do tardar do dia, por que não percebemos a
mesma incoerência na orientação litúrgica? Será que ficamos tão insensíveis aos
símbolos? Esquecemos que o nosso Deus é a luz do mundo e, no nosso espírito
desprezível, perdemos todo o sentido externo? Joseph Ratzinger constata esta
insensibilidade do homem moderno.
Infelizmente
para os partidários da Missa invertida, será doloroso demonstrar que a primeira
pessoa que teve a ideia de uma celebração «versus populum» foi um herege.
Martinho Lutero, prova Gamber[19], na sua obra "A Missa alemã e
a ordem do culto divino" ("Deutsche
Messe und Ordnung des Gottesdienstes") de 1526, diz assim, no capítulo
"O domingo para os leigos": "Conservaremos os paramentos
sacerdotais, o altar e as velas até que se acabem ou até que achemos
conveniente mudá-los. Todavia, deixaremos que outros que queiram fazer
diferente o façam. Porém, na verdadeira missa, entre verdadeiros cristãos, será
necessário que o altar não fique como está e que o sacerdote se volte sempre
para o povo (...)".
Em
seu livro, “O ordo divino de Cranmer”, Michael Davies merece crédito por haver
demonstrado, especificamente no capítulo 11, que o Livro de Oração de 1549 dos
reformadores protestantes desejava a destruição dos altares e a ereção de
outros separados da abside. Evidencia é que por toda a Inglaterra foram destruídos
altares com a revolução protestante. Constatamos que o mesmo se sucedeu nos
tempos modernos. Quer queiramos ou não, esta é a origem do versus populum.
Para
citar o Brasil é necessário dizer o que se segue. O movimento litúrgico da
década de 20 tinha por meta ótimos objetivos, mas começaram a aparecer
diferentes teses, caminhos, conforme o parecer individual de cada liturgista.
Nisto residia o perigo, o que culminou em várias correções por parte dos papas,
em especial por Pio XII. Aqui no Brasil o movimento estava bem representado, de
forma fiel e ortodoxa, por liturgistas como Padre João Batista Reus, S.J., mas
também chegaram nestas terras homens com seus desvios, e, em 15 de julho de
1933, o bispo Dom Martinho Michler celebrou para seis rapazes, numa fazendo do
interior do Estado do Rio de Janeiro, a primeira missa versus populum e
dialogada[20].
Leia também: Revelação de Bento XVI sobre o Movimento Litúrgico
Leia também: Revelação de Bento XVI sobre o Movimento Litúrgico
Para
finalizar este ponto penso ser interessante destacar o fato descrito por Fournée:
Havia antigamente em
Paris uma igreja que se chamava de São Bento o “Bétourné”. A origem deste estranho epíteto é o seguinte. O edifício
medieval que havia precedido a construção do séc. XVI estava ‘ocidentado’. Esta
anomalia chocou tanto o povo que este batizou a igreja de: São Bento le Mal Tourné (mal virada) ou “Mautourné”. Porém ao ser reconstruída e
seu altar mor recolocado no oriente, passou a ser de São Bento le Bétourné (bem virada). [21]
3.2. LEGISLAÇÃO
Comecemos
esclarecendo um fato importantíssimo para nossa questão: a orientação versus
populum jamais foi proposta pelos documentos do Concílio Vaticano II.
Desnecessário provar, basta consultar os textos, mas mesmo assim fazemos
questão de constar que Gamber diz o mesmo: "em vão se buscará na
Constituição sobre a Sagrada Liturgia, promulgada pelo Concílio Vaticano II, uma
prescrição que exija celebrar a Santa Missa de frente para o povo"[22].
E não foi proposta pelo simples fato de que jamais se passou pela cabeça dos
padres conciliares um tamanho absurdo!
Mons.
George Eder já em 1989 esclarecia o equívoco em pensar que a orientação versus
Deum tenha sido proibida pelo Concílio Vaticano II.
O Concílio não pediu em
nenhum texto que haja em cada igreja um altar de frente para o povo. Nem no
novo código de Direito Canônico há algo a este respeito. O Concílio deixou
liberdade neste terreno. Porém una nova moda apareceu, e depois se aponta com o
dedo para os que não têm o altar de frente para o povo! Fazem o mesmo por causa
do latim. Desde o princípio, eu lutei pelo bilinguismo na Igreja; é a boa
solução. Se se canta em inglês, todos contentes, porém se se dizem três
palavras em latim... é anticonciliar! Por isto quero me servir no futuro desta
liberdade que o Concílio deixou para a língua e para o altar. [23]
É
o mesmo parecer do Mons. Michael Schmitz que diz que a celebração da Missa na
qual "o sacerdote fica de frente para a assembleia nunca foi mencionado no
Concílio Vaticano II e é atualmente uma introdução posterior"[24].
Também Ratzinger o constata ao dizer que “o texto conciliar não fala da
orientação do altar para o povo”[25]. Michael Davies, depois de seu
estudo, conclui o mesmo ao dizer que "não existe nenhuma ordem, rubrica,
regulamentação ou lei dentro do Rito Romano que estipule que a Missa deva ser
celebrada de frente para o povo”[26]. Portanto, fica elucidado que o
Concílio jamais admitiu a celebração de frente para o povo.
O
Padre Frederico Lombardi fez uma confusão entre orientação e forma do rito,
como se a forma ordinária estivesse intrinsecamente relacionada com o versus
populum. Nada mais falso, como já foi provado acima. E Mons. Schmitz ratifica isso
ao dizer que "a posição do sacerdote voltado para o oriente junto com a
assembleia não é exclusiva do Rito Romano Clássico [forma extraordinária]"[27].
A
forma ordinária (Missal de Paulo VI) não apenas não proíbe o versus Deum como
regulamenta. Em diversos locais a rubrica supõe que o sacerdote esteja virado
para o altar e não para o povo. Diz o Mons. Schmitz que “algumas das rubricas
do Rito mais novo parecem ainda pressupor que o celebrante esteja na mesma
direção que o povo, esteja num altar solto ou num altar-mor que tenha um retábulo"[28].
Com mais certeza, conclui Davies: “certamente, as rubricas do Novus Ordo
Missae, especificamente, definem a prática tradicional e instrui o sacerdote a
fim de que se vire para a assembleia em várias ocasiões e logo vira-se ao
altar, por exemplo nos artigos de número 107, 116, 122, 198 e 199 da Instrução
Geral do Missal Romano (Institutio Generalis)"[29].
Leia também: O que não te contaram sobre as Orações Eucarísticas
Os parágrafos citados por Davies possuem numeração diferente, porque ele usa a versão típica ou de 1969 ou 1970, segundo o que pude conferir. Mas os parágrafos em que ele cita se referem aos momentos em que o sacerdote fala com o povo, em diálogo, em por consequência ele deve estar voltado para a assembleia (“versus ad populum”, “stans versus populum”). Atualizando para o Missal de 2002, podemos dizer que o sacerdote volta-se ao povo quando ele, após fazer o sinal da cruz, faz dirige uma breve palavra para o povo (n. 124); após o lavabo, quando convida o povo a rezar, dizendo "Orate, fratres" (n. 146); ao distribuir a paz ao povo, dizendo "Pax Domini sit semper vobiscum" (n. 154); ao fim da Oração Eucarística, ao mostrar a Hóstia consagrada ao povo, dizendo "Ecce Agnus Dei" (n. 157); novamente quando convida o povo a rezar, após a comunhão, dizendo "Oremus" (n. 165); quando abençoa o povo, ao fim da Missa (n. 167 e 185).
O
Ritus servandus in celebratione Missae, que é a Instrução Geral do Missal
tridentino, também prescreve que o sacerdote esteja voltado para o povo em
iguais momentos, conforme podemos notar: "versus populum (...) dicit voce
prædicta: Dóminus vobíscum, vel si sit Episcopus: Pax vobis" (cap. V, 1),
"ad populum, et extendens ac jungens manus dicit: Dóminus vobíscum"
(cap. VII, 1), "ad populum, et versus eum extendens et jungens manus,
dicit voce aliquantulum elata: Orate, fratres" (cap. VII, 7), "stans
junctis manibus ante pectus versus populum, dicit, si dicendum est: Ite, Missa
est" (cap. XI, 1).
A
distinção entre o Missal de João XXIII e o de Paulo VI é apenas acidental, pois
como a forma extraordinária (tridentina) obriga que a Missa seja versus Deum[30],
o tridentino prescreve o virar-se (“vertit se ad populum”), enquanto que o
Missal de Paulo VI não tem essa partícula, porque o sacerdote já pode estar
voltado para o povo, uma vez que este missal permite a missa versus populum.
O
exposto já é suficiente para comprovar que a Missa, segundo o missal de Paulo
VI, pode perfeitamente ser celebrada versus Deum; o que para os emitentes
teólogos citados é o ideal. Entretanto, para fundamentar ainda mais podemos
citar dois argumentos tão fortes quanto os já enunciados: a prática dos papas e
a resposta da Congregação para o Culto Divino.
No
ano 2000 a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos foi
perguntada se na celebração da Missa, de acordo com o Missal de Paulo VI, fica
excluída a possibilidade na celebração da "liturgia eucarística, a posição
do sacerdote «versus abside»", isto é, voltado «versus Deum»". Assim
foi a resposta: "A Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos
Sacramentos, «re mature perpensa et habita ratione» (após madura reflexão e
tendo em conta) a história litúrgica, responde: «Negative et ad memtem»
(Negativo e segundo a opinião) pela qual deve se levar em conta diversos
elementos"[31].
Leia também: Qual a necessidade de uma reforma da reforma?
Some-se a isso o fato de que os papas Bento XVI e Francisco celebraram, igualmente, a Missa de Paulo VI com a orientação versus Deum. Em duas ocasiões, o Papa Francisco celebrou, conforme podemos ver no youtube as celebrações[32], enquanto que o Papa Bento XVI o fez incontáveis vezes, já que a sua missa diária em sua capela particular era de tal forma, conforme provamos através de imagens[33] e vídeos[34].
Portanto,
comprovamos que o Concílio jamais promoveu ou propôs o versus populum e que a
legislação atual permite a celebração versus Deum, conforme parecer apontado
por diversos estudiosos, pela resposta da Congregação para o Culto Divino e a
Disciplina dos Sacramentos, bem como através da prática litúrgica dos papas.
3.3. OBJEÇÕES
Nesta
seção serão respondidas[35] as principais objeções que comumente são
levantadas contra a orientação versus Deum e também aquelas elencadas nos
últimos dias diante do pronunciamento do Prefeito da Congregação para o Culto
Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Cardeal Robert Sarah.
A. O Cardeal Sarah não tem autoridade para legislar sozinho
Esta objeção se discute
assim: Parece que o Cardeal Sarah, sem aprovação papal, não
tem autoridade para estabelecer uma norma. Logo, a celebração versus Deum não
se sustenta.
Ao que respondemos:
É verdade, o Cardeal Sarah, sem aprovação papal, não tem autoridade para
estabelecer uma norma. Porém, a conclusão dessa premissa é falsa. Isto porque
ela não segue nem da premissa nem da realidade dos fatos. Se é verdade que o
Cardeal sozinho não tem tal autoridade, verdade é também que ele não desejou
nem estabeleceu nenhuma norma nova. O purpurado não criou norma nenhuma, apenas
recordou que a legislação atual, já aprovada, permite tal orientação.
Portanto,
a celebração versus Deum se sustenta, mas não pelo pronunciamento do purpurado,
mas pelas próprias normas já aprovadas, isto é, vigentes.
B. O Padre Lombardi: “não haverá nova norma”
Esta objeção se discute
assim: O Padre Frederico Lombardi afirmou que não haverá
nova norma para o Advento. Logo, desmentiu o Cardeal Sarah e, assim, não é
permitida a celebração versus Deum.
Ao que respondemos:
Esta objeção é bastante semelhante à anterior, tanto na matéria como nos erros
que nela são encontrados. O Cardeal Sarah jamais afirmou que o Advento haveria
de ter uma nova norma, apenas aconselho este tempo como o início para o uso da
orientação, tendo em vista que é um tempo propício, porque o versus Deum está
intimamente ligado à esperança do retorno de Cristo. Portanto, o antigo
porta-voz da sala de imprensa não desmentiu nada nem ninguém.
A
segunda conclusão do nosso oponente (“não
é permitida a celebração versus Deum”) é, mais uma vez, uma falácia, pois
não segue da premissa, por isso não convém repetir o que já dissemos no item A.
C. O Cardeal Sarah não obrigou, mas incentivou
Esta objeção se discute
assim: O Cardeal Sarah, em seu discurso, não obrigou a
celebração orientada, apenas incentivou. Logo, não devemos celebrar versus
Deum.
Ao que respondemos:
A premissa está correta, pois o purpurado nem mesmo poderia obrigar, tendo em
vista o que já dissemos no item A. Entretanto, mais uma vez, a conclusão não
segue da premissa, pelo contrário, ela, a conclusão, é contrária à premissa,
pois se o purpurado incentivou, como bem disse nosso oponente, como podemos
disso concluir que não devemos celebrar versus Deum?
Portanto,
esclarecemos novamente que a legislação permite a celebração orientada e que o
cardeal, seguindo a mesma linha dos estudiosos já apresentados, prefere a
celebração de frente para Deus àquela de frente para o povo, por inúmeros
motivos que não cabem neste trabalho resumido. Em outra oportunidade poderemos
destacar as razões, além das que já ficaram implícitas aqui, pelas quais a
celebração de frente para Deus é a melhor.
D. O parágrafo 299 da Instrução Geral proíbe o Versus Deum
Esta objeção se discute
assim: Parece que o parágrafo n. 299 obriga que o altar
esteja separado da parede e que a celebração seja versus populum. Logo, não é
permitido celebrar versus Deum.
Ao que respondemos:
Essa objeção levantada está equivocada por sua interpretação do parágrafo
citado, pois, conforme veremos, a correta interpreta da Igreja é que tal trecho
resulta em uma sugestão apenas.
Assim
diz o número 299 da Institutio Generalis: “Altare exstruatur a pariete
seiunctum, ut facile circumiri et in eo celebratio versus populum peragi
possit, quod expedit ubicumque possibile sit.” (O altar seja construído
afastado da parede, para que possa facilmente ser circundado e nele se possa
celebrar de frente para o povo, o que convém realizar em todo lugar que for
possível).
Uma
análise dos termos usados nos conclui que, de fato, trata-se de uma sugestão.
Toda a questão gira em torno da última oração que diz «quod expedit ubicumque
possibile sit», pois parece ser obrigatório que o altar esteja separado da
parede e a celebração seja de frente para o povo. No entanto, Congregação para
o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, na resposta de 25 de setembro de
2000, que já citamos, explica que o termo «expedit» (convém) expressa uma
sugestão, isto é, permanece uma opção, não uma obrigação.
Antes de tudo, deve-se
recordar que o termo «expedit» não constitui uma forma obrigatória, mas uma
sugestão, que diz respeito tanto à construção do altar a «pariete seiunctum»
[separado da parede], quanto à celebração versus populum [de frente para o
povo].
(Congregação para o
Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, 25 de setembro de 2000)
Fazendo
menção a esta resposta da Congregação para o Culto divino, Ratzinger também
explica que a interpretação proibitiva não é a correta.
"Esta
interpretação [de que o número 299 proíbe o versus Deum], no entanto, foi
rechaçada pela competente Congregação para o Culto Divino, em 25 de setembro de
2000, quando explicou que a palavra "expedit" não expressa uma
obrigação, mas um conselho"[36].
Portanto,
a interpretação correta nos indica que tanto a posição do altar separado da
parede como a celebração de frente para o povo são apenas uma sugestão.
Além disso, é necessário dizer que o
altar separado da parede em nada contraria a celebração versus Deum, ad abside,
por que não é a posição do altar em relação ao templo que importa, mas a
posição do sacerdote, em conjunto com o povo, em relação ao altar. Em outras
palavras, não importa que o altar esteja separado da parede ou não, pois de
qualquer modo o sacerdote e o povo podem se colocar diante dele, na mesma
direção.
O Missal da forma extraordinária,
tridentino, inclusive regulamenta a forma como deve ser incensado o altar
quando ele estiver separado da parede, como diz Gamber:
Que o altar deva estar
separado da parede “a fim de ser facilmente circundado” é outra questão. Esta
exigência da Congregação dos Ritos está totalmente de acordo com a tradição (o
pontifical romano tradicional, no capítulo “Sobre a dedicação das Igrejas”,
exige expressamente que o altar não esteja fixo à parede, para que se possa dar
a volta por todos os lados a fim de cumprir convenientemente os ritos da consagração.
O “Missal de São Pio V” – edição de 1962, por outro lado indica a maneira como
a incensação deve ser feita com este tipo de altares. Ao contrário do que se
pode normalmente crer, o altar assim disposto está perfeitamente de acordo com
a tradição, ainda que a partir da baixa idade média se tenha preferido
normalmente fixá-lo à parede). [38]
E. Deus é espírito, está em todo lugar
Esta objeção se discute
assim: Deus é espírito, está em todo lugar, logo não é
necessário fixar os olhos no crucifixo para a Ele rezar.
Ao que respondemos:
É verdade que Deus é espírito e, por consequência, é onipresente, isto é, está em
todo lugar. No entanto, esta doutrina de fé somente existe como consequência do
Deus que nos revelou. Se podemos rezar em qualquer lugar, pelo fato de Deus
está lá, no ouvindo, também é verdade que este mesmo Deus se encarnou, tomou a
matéria, a carne. Deus "tomou um corpo, entrando no espaço e no tempo da
terra, assim é apropriado que na oração - pelo menos na liturgia comunitária -
nosso falar com Deus seja «encarnado», que seja cristológico, que, através da
mediação do Verbo Encarnado, se dirija ao Deus trinitário"[39],
assim responde Joseph Ratzinger.
Portanto,
o dogma de fé apenas nos possibilita rezar em qualquer lugar, mas devemos viver
a fé revelada em sua totalidade, não apenas num único aspecto, e, esta
revelação, nos ensina a encarnação que deve transparecer na liturgia. Sendo
assim, uma liturgia encarnada, baseada em toda a revelação, pressupõe que
todos, sacerdote e fieis, estejam voltados para um símbolo visível, o oriente
real ou simbólico.
F. A Basílica de São Pedro tem altar no centro da Igreja
Esta objeção se discute
assim: Parece que nem sempre e em todo lugar foi observada
a celebração versus Deum, pois a Basílica de São Pedro possui um altar no
centro da nave da Igreja.
Ao que respondemos:
O altar foi construído já em tempo tardio, segundo o parecer de Joseph
Ratzinger, "provavelmente porque assim ficaria em cima da tumba de São
Pedro"[40], fazendo com que o Sacrifício do Senhor expressasse
concretamente a comunhão dos santos, conclui o teólogo.
Isso
poderia levar alguns a achar que o versus populum era adotado. Entretanto, não
é bem assim a realidade dos fatos. A Basílica está "orientada para o
ocidente", por isso o parecer mais provável e seguro é de que o
"sacerdote ficava atrás do povo, e, consequentemente, o povo lhe dava as
costas"[41], não se tratava de uma celebração cara à cara, mas
também orientada, onde todos estavam voltados para a mesma direção, o oriente
real (leste).
Acrescenta-se
o que diz Fournée sobre este assunto:
[...] em algumas das
primeiras basílicas romanas, cuja abside estava para o oeste e a entrada ao
leste, e onde, consequentemente, os fiéis olhavam para o ocidente, o sacerdote
assim celebrava voltado para o oriente. Tal disposição acarretava forçosamente
a Missa versus populum, porém esta não passava de uma consequência e não
de uma disposição ritual querida sistematicamente. É, pois, uma afirmação
errônea pretender que na Igreja primitiva a Missa se celebrava voltada para o
povo. É mais exato dizer que a celebração estava orientada, qualquer que fosse
a posição dos fiéis no edifício. Porém quando estes, ao estar situados diante
do altar, se encontravam voltados para o oeste, era-lhes prescrito em certos
momentos da celebração, especialmente na oratio fidelium, o voltar-se
para o leste, e consequentemente, dar as costas ao celebrante e ao altar.
Acontecia o mesmo ao convite do Sursum corda. Estas prescrições são
anteriores ao primeiro Ordo Romanus, ou seja, pelo fim do séc. VII. O Ordo
Romanus I prescreve a orientação durante o Glória, a Coleta e a Oratio
fidelium, e reitera a obrigação para o celebrante de estar sempre olhando
para o leste durante toda a ação eucarística, desde o prefácio até a doxologia
final. [42]
O
Pe. Josef Jungmann, um dos mais importantes historiadores do rito romano, diz
que “a afirmação, normalmente tão repetida, de que o altar da igreja primitiva
supunha sempre que o sacerdote estava voltado para o povo, se comprova que é
uma lenda”[43]. Portanto, a objeção não refuta o fato de que,
historicamente, jamais a Igreja celebrou missa versus populum, isto é, como
sacerdote e fieis olhando-se mutuamente.
G. A Ceia do Senhor foi celebrada versus populum
Esta objeção se discute
assim: Parece que a Ceia do Senhor, nas vésperas de sua
Paixão, foi celebrada com os discípulos à sua frente, logo esta é a forma
original da Missa.
Ao que respondemos:
O argumento é impreciso e carece de fontes históricas. Joseph Ratzinger, para
refutar tal objeção, cita[44] Louis Bouyer, eminentíssimo estudioso,
que diz que este argumento "se baseia simplesmente em uma concepção
equivocada", pois no início da era cristã "aquele que presidia uma
comida jamais sentava na frente dos demais", "todos estavam sentados,
ou encostados, no lado convexo de uma mesa em forma de sigma ou de fechadura",
portanto "todos os participantes se encontravam no mesmo lado da
mesa".
Acrescenta-se os resultados dos
estudos de Gamber e também de Louis Boyer que chegam às mesmas conclusões:
No tempo de Jesus, e em
alguns séculos mais tarde, usava-se uma mesa redonda ou uma mesa em forma de
sigma (em semicírculo). A parte dianteira ficava livre para permitir servir os
diferentes pratos. Os convidados estavam sentados ou deitados por trás da mesa
semicircular. Para isso usavam uma espécie de sofá ou um banco, em forma de
sigma. [45]
Em todos os banquetes
da antiguidade, tanto judeus, como pagãos, nunca se davam a cara... pela
simples razão de que todos os participantes estavam situados no lado convexo de
uma mesa em forma de sigma, reservando-se o lado côncavo para o vai e vem dos
que serviam. De tudo isso resulta que a denominada Missa “de frente para o
povo” não é mais que um total contrassenso ou mais ainda uma pura falta de
sentido. [46]
Portanto, é historicamente infundada
a objeção levantada.
H. A Missa é apenas um banquete
Esta objeção se discute
assim: Parece que a Missa é apenas um banquete, assim não
faz sentido estar olhando para uma direção, menos ainda para a cruz.
Ao que respondemos:
Se nosso opositor chegou a tal afirmação, podemos dizer, sem duvidar, que está
deixando à largos passos a Fé católica. Joseph Ratzinger diz[47] que
neste ponto "os termos comida ou convite não podem descrever adequadamente
a Eucaristia" e que, se não há dúvida que nosso Senhor tenha introduzido a
ideia do banquete judaico no culto cristão, também não há dúvida que "a
Eucaristia remete à cruz".
A
Constituição De Sacra Liturgia, no número 47, explica assim a Missa:
O nosso Salvador, na
última Ceia, na noite em que foi traído, instituiu o Sacrifício Eucarístico do
seu Corpo e do seu Sangue, para perpetuar o Sacrifício da Cruz pelos séculos
afora, até à sua vinda, deixando deste modo à Igreja, sua dileta Esposa, o
memorial da sua morte e ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade,
vínculo de caridade, banquete pascal, em que se recebe Cristo, se enche a alma
de graça e é dado o penhor da glória futura.
E,
fazendo menção a estas palavras, o Papa Paulo VI, na Encíclica Mysterium Fidei,
diz que elas "exaltam-se ao mesmo tempo não só o Sacrifício, que pertence à essência da Missa, que todos os dias é celebrada, mas
também o sacramento, no qual os fiéis comem, pela sagrada comunhão" (grifo
nosso). E o Concílio Vaticano II, na Constituição Sacrosanctum Concilium,
recolhe a mesma citação no parágrafo 12. Mas friso o que nos interessa: o
aspecto sacrifical faz parte da essência da Missa.
Portanto,
podemos afirmar que a objeção é, igualmente, falsa e herética.
I. Jesus está nas pessoas
Esta objeção se discute
assim: Parece o homem 1) é imagem e semelhança de Deus, que
Jesus 2) está presente em todas as pessoas e que está presente de 3) forma
especial no sacerdote. Logo não há necessidade de estarem voltados para o
oriente e, mais, seria até mesmo conveniente o olhar mútuo.
Ao que respondemos:
Podemos dizer que o ser humano, enquanto criatura especial, 1) é imagem e
semelhança de Deus, mas que nem sempre 2) tem Deus no seu coração e que a 3)
presença de Cristo no sacerdote é singular. No entanto, estas presenças são
diversas, com graus diferentes, e não podem ser usadas como fundamento para uma
orientação cara a cara, principalmente pelo fato de serem, sobretudo e ao fim,
invisíveis, isto é, não podem ser vistas senão aos olhos da fé.
RESPOSTA
À PRIMEIRA OBJEÇÃO. O ser humano é imagem e semelhança de
Deus, conforme professa a doutrina católica, no entanto essa imagem e
semelhança não é física, nem visível corporalmente. Joseph Ratzinger
desacreditou[48] que este argumento pudesse ser levantado com
seriedade, "já que não é tão fácil ver a imagem de Deus no homem",
pois a imagem de Deus não é visível aos olhos, mas "somente com a nova
visão da fé".
Esta
imagem e semelhança diz respeito ao fato de Deus ter imprimido, juntamente com
o sopro da vida, a razão. É a razão que nos faz semelhantes à Deus, e, por
isso, diz Santo Agostinho que "o que faz a excelência do homem é que Deus
o fez à sua imagem, pelo fato de lhe ter dado um espírito inteligente que o
torna superior aos animais."
Esta
imagem e semelhança não é perfeita, mas imperfeita, sendo usada como advérbio
de modo, conforme verifica-se através da preposição "a" da frase,
exprimida pela contração com o artigo “a”, resultando em crase. Por dizer que o
homem é imagem, ele é semelhança, enquanto que à imagem, demonstra a
imperfeição da semelhança, pois a semelhança perfeita somente pode ser
encontrada em Jesus, por possuir identidade de natureza com o Pai e o Espírito
Santo, conforme o parecer de Santo Tomás.
RESPOSTA
À SEGUNDA OBJEÇÃO. Devemos dizer que Deus está no coração
não do homem, mas do justo, e que esta presença especial não altera sua
natureza, apenas a eleva. Santo Tomás diz assim: "Assim, pois, a não ser a
graça santificante, nenhum outro efeito pode ser a razão de um novo modo de
presença da Pessoa divina na criatura racional." (Suma, I, q.43, a.3).
Portanto, é falso afirmar que esta presença é encontrada em toda pessoa; verdadeiro
é, porém, dizer que toda pessoa é capaz de possuir esta presença, de forma
gratuita.
A
graça santificante do Espírito é o Amor, que eleva a natureza humana a um nível
mais sublime, mas como a graça não destrói a natureza, segundo o Doutor
Angélico, e, por isso, segue-se que a natureza humana permanece a mesma,
substancialmente humana. De tal forma, igualmente falso é afirmar que podemos,
através dos sentidos externos, ver Deus no homem, ainda que supondo a existência
da graça.
RESPOSTA
À TERCEIRA OBJEÇÃO. É necessário dizer, para ser mais
preciso, não que Cristo "está" no sacerdote, mas, ao contrário, que o
sacerdote age na pessoa de Cristo. Atuar na pessoa de Cristo não é, em sentido
estrito, ser Cristo (embora haja um sentido verdadeiro para tal)
substancialmente, uma vez que Pessoa não se multiplica por ser indivisível.
a)
Este modo de atuar, in persona Christi, é sacramental, não alterando em nada a
natureza do homem ordenado. Por isso, embora o sacerdote aja sacramentalmente
na pessoa de Cristo, não pode ser adorado, mesmo celebrando a Missa.
b)
Quando o sacerdote, através do caráter a ele conferido pelo sacramento da
ordem, atua in persona Christi o faz por um poder a ele concedido. Este poder,
ordem, é estrito, no sentido que não se estende para além do conferido, que é a
realização do sacramento. Por essa razão, mesmo celebrando uma Missa (agindo in
persona Christi) o sacerdote não poderia, por exemplo, ressuscitar um morto
através deste caráter sacramental. Se o pode fazer provém, porém, de uma graça
distinta, pois pela Ordem é conferido o poder apenas de realizar o sacramento,
segundo parecer de Santo Tomás (Suma, III, q.82, a.1).
Conclui-se,
portanto, que é de todo falso alegar que o ministro do sacramento da Eucaristia
possa ser o centro das atenções, por agir na pessoa de Cristo.
J. «Não é conveniente rezar voltado para a parede » ou «7 razões para celebrar versus Deum»
Esta objeção se discute
assim: A orientação versus abside não traz nenhum benefício
à qualidade da celebração. Logo, ou as duas direções, versus populum e versus
abside, tem o mesmo peso ou ainda a primeira é superior à segunda.
Ao que respondemos:
Nosso adversário em sua apologia à Missa “ao revés”, por fim, esquecendo tudo o
que já foi dito afirma, sem fundamentação alguma, que a direção versus populum
ou é igual à orientação versus abside ou é melhor. Para refutar, mais uma vez,
essa mirabolante direção seria interessante expor todos os bons motivos pelos
quais a orientação versus abside é melhor. Porém, como nosso espaço é curto,
apenas citaremos algumas, dentre muitas outras, restringindo-nos a dizer alguma
palavra somente nos itens que ainda não havíamos citado.
Enumeramos
sete razões para o uso da forma «versus abside», «versus Deum» ou «Ad orientem»,
como queiram nomear, de acordo com as particularidades de cada termo.
1.
Está em total continuidade e harmonia com a tradição católica
Já
provamos exaustivamente que a orientação Versus Deum remonta às origens do
cristianismo, conforme demonstrado pelos escritos dos primeiros cristãos.
Nenhuma palavra a mais é necessária!
2.
Não provém do protestantismo, como é o versus populum
A
orientação Versus Deum provém de tradição legitimamente católica, enquanto que
o Versus populum remonta às reformas protestantes, conforme já ficou provado.
Ninguém pode tirar o puro do impuro (Jó 14, 4)!
3.
Transparece melhor o caráter sacrifical da Missa e não apenas a ideia de
banquete
Por
que os protestantes rechaçam a ideia de uma celebração orientada? Por causa da
doutrina que eles negam: o caráter sacrifical do sacramento. Não é necessário é
expor novamente que a Fé católica ensina que o caráter sacrifical faz parte da
essência da Missa, o Sacrifício da nova e eterna Aliança, conforme vimos no
item H. Convém apenas destacar que a orientação versus populum inverte a Missa,
fazendo com que a ideia secundária, isto é, a ideia de banquete, passe a ser a
principal.
O
grande promotor do movimento litúrgico, Dom Prósper Guéranger, O.S.B., abade de
Solesmes, alertou em seu famoso livro Institutions Liturgiques[49],
de 1840, que uma das heresias anti-litúrgicas dos sectários era o de substituir
o sacrifício pelo banquete: "Nada também de altar, mas simplesmente uma
mesa; nada de sacrifício, como em toda religião, mas simplesmente uma
ceia."
A
utilização do altar sempre fez referência à sacrifícios, desde das religiões
pagãs, passando pelo judaísmo, e chegando no cristianismo como o Sacrifício da
Nova Aliança. E Gamber explica que a posição do sacerdote nesses sacrifícios
também tem sua correlação.
O sacerdote se coloca
diante do altar do sacrifício, não atrás. O mesmo fazia o sacerdote entre os
pagãos. No santuário, seu olhar se dirigia para a representação da divindade a
quem se oferecia o sacrifício. O mesmo se fazia no Templo de Jerusalém, onde o
sacerdote encarregado de oferecer a vítima se colocava diante da “mesa do
Senhor” (cf. Ml 1,12), como se chamava o grande altar dos holocaustos situado
no centro do Templo, de frente para o templo interior, que guardava a arca da
aliança no Santos dos Santos, lugar onde habita o Altíssimo (cf. Sl 16,15). O
oficiante está separado da multidão e se põe diante desta, diante do altar e
voltado para a divindade. Sempre as pessoas que oferecem um sacrifício estão
voltadas para aquele a quem se destina o sacrifício e, nunca, para os que
participam na cerimônia. [50]
E
essa busca por transformar a celebração da Missa em simples banquete é
demonstrado também pelo arranjo do próprio altar, que em muitos lugares nem
mais se colocam castiçais e o crucifixo, apenas flores; "deseja-se apenas
uma mesa para a comida e não um altar"[51], completa Gamber. A
esta ideia também ajunta o Padre Manfred Hauke, no Congresso sobre o Motu
Proprio Summorum Pontificum, acontecido em Roma no ano de 2015, que constatou
que a orientação favorece enormemente o caráter sacrifical da Missa.
A
preeminência do sacrifício pela descrição da Santa Missa tem também suas consequências
para a orientação da oração. Ao sacrifício corresponde o voltar-se para Deus
por parte do celebrante e de toda a assembleia litúrgica. Quando o sacerdote
fala com Deus, não faz sentido pedir que ele se volte em direção à assembleia.
É melhor, se o celebrante se volta junto com toda a assembleia para a cruz e
para o altar, possivelmente na direção do oriente. O oriente, o sol nascente,
está no lugar de Cristo ressuscitado cujo retorno esperamos no fim dos tempos.
Um voltar-se ao povo, pelo contrário, é conveniente para a proclamação da
Palavra de Deus e pela comunicação da graça nas saudações, na bênção e na
distribuição da Comunhão. Esta orientação é possível também no rito de Paulo
VI, mas as disposições do rito antigo parecem mais propícias a este fim, colocando
no centro a cruz, o altar e o próprio Senhor no Tabernáculo. [52]
4.
A posição física está de acordo com a disposição espiritual e interior
A
Congregação para o Culto Divino esclareceu, na resposta já mencionada do ano
2000, que na celebração da Missa devemos distinguir duas orientações: a física
e a espiritual. A orientação física, ou topográfica, é a posição do sacerdote em
relação ao altar e à assembleia, havendo duas espécies: ad abside e versus
populum, enquanto que a orientação espiritual (interior), encontrada em uma
única espécie, diz respeito à orientação em relação à Deus.
Textualmente,
a Congregação diz assim:
No entanto, qualquer
que seja a posição do sacerdote celebrante, é claro que o Sacrifício Eucarístico é oferecido a Deus Uno e Trino,
e que o sacerdote principal, Sumo e eterno, é Jesus Cristo, que atua através do
ministério do sacerdote que preside visivelmente como Seu instrumento. A
assembleia litúrgica participa na celebração em virtude do sacerdócio comum dos
fiéis, o qual tem necessidade do sacerdote ordenado para ser exercido na
Sinaxis Eucarística. Deve-se distinguir
a posição física, relacionada especialmente com a comunicação entre os diversos
membros da assembleia, e a orientação espiritual e interior de todos. Seria
um grave erro imaginar que a orientação
principal do ato sacrificial seja para a comunidade. Se o sacerdote celebra
versus populum, o que é legítimo e muitas vezes aconselhável, a sua atitude
espiritual deve ser sempre versus Deum per Iesum Christum, como representante
de toda a Igreja. Também a Igreja, que assume forma concreta na assembleia que
participa, está toda voltada versus Deum como primeiro movimento espiritual. (grifo
nosso)[53]
A
mesma Congregação já havia explicado esta distinção em uma outra oportunidade,
nestas palavras:
Convém explicar
claramente que a expressão «celebrar voltados para o povo» não tem um sentido
teológico, mas somente topográfico-posicional. Toda celebração da Eucaristia é «ad
laudem et gloriam nominis Dei, ad utilitatem quoque nostram, totiusque
Ecclesiae sua sanctae». Teologicamente, portanto, a Missa é sempre dirigida a Deus, em favor do povo[54].
Na forma de celebração é preciso estar atento a não confundir teologia e
topografia, sobretudo quando o sacerdote está no altar. Somente nos diálogos a
partir do altar o sacerdote fala ao povo. Todo o resto é oração ao Pai por meio
de Cristo, no Espírito Santo. Esta
teologia deve poder ser visível. (grifo nosso)[55]
Desses
dois textos da Congregação para o Culto Divino extraímos quatro importantes
ensinamentos, enumerados abaixo:
(I) É
necessário distinguir o aspecto externo (físico-topográfico) e o interno (espiritual-teológico);
(II)
O
aspecto interno é sempre dirigido ad Deum;
(III)
O
aspecto interno deve poder ser visível;
(IV)
É
um grave erro imaginar que a Missa é dirigida ao povo.
Assim,
portanto, na celebração «ad abside» os dois aspectos (internos e externos)
coincidem, garantindo que o item (III) seja observado, isto é, a teologia (culto
oferecido à Deus) é expressa no exterior, no visível. Enquanto que na
celebração em sentido contrário o culto que é oferecido à Deus não é expresso
no exterior, nem sempre cumprindo o item (III).
5.
Demonstra melhor que a Missa é celebrada para Deus
Esta
afirmação se deduz da anterior, uma vez que quando o interior coincide com o
exterior, coincide, obviamente, que o culto oferecido à Deus é manifestado com
maior força nas ações. Isto não somente oferece uma nobre catequese aos fiéis,
como também os ajudam a viver a Ação litúrgica, tal qual sua natureza. E como
se isto já não fosse suficiente, notamos ainda que somente a celebração da
Missa «versus populum» está sujeita ao «grave erro» mencionado no item (IV) da
afirmação anterior.
6.
O Versus Deum também não prejudica a audibilidade
Apenas
um único argumento plausível é levantado a favor do versus populum, o da melhor
audibilidade, isto é, as palavras são melhor entendidas pela assembleia de fiéis.
É exatamente esse o fundamento que é citado pela Congregação para o Culto
Divino quando na resposta do ano 2000 diz que "a posição versus populum
parece ser a mais conveniente visto que torna a comunicação mais fácil",
remetendo-se ao texto de 1993, onde se lê o mesmo.
Não
discordamos que quando o sacerdote fala ad abside a onda sonora não se propaga
a longas distâncias, pois parte da onda é absorvida e parte transmitida,
enquanto que somente a parcela refletida chegará aos fiéis. Mas devemos dizer
três coisas a este respeito:
(I) A audibilidade é algo muito louvável e
desejável, sem dúvida alguma. Mas será que vale a pena ganhar audibilidade às
custas de uma orientação que traz consigo benefícios doutrinais e pastorais,
como já apresentamos?
(II) Os momentos em que o sacerdote fala à
assembleia de fiéis são poucos, se comparados com aqueles em que ele se dirige
à Deus. E é, por isso, que o Missal, tanto o da forma extraordinária (João
XXIII) como o da ordinária (Paulo VI), regulamentam os momentos em que o
sacerdote deve voltar-se para o povo. A audibilidade era difícil justamente
durante as leituras, feitas até então do altar, e foi exatamente por isso que o
Papa Pio XII restaurou o uso do ambão, permitindo que as leituras fossem feitas
em vernáculo e de frente para o povo, e desde então a liturgia da palavra é
feita dessa forma. Assim, não há impedimento para que os fiéis possam ouvir.
(III) Some-se tudo isto ao seguinte fato: não
estamos mais no início do século XX. Os aparelhos sonoros (microfone, caixas de
som, etc.) vieram para acabar de vez com esses problemas. Era justo que naquela
época se falasse em dificuldade, mas hoje isso já não é mais válido, portanto,
a essa objeção de audibilidade tem seu prazo de validade já vencido.
Ainda
poderiam objetar que o versus populum confere maior visibilidade, mas
observemos que este argumento não é levantado pela Congregação para o Culto
Divino, isto porque é falso. Ele acentua exageradamente a necessidade de os
fiéis verem o altar e os gestos do sacerdote, sendo usado inclusive por aqueles
que se opõem à colocação do Crucifixo no centro do altar. Portanto,
limitamo-nos a citar o que diz Fournée e Ratzinger, respectivamente, sobre a
celebração versus populum e a cruz sobre o altar nesse tipo de celebração.
A Missa por acaso é um
espetáculo? E o que se quer mostrar aos espectadores: como se opera a
transubstanciação??? Como se faz a fração da hóstia? Como procede o sacerdote
para comungar sob as duas espécies? Acaso o povo tem necessidade de ver isso
para crer? Deve-se pensar que antigamente estávamos muito mal informados dos
ritos sacramentais e que os fiéis agora têm muita sorte? Vamos então! O único
olhar capaz de contemplar o mistério é o olhar interior da fé, e se necessita
de referências visíveis e audíveis, que eu saiba não lhe faltava até há pouco
quando a Missa estava no bom sentido. Não, verdadeiramente não vejo como virar
o altar facilita o acesso ao mysterium
fidei. Pelo contrário, penso que, nesta Missa onde se vê tudo, há um perigo
de considerar os gestos do celebrante por si mesmos, de se ver tentado a
humanizá-los, de deter-se em sua expressão formal, de considerar a quem os
realiza em função não de sua missão sagrada, mas da maneira como os leva a
cabo.
[56]
Um dos fenômenos
verdadeiramente absurdos das últimas décadas está, ao meu modo de ver, no fato
de se colocar a cruz de lado para ver o sacerdote. A cruz é obstrutiva durante
a Missa? Acaso o sacerdote é mais importante que o Senhor? Este erro deve ser
corrigido o mais rápido possível; e é possível sem novas reformas. [57]
7.
Evita que o padre se torne o centro das atenções, o showman
Geralmente
os apologistas que criticam a Missa em sua forma extraordinária (tridentina),
dizendo que os fiéis nada fazem, sendo tudo é realizado pelo sacerdote, são os
mesmos apologistas da celebração versus populum. Contradição? Sim, porque na
imensa maioria das missas versus populum o sacerdote transforma-se no showman,
aquele que tudo faz e que é o centro das atenções, nas palavras de Boyer
"o sacerdote-ator, que pretende atrair toda a atenção sobre si e que
discursa como um vendedor atrás de seu balcão"[58].
Devemos
constatar, para não fazer injustiça, que, é verdade, há sacerdotes que não se
colocam como centro das atenções, mas estes são poucos, muito poucos. Na
celebração versus populum até o altar, que deveria ser aquilo que une, separa o
sacerdote dos fiéis, virou uma barreira, distanciando o povo do sacerdote,
criando uma clericalização exagerada a tal ponto que Fournée se pergunta se
acaso não dever-se-ia substituir o “Ite Missa est” por um feedback.
Cito,
para finalizar, o que de Ratzinger e Fournée, respectivamente, dizem a este
respeito.
A verdade é que com
isso [versus populum] se introduz uma clericalização como nunca antes existiu.
De fato, o sacerdote - o presidente, como agora preferem chamar - se transforma
no ponto de referência de toda a celebração. Tudo depende dele. É a ele que
devemos olhar, participamos em sua ação, a ele respondemos. Sua criatividade é
o que sustenta o conjunto da celebração. Por isso é compreensível que agora se
tente diminuir o papel a ele atribuído, distribuindo diversas atividades aos
outros e confiando a preparação da liturgia à "criatividade" de uns
grupos que, antes de tudo, querem e devem "tomar parte ativamente".
Cada vez se dá menos atenção à Deus e mais importância ao que fazem as pessoas
que ali se reúnem e que, de forma alguma, querem se submeter a um "esquema
pré-determinado". O sacerdote de frente para o povo transmite à comunidade
o aspecto de um círculo fechado em si mesmo. Já não é - por sua própria
disposição - uma comunidade aberta para frente e para cima, mas fechada em si
mesma. [59]
Para o sacerdote,
porém, que celebra de frente para o povo e que se vê como objeto dos olhares,
existe o risco de “fazê-lo com pose”. Este risco é máximo nas Missas
transmitidas pela TV. Como poderia ser de outra maneira quando no lugar de seu
grupo habitual de fiéis, o celebrante sabe que é o alvo de milhares de rostos,
estando as câmeras a fazer dele um ator, um protagonista? Este é um caso
extremo, sem dúvida. Porém põe em relevo o aspecto de espetáculo da Missa de
frente para o povo, na qual, com demasiada frequência, mesmo diante de uma
reduzida assistência, as entoações e os gestos do celebrante parecem estudados
como os de um ator, com uma busca pela forma que vai além da simples
preocupação pela dignidade. Isto é às vezes tão sensível que alguém pode
perguntar se tal Missa deveria concluir não com “Ide em paz e o Senhor vos acompanhe”,
mas com “Me vistes? ” [60]
4. CONCLUSÃO
Os
mais eminentes estudiosos da história e teologia litúrgica há bastante tempo
provaram o qual infundado é a celebração versus populum, isto é, (des)orientada
para o povo e não para o oriente, seja o real (leste) ou o simbólico
(crucifixo). Esta disposição não tem respaldo nem na história, seja do ocidente
ou do oriente, nem na teologia e nem mesmo na pastoral, enquanto que a correta
e perfeita orientação versus Deum está concorde com a tradição católica, tanto
ocidental como oriental, com sua doutrina e tem uma pastoral provada pela
experiência de dois milênios.
Portanto,
através deste trabalho pudemos provar que a orientação versus Deum pode ser
perfeitamente ser usada na celebração da Missa, segundo o missal do Papa Paulo
VI, e, o leitor há que concordar conosco, que esta disposição é a melhor sob
diversos aspectos. Não resta dúvida que o Cardeal Robert Sarah, Prefeito da
Congregação para o Culto Divino, estava certo ao afirmar que é "muito
importante que retornemos o quanto antes possível para uma comum orientação,
dos sacerdotes e fiéis, voltados na mesma direção - para o oriente ou pelo
menos para a abside”[61].
________
ÍNDICE
1. APRESENTAÇÃO
2. INTRODUÇÃO
3. A ORIENTAÇÃO LITÚRGICA: DEUS OU POVO?
3.1. HISTÓRIA
3.2. LEGISLAÇÃO
3.3. OBJEÇÕES
A. O Cardeal Sarah
não tem autoridade para legislar sozinho
B. O Padre Lombardi:
“não haverá nova norma”
C. O Cardeal Sarah
não obrigou, mas incentivou
D. O parágrafo 299
da Instrução Geral proíbe o Versus Deum
E. Deus é
espírito, está em todo lugar
F. A Basílica de
São Pedro tem altar no centro da Igreja.
G. A Ceia do Senhor
foi celebrada versus populum
H. A Missa é apenas
um banquete
I. Jesus está nas
pessoas
J. «Não é
conveniente rezar voltado para a parede » ou «7 razões para celebrar versus
Deum»
4. CONCLUSÃO
________________
NOTAS
[1] - Esse artigo foi escrito com zelo,
mas ainda não foi revisado. Assim, qualquer contribuição será bem recebida.
[2] - SARAH, Cardeal Robert. Discurso
na Conferência Sacra Liturgia UK 2016. A tradução está disponível no site da
Associação Redemptionis Sacramentum – ARS.
[3] - Ibidem.
[4] - Ibidem.
[5] - RATZINGER, Joseph. El Espírito de
la Liturgia: Una introducción. Ediciones Cristandad: Madri, 2001. Pag. 97.
Tradução nossa.
[6] - RATZINGER, Joseph. Prefácio à
edição francesa do livro "Voltados para o Senhor", de Klaus Gamber.
Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.
[7] - GAMBER, Klaus. Voltados para o
Senhor. Pag. 13. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.
[8] - Nourry, Dom N. Le. Citado por
Jean Fournée em "A Missa de frente para Deus" (1976), Pag. 12, Nota
de rodapé n. 42. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.
[9] - Clemente de Alexandria,
Stromatum., livro VII, cap. 7. P.G. IX, 482-483. Citado por Jean Fournée em
"A Missa de frente para Deus" (1976), p. 13. Tradução de Luís A. R.
Domingues, ARS.
[10] - Orígenes, P.G. XI, 555. Citado
por Jean Fournée em "A Missa de frente para Deus" (1976), p. 13.
Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.
[11] - FOURNÉE, Jean. A Missa de frente
para Deus. Colección Una Voce: Paris, 1976. Pag. 6. Tradução de Luís A. R.
Domingues, ARS.
[12] - Ibidem.
[13] - Ibidem.
[14] - Ibidem.
[15] - RATZINGER, Joseph. El Espírito
de la Liturgia: Una introducción. Ediciones Cristandad: Madri, 2001. Pag. 105.
(Tradução nossa)
[16] - FOURNÉE, Jean. A Missa de frente
para Deus. Colección Una Voce: Paris, 1976. Pag. 6. Tradução de Luís A. R.
Domingues, ARS.
[17] - RATZINGER, Joseph. El Espírito
de la Liturgia: Una introducción. Ediciones Cristandad: Madri, 2001. Pag. 105.
(Tradução nossa)
[18] - Assim diz Fournée em seu livro
"A Missa de frente para Deus"
(1976): "Onde colocá-lo e em que sentido? (...) Porém, que a Cruz esteja
ou não no altar, para onde deve olhar? Se é para o povo, Cristo dá as costas ao
ministro do altar, e é mal-educado. Se é para o celebrante, é mal-educado para
com os fiéis. (...) Não se poderia imaginar uma pirueta mais desenvolvida para
descartar a única solução lógica, que seria voltar a colocar o altar no bom
sentido... Em suma, se está em plena contradição, e em plena descortesia: o
celebrante está de frente para o povo, mas o divino Crucificado lhe dá as
costas! A liturgia se volta a fechar numa relação Cristo-altar-ministro, o que
está em flagrante desacordo com todas as boas razões de abertura ao povo que os
ardentes defensores da celebração versus populum invocam. E assim se está em
ruptura com o simbolismo que, desde o começo do cristianismo, estava unido à
cruz do Gólgota, olhando para o oeste, isto é, para o mundo dos redimidos, a
que seus braços atraem e reúnem em um mesmo povo." Assim, ao final, a
orientação comum não é seguida por todos, apenas por um, ou o sacerdote ou o
povo olham para o crucificado.
[19] - GAMBER, Klaus. Voltados para o
Senhor. Pag. 13. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.
[20] - SILVA, J. Ariovaldo. Citado por
Rodrigo Carvalho em "O espírito da Liturgia: De Vagaggini ao Concílio
Vaticano II, 2014, p. 28, nota de rodapé n. 72.
[21] - FOURNÉE, Jean. A Missa de frente
para Deus. Colección Una Voce: Paris, 1976. Pag. 8. Tradução de Luís A. R.
Domingues, ARS.
[22] - GAMBER, Klaus. Voltados para o
Senhor. Pag. 15. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.
[23] - EDER, George, entrevista ao
jornal Kleine Zeitung, em 13 de janeiro de 1989. Citado por Gamber em seu livro
Voltados para o Senhor. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.
[24] - SCHMITZ, R. Michael. O Portão
para a eternidade: o Rito romano clássico e seu significado para a Igreja.
Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS
[25] - RATZINGER, Joseph. Prólogo ao
livro do Padre Uwe Michael Lang, "Voltados para o Senhor: a orientação da
oração litúrgica". Tradução nossa.
[26] - DAVIES, Michael. La nueva Misa
del Papa Pablo: la revolución litúrgica. Volume 3. Pag. 423. Tradução nossa.
[27] - SCHMITZ, R. Michael. O Portão
para a eternidade: o Rito romano clássico e seu significado para a Igreja.
Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS
[28] - Ibidem.
[29] - DAVIES, Michael. La nueva Misa
del Papa Pablo: la revolución litúrgica. Volume 3. Pag. 423-424. Tradução
nossa.
[30] - Ressalvando o que se diz quanto
à orientação topográfica do edifício. Cf. a objeção F.
[31] - Congregação para o Culto Divino
e a Disciplina dos Sacramentos, Resposta em 25 de setembro de 2000, Notitiae,
prot. Nº. 2036/00/L. Tradução nossa.
[32]
- Há dois vídeos disponíveis no youtube, um de 2014 em <youtube.com/watch?v=DHzunCPE98M>
e outro de 2015 em <youtube.com/watch?v=7vlj6SqFV8s>
[33] - Imagens do Papa Bento XVI podem
ser encontradas facilmente através do google imagens, tal como essa <liturgiacatolicaoficial.blogspot.com.br/2014/08/missa-em-rito-bizantino-versus-deum.html>.
Mas basta fazer uma busca na internet que será possível verificar algumas
outras.
[34] - Há um vídeo de 2008 em <youtube.com/watch?v=Q0aPU57zx6Q>
onde vemos o Cânon sendo rezado pelo Papa Bento XVI e vemos nesse outro
endereço <youtube.com/watch?v=6oeUmtzfGs8> uma pequena matéria sobre as
missas diárias do Papa em sua capela particular.
[35] - Não descartamos a possibilidade
de respostas ainda melhores serem apresentadas.
[36] - RATZINGER, Joseph. Prólogo ao
livro do Padre Uwe Michael Lang, "Voltados para o Senhor: a orientação da
oração litúrgica". Tradução nossa.
[37] - DAVIES, Michael. La nueva Misa
del Papa Pablo: la revolución litúrgica. Volume 3. Pag. 423-424. Tradução
nossa.
[38] - GAMBER, Klaus. Voltados para o
Senhor. Pag. 15. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.
[39] - RATZINGER, Joseph. El Espírito
de la Liturgia: Una introducción. Ediciones Cristandad: Madri, 2001. Pag.
97-98. Tradução nossa.
[40] - Ibidem, pag. 98.
[41] - Ibidem, pag. 99.
[42] - FOURNÉE, Jean. A Missa de frente
para Deus. Colección Una Voce: Paris, 1976. Pag. 7. Tradução de Luís A. R.
Domingues, ARS.
[43] - JUNGMANN, Josef A. Missarum
Sollemnia. Citado por Klaus Gamber em "Voltados para o Senhor" ,Pag.
18Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.
[44] - RATZINGER, Joseph. El Espírito
de la Liturgia: Una introducción. Ediciones Cristandad: Madri, 2001. Pag. 100.
Tradução nossa.
[45] - GAMBER, Klaus. Voltados para o
Senhor. Pag. 13-14. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.
[46] - BOYER, Louis. Epílogo ao livro
"Voltados para o Senhor", do Mons. Klaus Gamber. Tradução de Luís A.
R. Domingues, ARS.
[47] - RATZINGER, Joseph. El Espírito
de la Liturgia: Una introducción. Ediciones Cristandad: Madri, 2001. Pag. 100.
Tradução nossa.
[48] - Ibidem, Pag. 105.
[49] - GUÉRANGER, Prosper. Institutions
Liturgiques. Paris, 1840. Capítulo XIV. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.
[50] - GAMBER, Klaus. Voltados para o
Senhor. Pag. 27. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.
[51] - Ibidem.
[52] - HAUKE, Manfred. Conferência.
Congresso sobre o Motu Proprio Summorum Pontificum, Roma, 2015.
[53] - Congregação para o Culto Divino
e a Disciplina dos Sacramentos, Resposta em 25 de setembro de 2000, Notitiae,
prot. Nº. 2036/00/L. Tradução nossa.
[54] - A tradução fornecida por THANNER
diz «e dirigida ao povo», mas preferi substitui-la já que o texto latino citado
diz «ad utilitatem» («para a utilidade»), resultando, consequêntemente, em um
texto mais fiel ao que diz a doutrina católica.
[55] - Editoriale Pregare "ad
orientem versus", em Notitiae 29 (1993), 245-249. Citado por THANNER
(2005) em "O Dinamismo intrínseco da Celebração eucarística e sua
expressão externa".
[56] - FOURNÉE, Jean. A Missa de frente
para Deus. Colección Una Voce: Paris, 1976. Pag. 28. Tradução de Luís A. R.
Domingues, ARS.
[57] - RATZINGER, Joseph. El Espírito
de la Liturgia: Una introducción. Ediciones Cristandad: Madri, 2001. Pag. 106.
Tradução nossa.
[58] - BOYER, Louis. Epílogo ao livro
"Voltados para o Senhor", do Mons. Klaus Gamber. Tradução de Luís A.
R. Domingues, ARS.
[59] - RATZINGER, Joseph. El Espírito
de la Liturgia: Una introducción. Ediciones Cristandad: Madri, 2001. Pag.
101-102. Tradução nossa.
[60] - FOURNÉE, Jean. A Missa de frente
para Deus. Colección Una Voce: Paris, 1976. Pag. 29. Tradução de Luís A. R.
Domingues, ARS.
[61] - SARAH, Cardeal Robert. Discurso
na Conferência Sacra Liturgia UK 2016. A tradução está disponível no site da
Associação Redemptionis Sacramentum – ARS.
________
Para citar: MOTA, Gabriel Luan Paixão. Joseph Ratzinger refuta Versus Populum: a orientação litúrgica - Suma contra o versus populum. Publicado no blog Regozija-te com a verdade, aos 15 de julho de 2016.
Para citar: MOTA, Gabriel Luan Paixão. Joseph Ratzinger refuta Versus Populum: a orientação litúrgica - Suma contra o versus populum. Publicado no blog Regozija-te com a verdade, aos 15 de julho de 2016.
1 comentários:
Dizer que a Versum populum é algo do protestantismo é um erro absurdo. É, assim comno os protestantes dizem, dizer que a Igreja católica surgiu na idade média -já com seus ritos bem formulados, o que não aconteceu-. Muitos querem voltar as origens, mas se esquecem que a o rigem da nossa Igreja está no evangelho, as primeiras celebrações, narradas em Atos e eu duvido que as primeiras celebrações eram voltadas para o oriente, de costa para o povo etc... Se cristo não é o centro da sua vida, não o será na missa, independente do lugar para o qual está virado.
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