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terça-feira, 25 de abril de 2017

A reforma litúrgica do Ritual de Exorcismos - Rev. Pe. Gabriele Amorth



A reforma litúrgica do Ritual de Exorcismos

Por Rev. Pe. Gabriele Amorth, exorcista


Quando tive que tratar com uma comissão de cardeais, encarregada de reescrever o ritual dos exorcistas, obtive uma demonstração da incredulidade do Vaticano quanto a existência de Satanás.

O Concílio Vaticano II, ao fim do seu trabalho, havia ordenado que os textos litúrgicos fossem atualizados. Infelizmente nesta obra de atualização frequentemente prevaleceu uma busca por novidade, que ao invés de renovar pensou-se em acabar com os textos antigos e fazer tudo de novo. Uma ação muitas vezes perversa porque se partiu do pressuposto de que o antigo estava sempre errado. Que loucura!

Gabriele Amorth, sacerdote exorcista
O último texto que caiu nas mãos dos "inovadores" foi o ritual para os exorcistas, isto é, o texto que um exorcista segue quando deve realizar um exorcismo. Eu, juntamente com outros exorcistas, havia me preparado, pensando que logo seria consultado por esta comissão. No entanto, nada aconteceu. Pelo contrário, em 4 de junho de 1990 apareceu para nossa surpresa o novo ritual «ad interim», sem que nenhum de nós tivéssemos sido consultados, nem de viva voz nem por telefone.

Algo mal feito. Um texto provisório pode ser sempre alterado, pensamos. Ainda mais no início, quando este novo ritual foi distribuído para que os exorcistas o experimentasse, observações estas que o Vaticano devia ter levado em consideração.

Basicamente, segundo os acordos, os exorcistas deviam testar “em campo” este novo ritual, depois deviam transmitir as próprias observações ao bispo de suas respectivas dioceses, este, por sua vez, as enviariam para a Conferência Episcopal e esta, por fim, à Congregação para o Culto Divino, a congregação da Santa Sé responsável pela renovação do texto. Na verdade, esse trajeto tão tortuoso demonstrou ser uma armadilha. O Cardeal Eduardo Martínez Somalo, prefeito da Congregação para o Culto Divino (1988-1992), disse: "Dentro de 2 anos as Conferências Episcopais de todo o mundo estão encarregadas de enviar-nos um relatório sobre o uso do novo ritual, assim como eventuais conselhos e sugestões apresentadas pelos sacerdotes que dele tenham feito uso". Na verdade, nada disso aconteceu. Principalmente por causa das muitas voltas do trajeto - dos exorcistas aos bispos, destes à Conferência Episcopal e, em seguida, desta última à Congregação para o Culto Divino -, até o Vaticano não chegou nenhuma observação. Nenhuma.
Nós, os exorcistas, tínhamos muito a dizer. A leitura e a experimentação do novo ritual foram, de fato, absolutamente desastrosas. Era bastante evidente que o novo ritual havia sido preparado por pessoas que nunca haviam feito exorcismos na vida e que nunca haviam assistido a algum.

Dessa forma, nós, exorcistas, decidimos nos reunir em assembleia para decidir o que fazer. Encontramo-nos em dezoito, provenientes de diversos países do mundo, entre os exorcistas mais experientes. Discutimos esse texto provisório e decidimos escrever uma longa lista do que chamamos de "As observações dos dezoito". Entregamos nossas observações à Conferência Episcopal Italiana, à Congregação para o Culto Divino e também apresentamos uma cópia diretamente ao Papa João Paulo II, quem diante de nossos olhos a recebeu e nos agradeceu.

Meses se passaram e um dia apareceu a notícia de que o texto definitivo do novo ritual havia saído, publicado em latim, com data de 22 de novembro de 1998. A tradução italiana, que estava a cargo da Conferência Episcopal Italiana, veio à luz no dia 25 de novembro de 2001.

Foi imensa a nossa desilusão. O texto definitivo, para nossa surpresa, baseava-se essencialmente na edição «ad interim», mas com o acréscimo de erros macroscópicos. Por exemplo, o texto proibia fazer uso dos exorcismos em casos de malefício[1], que são mais de 90% dos casos de problemas diabólicos. O texto também proibia realizar exorcismos se não se possuía certeza da presença do demônio. Algo absurdo. Somente fazendo exorcismos é que se tem a certeza se se trata de possessão ou não! Além disso, não se deram conta de que os próprios textos contradiziam ao Catecismo da Igreja Católica, onde se afirma que os exorcismos são feitos em caso de possessão e de transtornos causados pelo demônio. Nunca há possessão em tais transtornos, o demônio nunca está presente do corpo das pessoas, assim como não está quando se exorcizam os animais, as casas ou os objetos.

Então para que serviram "as observações dos dezoitos"?

Somente serviram para desprezo. É lamentável dize-lo, mas o tenho que fazer: somente serviram para serem desprezadas.

O Secretário para a Congregação para o Culto Divino afirmou, diante da comissão de cardeais encarregada de redigir este novo texto, que os únicos interlocutores deviam ser os bispos e não os sacerdotes exorcistas. E acrescentou: "Deve-se tomar ciência da existência de um grupo de exorcistas e também demonólogos, que posteriormente se constituíram na Associação Internacional, que orquestravam uma campanha contra o rito". Éramos nós. Éramos nós, os dezoito.

Foi uma acusação imoral.

Queríamos somente fazer observações depois de haver usado o ritual «ad interim» e constatado em muitas partes sua total ineficácia. Havíamos acreditado na Lumen Gentium, a Constituição Dogmática sobre a Igreja proveniente dos trabalhos do Concílio Vaticano II, que diz: "Segundo o grau de ciência, competência e autoridade que possuam, têm o direito, e por vezes mesmo o dever, de expor o seu parecer sobre os assuntos que dizem respeito ao bem da Igreja" (n. 37).
Acreditamos na Lumen Gentium, mas não fizeram o mesmo no Vaticano. Não me parece que tenha sido recebida por todos no Vaticano.

Ritual Romano de 1952, ao qual se refere o Pe. Amorth.
Por sorte, in extremis, o Cardeal Jorge Arturo Medina Estévez, que em 1996 se tornou prefeito da Congregação para o Culto Divino, conseguiu no último momento inserir uma notificação especial, na qual se concedia aos exorcistas a faculdade de continuar usando o antigo ritual, depois de uma autorização do bispo. Foi a nossa salvação. Todos podemos seguir exorcizando com o antigo ritual, que na minha opinião é o único eficaz contra o demônio[2].

Entretanto, devo dizer uma coisa a mais. É sobre Joseph Ratzinger. O atual Pontífice era, na época do Ritual «ad interim», um dos membros da comissão cardinalícia encarregada de escrever o texto. Ele foi o único que investigou e escutou o nosso parecer, o dos exorcistas, ainda que depois, infelizmente, tal parecer não tenha sido compartilhado por seus outros colegas.

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NOTAS

[1] – (N.tr.) No livro "Um Exorcista Conta-nos", o autor explica que malefício, termo genérico, é o fenômeno pelo qual uma pessoa inocente pode ser incomodada pelo demônio. A magia negra, as maldições, o mau olhado, os bruxedos (trabalhos ou despachos) são formas de malefícios.

[2] – (N.tr.) Essa opinião do reverendo padre possui bastante peso, por ser ele ex-exorcista oficial do Vaticano e um dos mais experientes exorcistas da Igreja. Entretanto, nesse campo, os exorcistas estão ainda divididos. Há aqueles exorcistas, como o Pe. Antonio Doñoro, que se aproximam do pensamento do Padre Amorth ao afirmar que o novo ritual é eficaz apenas para as possessões mais leves, enquanto que não é eficaz para as mais graves, ou aqueles outros exorcistas, como o Pe. Salvador Hernández Ramón, que afirmam simplesmente que o antigo ritual é mais eficaz que o novo. No entanto, existem outros famosos exorcistas, como parece ser a opinião do Pe. Jose Antonio Fortea, que creem na igual eficácia de ambos os rituais.

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Para citar: AMORTH, Padre Gabriele. O Último exorcistaTradução de Gabriel Luan Paixão Mota. Publicado no blog Regozija-te com a verdade, aos 25 de abril de 2017

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Reforma da reforma e o futuro do Missal de Pio V


Reforma da reforma e o futuro do Missal de Pio V


O presente artigo trata-se da tradução de uma conferência feita pelo então teólogo Cardeal Joseph Ratzinger na Abadia de Notre-Dame de Fontgombault, no ano de 2001.

A "reforma da reforma"

O professor Spaemann tem razão: a "reforma da reforma" se refere naturalmente ao Missal reformado, não ao Missal anterior. O que se pode fazer, dado que finalmente nosso objetivo comum - me parece - é a reconciliação litúrgica e não o uniformismo? Não estou a favor do uniformismo, mas naturalmente temos que estar contra o caos, contra a fragmentação da liturgia, e, neste sentido, também a favor da unidade na observância do Missal de Paulo VI. Parece-me que este é um problema prioritário: como voltar a um rito comum reformado - se se quer -, mas não fragmentado ou deixado à arbitrariedade das comunidades locais, ou de alguns grupos de comissões e de peritos? A "reforma da reforma" é, portanto, uma questão que se refere ao Missal de Paulo VI, sempre com esta finalidade da reconciliação no interior da Igreja, porque, no momento, existe uma oposição dolorosa e estamos ainda longes da reconciliação, se bem que os dias que vivemos juntos aqui são um passo importante até esta reconciliação.

Para o Missal em vigor o primeiro ponto seria, na minha opinião, rechaçar a falsa criatividade que não é uma categoria da liturgia. Se recordou mais uma vez, o que o Concilio disse realmente sobre isto: somente a autoridade eclesiástica é quem decide, não é o direito de um sacerdote ou de algumas pessoas que muda a liturgia. Mas no novo Missal encontramos com bastante frequência fórmulas como: sacerdos dicit sic vel simili modo [...] ou melhor: Hic sacerdos potest dicere [...]. Esta fórmula do Missal oficializa o direito a criatividade; o sacerdote se sente quase obrigado a mudar um pouco as palavras, demonstrar que é criativo, que atualiza em sua comunidade esta liturgia; e com esta falsa liberdade que transforma a liturgia em catequese para esta comunidade. Se destrói a unidade litúrgica e a eclesialidade da liturgia. Parece-me, portanto, que seria muito importante para a reconciliação que o Missal fosse liberto desses espaços de criatividade que não respondem a realidade profunda, ao espírito da liturgia. Se com uma semelhante "reforma da reforma" se pudesse voltar a uma celebração fiel, eclesial, da liturgia isso seria, na minha opinião, já um passo importante, porque a eclesialidade da liturgia apareceria de novo claramente.

Fonte: O catequista
O segundo tema que falei são as traduções: o canonista Rose nos disse coisas importantes, a crise é quase ainda mais grave nos Estados Unidos [desconhecia a lastimável situação brasileira!!!], no mundo aglófono, com a mudança permanente da linguagem, com o problema do politicamente correto e da linguagem inclusiva. Há comunidades nos Estados Unidos que, em nome da linguagem inclusiva, já não se atrevem a dizer "Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo" porque isso é "machismo": Pai e Filho são dois homens. Então se diz: "Em nome do Criador, do Redentor e do Espírito Santo". É somente um exemplo para mostrar a gravidade deste problema e a insistência de alguns bispos (não da Conferência Episcopal como tal) em que se utilize o que eles chamam de linguagem real; o outro já não seria, segundo eles, linguagem real. A linguagem inclusiva faz desaparecer coisas essenciais, como por exemplo, nos salmos, toda a estrutura cristológica, porque as palavras masculinas estão proibidas. Consequentemente, o problema das traduções é um problema grave. Há um novo documento da Santa Sé sobre este problema, que constitui, me parece, um avanço muito real. Queria observar isto: deveriam se conservar alguns elementos de latim na liturgia normal, uma certa presença do latim, como vínculo de comunhão eclesial, me pareceria importante.

O terceiro problema é a celebração versus populum. Como escrevi nos meus livros, creio que a celebração para o oriente, até Cristo que vem, é uma tradição apostólica. No entanto sou contra a revolução permanente nas igrejas, se reestruturaram agora tantas igrejas que voltar a começar de novo neste momento não me parece, em absoluto, oportuno. Mas se sempre houvesse sobre os altares uma cruz, uma cruz bem à vista, como ponto de referência para todos, para o sacerdote e fieis, teríamos nosso oriente, já que finalmente o Crucificado é o oriente cristão, e, sem força, se poderia - me parece - fazer isso: dar como ponto de referência o Crucificado, a cruz, e assim uma nova orientação a liturgia. Creio que esta não é uma questão puramente externa: se a liturgia se realiza em um círculo fechado, se existe somente o diálogo sacerdote-povo, estamos diante de uma falsa clericalização e a faltar de um caminho comum até o Senhor, até o qual todos nos voltamos. Portanto, ter o Senhor como ponto de referência, para todos, sacerdote e fieis, me parece algo importante e totalmente viável e realizável.

O futuro do Missal de São Pio V

Conheço muito bem a sensibilidade dos fiéis que amam esta liturgia, é também um pouco minha própria sensibilidade. E neste sentido, compreendo o que nos disse o professor Spaemann ao afirmar: se não se conhece a finalidade de uma reforma, por pequena que seja, se se deve pensar que somente é um passo intermediário até uma perfeita revolução, isso sensibiliza aos fiéis. E neste sentido, se deve ser muito prudente com as eventuais mudanças. No entanto, disse também - o destaco - que seria fatal se a antiga liturgia se encontrasse como em um congelador, como em um parque nacional, um parque protegido para um determinado tipo de pessoas, às quais se deixariam estas relíquias do passado. Isto seria - como nos disse o professor De Mattei - uma espécie de inculturação: "Também existem conservadores, deixais a este grupo sua inculturação!". Com semelhante redução ao passado, não se conservaria este tesouro para a Igreja de hoje e de amanhã. Parece-me que, em todo caso, se deve evitar que esta liturgia fique petrificada em um congelador para um certo tipo de pessoas.

Esta deve ser também uma liturgia da Igreja e sob a autoridade da Igreja; e somente nesta eclesialidade, neste vínculo fundamental com a autoridade da Igreja, pode dar tudo o que pode dar. Naturalmente, se pode dizer: já não temos confiança na autoridade da Igreja depois de tudo o que vivemos nos últimos trinta anos. Ter confiança na autoridade da Igreja é um princípio católico fundamental. Sempre me impressionou muito uma reflexão de Harnack em uma discussão com Peterson, teólogo protestante então em via de converter-se; Harnack respondeu as questões deste jovem colega: é evidente que o princípio católico Escritura e Tradição é melhor, é o princípio junto e implica a necessidade de uma autoridade na Igreja, mas mesmo se o princípio como tal, o princípio católico, é justo, vivemos melhor sem a autoridade e sem as possíveis influências desta autoridade. Tinha a confiança de que a razão livre que estuda a Escritura chegaria à verdade e que isto era melhor que estar submetido a uma autoridade que pode ter falhas. Está correto, poderá falhar, mas a obediência a esta autoridade é, para nós, a garantia de estar na obediência ao Senhor. Se adverte, sem dúvida, muito drasticamente as pessoas que exercem autoridade, de que não a exerçam como um poder. A autoridade na Igreja é um exercício de obediência. Quando o Santo Padre decidiu que a Igreja não possui a faculdade de ordenar mulheres, era um exercício de obediência a grande Tradição da Igreja e ao Espírito Santo. Para mim, foi muito interessante ver os progressistas mais radicais e os mais ferozes adversários do Magistério que nos diziam: "Não! A Igreja pode fazer isto, deveis fazer uso de vossas faculdades!". Não, a Igreja não pode fazer tudo, o Papa não pode fazer tudo. Parece-me que diante de uma autoridade que, na situação atual, se faz ainda mais conscientemente um exercício de obediência, todos podem ter, devem ter esta confiança.
Para ser mais concreto, não faria nada neste âmbito por enquanto; está claro. Mas, no futuro, deveria se pensar – parece-me - em enriquecer o Missal de 1962, introduzindo santos novos; existem agora figuras importantes de santos: penso, por exemplo, em Maximiliano Kolbe, Edith Stein, os mártires da Espanha, os mártires da Ucrânia e tantos outros, mas também nessa Bakita do Sudão, que sai da escravidão e se faz livre na fé ao Senhor; há muitas figuras realmente belas que nos são necessárias. Portanto, abrir o calendário do antigo Missal aos novos santos, fazendo uma seleção bem meditada, me parece uma coisa oportuna que não destruiria nada do tecido da liturgia. Poderia se pensar também nos prefácios, que procedem igualmente do tesouro dos Padres da Igreja, por exemplo para o Advento e outros. Por que não incluir estes prefácios no antigo Missal?

Assim, se deveria entender, com uma grande sensibilidade, com uma grande compreensão até as preocupações e medos, em contato com os responsáveis, que este Missal é também um Missal da Igreja, e sob a autoridade da Igreja, que não é uma coisa protegida do passado, mas uma realidade viva na Igreja, muito respeitada em sua identidade e em sua grandeza histórica, mas também considerada como algo vivo, não como algo morto, uma relíquia do passado. Toda a liturgia da Igreja é sempre algo vivo, uma realidade que se encontra acima de nós, não submetida a nossas vontades e a nossas intenções arbitrárias. Estes são os comentários que queria fazer.

Para citar: RATZINGER, Joseph AloisiusObras completas: Teologia da liturgia. Madri: Biblioteca de Autores Cristianos, 2012. 561 p. ISBN: 978-84-220-1609-0. Publicado no blog Regozija-te com a verdade, aos 16 de maio de 2016. Tradução de Gabriel Luan Paixão Mota.

Revelação de Bento XVI sobre o Movimento Litúrgico


Revelação de Bento XVI sobre o Movimento Litúrgico

O presente artigo trata-se da tradução de uma conferência feita pelo então teólogo Cardeal Joseph Ratzinger na Abadia de Notre-Dame de Fontgombault, no ano de 2001.

Introdução

Reverendos Padres Abades e queridos irmãos,

Não me atrevo a propor conclusões; não tive tempo nem capacidade intelectual e física para preparar nada. Somente posso propor algumas observações. Mas, sobretudo, quero expressar meu profundo agradecimento a você, querido padre Abade, pelo espírito deste monastério que nos infundiu a paz da Igreja, a paz de nosso Senhor, e nos permite buscar juntos esse ecumenismo católico em que pode haver uma reconciliação dentro da Igreja quanto essas diferenças que são profundas e dolorosas.

O que irei dizer? Havia pensado em falar sobre quatro temas: em primeiro lugar, uma nota sobre a fisionomia intelectual e espiritual do Movimento Litúrgico tal como conheci; em seguida, uma palavra sobre as propostas do padre Folsom e do professor Spaemann sobre a pluriformidade dentro do rito romano, sobre os ritos romanos no rito romano; uma palavra sobre a "reforma da reforma"; e uma palavra também, nessa discussão com meu amigo Spaemann, sobre o futuro do Missal do ano de 1962.


A fisionomia espiritual e histórica do Movimento Litúrgico


Ontem me referi às origens da disciplina litúrgica acadêmica (a ciência litúrgica) dizendo que, por um lado, vinha de um trabalho histórico e, por outro, de um trabalho pastoral; isto se referia somente à disciplina acadêmica da liturgia, não ao Movimento Litúrgico. O Movimento Litúrgico nasceu na Alemanha a partir de uma diversidade de origens sobre o que padre Koster nos falou muito bem; interessava-me sublinhar que, ao meu ver, os grandes monastérios beneditinos - especialmente Beuron - foram o verdadeiro berço do autêntico Movimento Litúrgico (a abadia de Beuron, afiliada a Solesmes, porque os irmãos Wolter haviam fundado esta renovação beneditina em primeiro lugar em Beuron, e logo em Maria Laach, filiada a Beuron, e nas demais abadias). É interessante ler nas Memórias de Guardini que ele mesmo descobriu a liturgia participando nas horas canônicas de Beuron, participando na vida litúrgica vivida no espírito de Solesmes, ou seja, no espírito dos Padres, e como isto foi para ele o descobrimento de um mundo novo, o da liturgia como tal; parece-me que isto dá um pouco a chave para entender o que os Padres do Movimento pensaram na Alemanha (porém o padre Anselm Schott tinha um pensamento diferente, como também o padre Odo Casel, etc.). Este foi realmente o descobrimento da liturgia como um mundo simbólico cheio de realidade, cheio de sentido. No contexto da teologia neoescolástica bastante seca, por um lado, e do racionalismo e do modernismo, por outro - Guardini estudou em Tubinga, quando o modernismo era muito virulento ali -, este movimento deu uma nova visão do ser cristão partindo da liturgia.

Para uma certa teologia manualística, o que interessava nos sacramentos e também na eucaristia, era principalmente a validade, e, por conseguinte o momento da consagração. Havia se reduzido a teologia eucarística a um problema ontológico e jurídico, considerando todo o resto como cerimônias bonitas, interessantes, interpretáveis ou não em um sentido alegórico, mas não como realidade na qual se realiza a eucaristia. Consequentemente, teve que redescobrir que a liturgia não é somente um conjunto de cerimônias destinadas a dar um determinado comprimento e solenidade à consagração, mas que é o mundo do sacramento como tal. Esta era uma nova visão que, neste sentido, superava também uma teologia estreita e propunha uma visão mais profunda não somente da teologia, mas de toda a vida cristã. Pode se constatar a magnitude do Movimento Litúrgico somente no contexto histórico de uma interpretação muito insuficiente da liturgia. Por exemplo, desde o tempo de Leão XIII, se recitava o Rosário na Missa durante o mês de outubro, e era ainda o costume quando era jovem. A Missa era, pois, na verdade, como escrevi no prefácio de meu livro, um afresco coberto. Deste modo, redescobrir que a liturgia em si mesma está viva e é uma realidade viva da Igreja como tal, era um enriquecimento muito importante para a Igreja. Portanto, foi superado realmente os mal-entendidos, ideias e visões insuficientes da liturgia e da teologia. Inclusive creio que a explosão da reforma do século XVI foi possível também porque já não havia uma verdadeira compreensão da liturgia. Para Lutero, da Missa somente ficava a consagração e a distribuição da santa Comunhão.

Mas neste progresso real que o Movimento Litúrgico produziu - orientado até o Vaticano II, até a Sacrosanctum Concilium -, também havia um perigo: o desprezo da Idade Média como tal, da teologia escolástica como tal. A partir desse momento começou já uma divisão de caminhos: Dom Casel se mostrou muito exclusivista a favor da teologia patrística, tal como ele a via, e do platonismo litúrgico, tal e como ele o pensava. Estas ideias unilaterais perigosas foram posteriormente popularizadas como slogans muito tristes e perigosos; assim se dizia então, e lembro bem: "O pão consagrado não é para ser olhado com os olhos, mas para ser comido". Era um lema contra a adoração eucarística; se pensava que toda a realidade, todo o desenvolvimento realizado na Idade Média era errôneo. Consequentemente, houve um rigorismo e um arqueologismo litúrgicos que, ao final, se converteram em um grande perigo. Já não se podia entender que, inclusive as novidades da Idade Média - a adoração eucarística e logo a piedade popular, toda ela - eram realmente desenvolvimentos legítimos. Sobretudo, a sínteses entre as diferentes correntes já não era então possível: Guardini se distanciou de Maria Laach porque ele defendia o Rosário, a Via Crucis, a adoração eucarística, enquanto que os demais tinham uma posição estrita que já não admitia estes desenvolvimentos posteriores.


Portanto, esta questão - discutida já ontem - segue aberta: qual é a síntese possível e a visão profunda comum entre a teologia medieval e os Padres? Creio que Santo Tomás de Aquino é tanto um teólogo que abre a porta a uma nova visão da teologia, com a integração do aristotelismo, como um teólogo perfeitamente patrístico: partindo dele, se deveria ter a possibilidade de encontrar esta síntese. Guardini escreveu, no início dos anos 20, um diálogo muito interessante entre um exegeta, professor de universidade, racionalista, mas ortodoxo - como existiam nas universidades alemãs nesta época -, um liturgista rigoroso e um diretor de Caritas representante da piedade popular especialmente do Sagrado Coração; buscava neste tria-logo uma síntese, e isto há ainda de se fazer.

Parece-me que já nos anos 50 e, sobretudo, depois do Concílio, os perigos latentes e também patentes do Movimento Litúrgico se converteram em uma grande tentação, um grande perigo para a Igreja. Havia depois do Concílio uma nova situação porque os liturgistas haviam passado, de fato, a ser a autoridade; se reconhecia cada vez menos a autoridade da Igreja; agora era o perito quem detinha a autoridade. Esta entrega de autoridade aos peritos transformou tudo, e estes peritos, por sua parte, foram vítimas de uma exegese profundamente condicionada pelos juízos do protestantismo, a saber, que o Novo Testamento estava contra o sagrado, em oposição ao culto e sacerdócio e, portanto, em contraposição com a grande tradição, especialmente com a do Concílio de Trento. Se defendia a ideia de que o Novo Testamento estava em oposição ao culto porque se separa do Antigo Testamento, do templo. Agora o culto seria a realidade vivida, sofrida por Cristo crucificado fora dos muros da cidade. Isto quer dizer que agora é no profano onde se deveria ver o verdadeiro culto e que a ruptura com o sacerdócio levítico seria também a ruptura com o sacerdócio como tal: o presbiterado não seria o sacerdócio; o sacerdócio seria algo do Antigo Testamento ou pagão, não uma coisa do cristianismo. Esta interpretação do Novo Testamento em uma perspectiva - uma hermenêutica - fundamentalmente protestante e secularizante se fez cada vez mais forte com o tempo.

Por último, parece-me que a mudança da Igreja universal à Igreja local, e da Igreja local à comunidade local - como nos disse o professor De Mattei - foi e é, neste momento, um dos maiores problemas. Diz-se agora que a liturgia reflete a experiência religiosa da comunidade e que a comunidade é o único sujeito verdadeiro; isto nos conduz, de fato, não somente até uma fragmentação total da liturgia, mas até uma destruição da liturgia como tal, já que se a liturgia é somente o reflexo das experiências religiosas da comunidade, já não comporta a presença do mistério. É, pois, o ponto sobre o qual se deve firmemente resistir; há que redescobrir a Igreja - o corpo de Cristo - como o verdadeiro sujeito da liturgia. Assim pois, é preciso dar-se conta de que com uma exegese secularizada e uma hermenêutica profundamente protestante e secularizada, não se podem encontrar no Novo Testamento os fundamentos da nossa fé; e que com a fragmentação da liturgia considerada como o ato particular das comunidades locais, se perde a Igreja, e com a Igreja a fé e o mistério. Deve-se voltar, no entanto, a uma exegese arraigada na realidade viva da Igreja, da Igreja de todos os tempos, também a medieval. Deve-se reencontrar também, consequentemente, a realidade cultural e o sacerdócio no Novo Testamento, e recobrar o que é essencial para a liturgia; neste sentido, queria dizer que, com os limites que sem dúvida se podem encontrar nos textos de Trento, Trento segue constituindo a norma, relido com nosso conhecimento mais rico e mais profundo dos Padres e do Novo Testamento, lido com os Padres e com a Igreja de todos os tempos.

A conferência continua falando sobre o problema dos ritos romanos dentro do rito romano.

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Para citar: RATZINGER, Joseph Aloisius. Obras completas: Teologia da liturgia. Madri: Biblioteca de Autores Cristianos, 2012. 561 p. ISBN: 978-84-220-1609-0. Publicado no blog Regozija-te com a verdade, aos 16 de maio de 2016. Tradução de Gabriel Luan Paixão Mota.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Qual a necessidade de uma 'reforma da reforma' litúrgica?



Reforma da reforma litúrgica



Publicamos para a reflexão dos nossos leitores um texto fundamental para a compreensão do pensamento de Bento XVI a respeito da situação litúrgica da Igreja.

Que a sua leitura ou releitura possa contribuir para que cada vez mais possamos lutar pelo crescimento de um Novo Movimento Litúrgico nos nossos dias como pede o Santo Padre, pedido este que vem sendo atendido por tantos bispos, sacerdotes e fiéis em todas as partes e que só pode ser descartado por espíritos voluntariamente superficiais, como ele mesmo diz em introdução que fez a uma obra do grande liturgista Klaus Gamber.
Fonte:  Doutrina Católica Apostólica Romana. Página do Facebook.


Bento XVI, A Minha Vida, Lisboa: Livros do Brasil, 2010, pp.106-108:

O segundo grande acontecimento que ocorreu no começo dos meus anos de Ratisbona foi a publicação do "Missal", de Paulo VI, com a proibição quase total do "Missal" anterior, após uma fase de transição de cerca de seis meses. O facto de, após um período de experiências, que amiúde desfiguraram por completo a liturgia, se passar a ter um texto litúrgico vinculativo, era de saudar como algo seguramente positivo. Mas fiquei estupefacto com a proibição do "Missal" antigo, dado que nunca na história da liturgia se verificara uma situação semelhante. Quis-se passar a ideia de que era uma coisa normal. O "Missal" anterior tinha sido publicado por Pio V em 1570, na sequência do Concílio de Trento; era portanto normal que, passados quatrocentos anos e um novo Concílio, um novo papa publicasse um novo "Missal". Mas a verdade histórica é outra. Pio V limitara-se a reelaborar o "Missal" romano que se utilizava na época, coisa que aliás sempre acontecera ao longo dos séculos. Por seu lado, muitos dos seus sucessores reelaboraram ulteriormente este "Missal", sem nunca, porém, contraporem um "Missal" ao outro. Tratou-se sempre de um processo contínuo de crescimento e de purificação, em que, no entanto, a continuidade nunca era posta em causa. Um "Missal" de Pio V que tenha sido criado por ele, simplesmente nunca existiu. O que existe é a reelaboração que ele mandou fazer, como fase de um longo processo de crescimento histórico. A novidade, após o Concílio de Trento, foi de outra natureza: a invasão súbita da reforma protestante fizera-se sentir sobretudo na modalidade das reformas litúrgicas.

Não havia simplesmente uma Igreja católica e uma Igreja protestante, postas uma ao lado da outra, a divisão da Igreja ocorreu quase imperceptivelmente e teve a sua manifestação mais visível e historicamente mais incisiva nas mudanças ao nível da liturgia. Estas mudanças resultaram de tal maneira diversificadas ao nível local, que o limite entre o que era e não era católico se tornou, amiúde, bem difícil de definir. Esta situação de confusão, criada pela ausência de uma normativa litúrgica unitária e pelo pluralismo litúrgico herdado da Idade Média, fez com que Pio V decidisse que o "Missale Romanum", o texto da liturgia da cidade de Roma, por ser seguramente católico, devia ser introduzido em todo o lado onde não houvesse uma liturgia com, pelo menos, duzentos anos de existência. Onde este critério se verificava, podia manter-se a liturgia anterior, dado que o seu carácter católico era considerado seguro. Não se pode, por isso, falar de uma proibição relativa aos "Missais" anteriores e até ao momento regularmente aprovados.

Agora, pelo contrário, a promulgação do impedimento do "Missal" que se tinha desenvolvido ao longo dos séculos, desde o tempo dos sacramentais da Igreja antiga, implicou uma ruptura na história da liturgia, cuja consequências não podiam deixar de ser trágicas. Tal como já tinha acontecido muitas vezes, era razoável e plenamente em linha com as disposições do Concílio que se fizesse uma revisão do "Missal", sobretudo, tendo em consideração a introdução das línguas nacionais. Mas nesse momento aconteceu algo mais: destruiu-se o edifício antigo e, embora utilizando o material e o projecto deste, construiu-se um novo.

Não há dúvida de que, em algumas partes, este novo "Missal" trouxe verdadeiros melhoramentos e um real enriquecimento. Contudo, o facto de ter sido apresentado como um edifício novo - contraposto ao que fora construído ao longo da história - que se proibisse este último e que, de certa maneira, se concebesse a liturgia já não como um processo vital, mas como um produto de erudição especializada e de competência jurídica, trouxe-nos danos extremamente graves. Com efeito, deste modo desenvolveu-se a ideia de que a liturgia se "faz", de que não é uma realidade que exista antes de nós, - algo de "dado" -, mas que depende das nossas decisões. Consequentemente, esta capacidade de decisão não é só reconhecida aos especialistas ou a uma autoridade central, mas também em definitivo a qualquer comunidade que queira ter uma liturgia própria. O problema é que, quando a liturgia é algo que cada qual pode fazer à sua maneira, ela deixa de nos poder dar aquela que é a sua verdadeira qualidade: o encontro com o mistério, que não é produto das nossas acções, mas a nossa origem e a fonte da nossa vida. Para a vida da Igreja, é dramaticamente urgente um renovamento da consciência litúrgica, uma reconciliação litúrgica, que volte a reconhecer a unidade da história da liturgia e compreenda o Vaticano II não como ruptura, mas como momento evolutivo

Estou convencido de que a crise eclesial em que actualmente nos encontramos depende, em grande parte, da decadência da liturgia, que, por vezes, é mesmo concebida "etsi Deus non daretur": "como se se já não interessasse se Deus está ou não presente nela", se Ele nos fala e ouve ou não. Mas se na liturgia já não aparece a comunhão da fé, a unidade universal da Igreja e da sua história, o mistério de Cristo vivo, de que modo é que a Igreja manifesta a sua substância espiritual? Nesse caso, a comunidade celebra-se apenas a si mesma, coisa que não tem qualquer valor. E dado que a comunidade em si mesma não pode subsistir, mas é criada, na fé e como unidade, pelo próprio Senhor, torna-se inevitável que, nestas condições, se chegue ao ponto da fragmentação em partidos de todo o género, à contraposição partidária numa Igreja que se dilacera a si mesma. É por isso que precisamos de um novo movimento litúrgico, que recupere a verdadeira herança do Concílio Vaticano II.


Fonte: Links católicos, com adaptações.

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